[RESENHA #693] Perdas e ganhos, de Lya Luft


APRESENTAÇÃO

Lya Luft é uma mulher de seu tempo, e sobre ele dá seu testemunho em tudo o que escreve, especialmente neste novo livro. Uma mulher madura que já experimentou perdas e ganhos, mas mantém o otimismo, ama a vida, se diz “um bicho de sua casa” ― embora pouco doméstica, considera sua família o centro da vida, e a vida mais importante do que a literatura. Neste primeiro livro seu publicado pela Record, a romancista, cronista e poeta convida o leitor para refletir ao seu lado, indagar, contemplar e admirar o mundo. "Não somos apenas vítimas de fatalidades", diz. "Somos também senhores de nossa vida." Num misto de ensaio e memórias, Lya retoma diversos temas de O rio do meio ― livro publicado em 1996, vencedor do prêmio de melhor livro da Associação Paulista de Críticos de Arte. Considera o ser humano ao mesmo tempo bom e capaz, fútil, medíocre e até cruel. Embarcado numa vida que é um dom, um mistério, e uma conquista a cada momento. Lya acredita que “a felicidade é possível, que não existe só desencontro e traição, mas ternura, amizade, compaixão, ética e delicadeza.” Sobre isso dialoga, aqui, com seu leitor.Entre alegrias, descobertas, decepções e buscas, em Perdas & ganhos ― livro inédito desde as memórias de infância Mar de dentro, publicado em 2002 ― a autora busca dar um testemunho pessoal sobre a experiência do amadurecimento. Convoca o leitor para ser seu amigo imaginário: cúmplice e companheiro de reflexões que vão da infância à solidão e à morte, ao valor da vida e à transcendência de tudo. Lya divaga, discute e versa, com ímpeto, compaixão, e muitas vezes bom humor, sobre velhice, amor, infância, educação, família, liberdade, homens e mulheres, gente de verdade... e conclui que o tempo passa mas as emoções humanas não mudam, revelando que é preciso reaprender o que é ser feliz. Um livro sensível, delicado e inquietante de uma das mais importantes escritoras brasileiras da atualidade, premiada pela crítica e consagrada pelos leitores.

RESENHA

Perdas e Ganhos é uma obra escrita pela renomada escritora brasileira Lya Luft e foi publicada em 2003. O livro é um relato autobiográfico que mescla memórias pessoais, reflexões filosóficas e observações sobre a vida cotidiana.

Uma das características marcantes da escrita de Lya Luft em “Perdas e Ganhos” é a sua habilidade em criar descrições poéticas e sensíveis. Ela utiliza uma linguagem rica em metáforas e imagens, o que permite ao leitor se envolver profundamente com as histórias e emoções narradas.

No livro, Luft aborda uma série de assuntos, como a busca pela identidade, a importância das relações humanas, as transformações que ocorrem ao longo da vida e a necessidade de enfrentar as perdas e os desafios que surgem no caminho. A autora também explora questões existenciais, como a finitude, a solidão e a busca pelo sentido da vida.

Perdas e Ganhos foi bem recebido pelo público e pela crítica. A obra foi amplamente elogiada pela sensibilidade e profundidade com que Lya Luft aborda os temas universais da vida humana. O livro ganhou diversos prêmios e foi um sucesso de vendas, o que contribuiu para consolidar a carreira da autora como uma das mais importantes da literatura brasileira contemporânea.A obra se inicia com um poema intitulado convite, onde a autora nos convida, de forma poética, desbravar sua escrita:

Não sou a areia onde se desenha um par de asas ou grades diante de uma janela. Não sou apenas a pedra que rola nas marés do mundo, em cada praia renascendo outra. Sou a orelha encostada na concha da vida, sou construção e desmoronamento, servo e senhor, e sou mistério.

A quatro mãos escrevemos o roteiro para o palco de meu tempo: o meu destino e eu. Nem sempre estamos afinados, nem sempre nos levamos a sério.

Em relação a classificação de sua obra, Luft esclarece em procurando o tom:

Que livro é este? Talvez um complemento ao Rio do meio, de 1996. Escrito na mesma linha, retomando vários dos que são meus temas. Toda a minha obra é elíptica ou circular: tramas e personagens espiam aqui e ali com nova máscara. Fazem isso porque não se esgotaram em mim, ainda as vou narrando. Provavelmente assim continuarei até a última linha do derradeiro livro. Que livro é este, então? Eu não o chamaria de ensaios, porque o tom solene e a fundamentação teórica que o termo sugere não são jeito meu. Certamente não é romance nem ficção. Também não são ensinamentos - que não os tenho para dar. 

A obra de Lya é profunda e impactante, seus escritos falam da vida, sobretudo, dos períodos tempestuosos e sombrios da vida, como a própria autora, certa vez, disse: Sou fascinada pelo lado complicado. Tenho um olho alegre que vive: sou uma pessoa despachada, adoro família, adoro a natureza. Mas eu tenho um outro olho que observa o lado difícil, sombrio. A minha literatura nunca vai ser "aí casaram e foram felizes para sempre". Minha literatura sempre nasceu do conflito, da dificuldade, do isolamento.

A marca no flanco, é uma representatividade de como a vida se dá por meio do olhar de quem se vive, das cores e tonalidades que ela ganha segundo nossa visão e olhar. O poema é uma poderosa reflexão que não se caracteriza em forma, mas em um conteúdo que devasta o leitor de dentro para fora com suas nuances e descrições acerca da vivência e existência humana.

O mundo não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui forma, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem. É uma ideia assustadora: vivemos segundo o nosso ponto de vista, com ele sobrevivemos ou naufragamos. Explodimos ou congelamos conforme nossa abertura ou exclusão em relação ao mundo.

A coragem de persistir, correr atrás, viver e arriscar, os poemas de Luft são carregados de verdades insolúveis e cruéis demais para se serem lidas rapidamente, de forma à serem tomadas em um espaço de leitura e reflexão, para absorção das realidades impostas à nossa leitura extremamente sensível:Mesmo se fomos amados, sofremos de uma insegurança elementar. Ainda que protegidos, seremos expostos a fatalidades e imprevistos contra os quais nada nos defende.

É preciso aprender a perder sem se perder, cultivar o momento e a ausência de sobriedade, não saber como prosseguir é também parte da vida e da vivência experimental social de cada um, lidar com a frustração e com a dor é um caminho espinhoso, mas necessário:Foram-se os amores que tive ou me tiveram: partiram num cortejo silencioso e iluminado. O tempo me ensinou a não acreditar demais na morte nem desistir da vida: cultivo alegrias num jardim onde estamos eu, os sonhos idos, os velhos amores e seus segredos. E a esperança - que rebrilha como pedrinhas de cor entre as raízes. 

As reflexões também percorrem os caminhos tortuosos que a velhice e o processo de envelhecimento percorre, sempre de forma inesperada. Em velhice, por que não?, a autora discorre acerca do medo e do receio de se envelhecer. Tente pensar na velhice como um ato de ganho de maturidade, não de perca da juventude, é assim, segundo a autora, que poderemos entender a vida e os caminhos com uma ótica mais branda: o tempo não se detinha e desde moça seu maior pavor era perder aquele bem supremo. Olhava-se nos espelhos procurando uma primeira ruga, uma primeira dobra. Uma primeira manchinha. Quando chegou aos 60 anos quase morreu de dor, andava pela casa gritando: - Eu odeio fazer 60 anos! Eu não aguento fazer 60 anos!

E prossegue com sua prosa penetrante:Vou detestar se, ficando velha, alguém quiser me elogiar dizendo que tenho espírito jovem. Acho o espírito maduro bem mais interessante do que o jovem.

Luto e renascimento, é sobre perdas. Sobre saber perder: a vida, a juventude, a saúde, o tempo. A verdade é que ninguém gosta de perder, seja lá o que for, ninguém gosta de perder tempo, e o luto mais é do que a poderosa reflexão de que o tempo passa e somos reféns presos em um relógio que não para, e o fim, é um só:

[...] A perda de uma pessoa amada ou a perda da própria saúde, e a proximidade imediata da morte. Que lhes podia dizer, a eles, competentes profissionais que enfrentavam diariamente os rios de dor, medo, esperança e morte que afluem a um grande hospital? Nisso todos eles, mesmo os jovens, tinham muito mais experiência do que eu. Então procurei ser simples. Falar das naturais dificuldades em lidar com qualquer perda. Primeiro, não queremos perder.

Porém, há de se pensar em todas as nuances acerca do tempo, o tempo de viver:Se houver um tempo de retorno, eu volto. Subirei, empurrando a alma com meu sangue por labirintos e paradoxos - até inundar novamente o coração.

Lya Luft é uma escritora consagrada, com uma carreira literária sólida. Além de "Perdas e Ganhos", ela já publicou outros livros de sucesso, como "O Quarto Fechado", "A Asa Esquerda do Anjo" e "O Rio do Meio". Sua escrita se destaca pela capacidade de explorar as emoções humanas com profundidade, mesclando reflexões filosóficas e uma narrativa envolvente. O livro é, e deve ser, um exercício de reflexão constante para todo leitor, sua prosa altamente visceral é um convite à nossa própria existência.

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