[RESENHA #975] Deus criou primeiro um tatu, de Yvonne Miller

Alemã de nascença, brasileira de alma, Yvonne Miller reúne nesta obra 50 crônicas e microcrônicas ambientadas em Aldeia dos Camarás, na Mata Atlântica pernambucana.

Com o olhar atento, carinhoso e não ingênuo à vida no Nordeste, Yvonne Miller pincela a realidade cotidiana com a graça e a delicadeza de uma cronista madura.

Tudo para Yvonne Miller é matéria fértil para uma crônica: o dia a dia no Bosque Águas de Aldeia, uma cobra enroladinha na árvore, as descobertas de Chico, “o cachorro mais boa-praça do condomínio”, a caranguejeira em cima da cama etc. Com bom humor, ela nos ensina a perceber a poesia possível do nosso entorno.

Leve e divertido sempre que pode, Deus criou primeiro um tatu também é crítico e político quando precisa.


RESENHA


Deus criou primeiro um tatu é um livro de crônicas da autora Yvonne Miller, publicado pela editora Aboio. A obra é um ensaio intrincado de dúvidas e processos políticos acerca da mudança. Miller narra, com muito bom humor, os aspectos que ignoramos na vida e na natureza, bem como nosso poder de perseverança [e resistência] em meio à mudança. O enredo se inicia com uma passagem da autora revelando um encontro com um pajé, já no prólogo, ele por si, aconselha Miller a desbravar a natureza para se reconectar consigo mesma, em outras palavras, se reencontrar. 

Na sequência, em partiu, a autora nos convida á refletir sobre a resistência humana acerca das mudanças. Ela menciona os pequenos gestos e momentos da vida que não carregamos ou apreciamos com tanto entusiasmo quanto outros. Aqui, ela fala de organizar livros, apreciar o conto dos pássaros, ajeitar a moradia, comemorar os ventos e até mesmo , o prazer de se reconectar através da nudez. Este enredo bem elaborado e construído já começa com suas entrelinhas provocantes, sobretudo, quando uma personagem indaga 'indo embora?', sinalizando o recomeço de uma nova vida, um novo ciclo.

A autora segue suas provocações. O enredo construído de forma que nos leva à pensar apenas nas descrições minuciosas das aventuras de uma nova residência esconde algo em suas linhas. A autora por diversas vezes nos faz refletir sobre os detalhes que passam despercebidos por nós no dia-a-dia,  como mastigando frutinhas agridoces (p.22); ou como admirar a paisagem à nossa volta: A paisagem à minha volta é tão linda que mal dá para acreditar, o sol de verão está aquecendo a minha alma, e estou recebendo uma massagem da cachoeira. O que mais eu poderia almejar? (p. 23)

A autora celebra a vida, as visitas da família, os animais de estimação, o ar puro e as florestas. Seu cântico poético em cada linha revela um talento e uma destreza para ressignificar o poder de uma observadora nata, uma observadora da vida. Os humanos e os animais se dividem em dois grupos: os que pastoreiam e os que se deixam pastorear (p.43), fazendo uma clara alusão à felicidade existente na liberdade daqueles que se deixam pastorear pela vida e pelos momentos. Já em 'eis a pergunta', ela nos leva à uma reflexão acerca do espaço e do uso que cultivamos dele: A vizinha nova já chegou chegando [...] mandou três funcionários para tirar tudo o que não fosse árvore do terreno junto ao nosso. [...] onde antes se alegrava com beija-flores, ora verdes, ora azuis, dançando entre as helicônias, agora se deparava com campo marrom [...] fiquei logo preocupada... (p.61), em uma referência da vizinha não cultivar os mesmos hábitos que ela em relação ao mundo e a natureza. Esta preocupação latente nos mostra o quão indelicado uma intervenção no espaço natural pode ocasionar em momentos de tristeza e dúvida para outros seres, animais ou não. E você, já refletiu sobre o uso do espaço hoje?

Em síntese, a obra de Yvonne Miller é doce, convidativa, alegre, política, efêmera, cativante e extremamente necessária. Ainda que seja um livro repleto de microcontos, a narrativa é, senão, um intricando poético de um ensaio de valoração da vida e da busca por conhecimento e descobertas. Um livro necessário.

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