[RESENHA #561] Mulher feita e outros contos, de Marilene Felinto


FELINTO, Marilene / Mulher Feita e outros contos. Marilene Felinto - São Paulo: Fósforo, 2022. ISBN 978-65-89733-79-7

APRESENTAÇÃO

Como podemos comparar um homem que deixou de ser escritor para se dedicar ao ofício de mecânico com uma mulher que viaja em um trem de Berlim para Munique enquanto observa outra passageira comer um ovo, e ainda, com uma menina que não aceita o fato de não ser notada por um colega de classe? Como esses e outros personagens tão diversos podem confluir? Aparentemente, não há nada que nos faça pensar que histórias tão banais possam se interligar, mas, nos dez textos de Mulher feita e outros contos, Marilene Felinto usa a simplicidade cotidiana para mostrar ao leitor que a complexidade da vida está ligada de modo íntimo ao ordinário.

A certa altura, uma senhora se surpreende ao ser questionada por uma jovem a respeito de formigas tanajuras servidas como iguarias no interior do país. Aquela pergunta tão singela, sobre algo tão prosaico, recria “na memória da velha senhora o alarido de crianças e adultos, a gritaria, a correria alegre de gente abatendo com redes finas e pedaços de pano as tanajuras que esvoaçavam baixo, voando e revoando em nuvens, enxames pretos, cheias de asas, sobre as cabeças das pessoas”. De uma conversa quase retórica em uma mesa de café da manhã, Marilene Felinto revolve áreas há muito desativadas da memória social, apresenta um choque de gerações e, consequentemente, carrega o leitor ao mais profundo dos Brasis. Nesta volta da consagrada autora de As mulheres de Tijucopapo ao conto, as confluências e separações acontecem ao acaso, de forma leve, mas impactante. O leitor que mergulhar nesse microcosmo sairá dele com a sensação de que se encontrou com um amigo, com a infância, ou a própria velhice, como se um pouco de cada um de nós estivesse descrito nas linhas desse livro.

Mulher feita e outros contos é uma reunião desse tipo de acontecimento, com personagens majoritariamente femininas que nos permitem refletir sobre a inconstância dos dias, como se fosse “um comentário qualquer desses, do lugar da nossa arrogância inútil” que nos faz rir “feito adolescentes sem compromisso”. São as linhas que costuram os nossos dias, os traços que, como desenhos imperfeitos, atingem a beleza que buscamos no comum.



RESENHA

Construir, reconhecer-se e assumir-se por completo é uma árdua tarefa, estamos constantemente enfrentando as nuances das transformações do tempo, da vida e, sobretudo, da visão, da que temos sobre nós, das que nos são impostas e das que adquirimos com o tempo. Marilene Felinto me pegou de jeito, eu realmente não esperava uma abordagem tão intensa e repleta de tantos significados, sua forma peculiar ao abordar temas tão sensíveis, e ao mesmo tempo, tão essenciais é algo que deixa sem palavras, eu realmente não estava preparado para ser surpreendido.

Mulher feita é a primazia do ensaio da autoestima, da (re)descoberta, do sentimentalismo, da vontade, da construção e da evolução do meu eu. Um livro que merece ser lido, refletido, pautado e ensaiado em todas as suas faces, encarado e escancarado em sua totalidade como uma possibilidade de penetração profunda de um exercício de reflexão.

Este livro abre-nos a possibilidade de revisitar a frase de Simone de Beauvoir: não nasce mulher, torna-se, e eu, gostaria de reescrever essa frase para um contexto mais geral para não nasce, torna-se, apenas.

O livro é composto por dez contos divididos ao longo de 74 páginas, cada um com sua particularidade, que o torna único. O primeiro conto, de abertura da obra, hipertexto a lápis, é a descrição de uma aula de desenho, aqui, a autora tece belíssimas e finas linhas gerais da reflexão, ao abordar como tema central uma aluna em uma aula de desenho, inicialmente, e, particularmente (in)descoberta, diminuída pelos comentários que ouvira outrora de seu dentista, de seu pai e de outras pessoas, ao abordarem seus traços particulares como sendo indesejáveis ou feios, o que a fez acreditar que não havia em si nenhum traço bonito ou digno de admiração, porém, na aula de desenho, sua professora exercitava que a beleza como sendo algo descoberto, revisto, redesenhado e não auto-imposto, afirmando de maneira categoricamente geral "não existe ninguém feio", a partir deste ponto, usando a aula de desenho como sendo um recurso autoexplicativo para o exercício de autodescoberta da aluna, a autora delineando-nos uma curvatura significativa e tênue entre poesia e poética, sua narrativa percorre os traços, as cores e as tentativas como parte do progresso de autodescoberta, de (re)admiração, sobretudo, de reconhecer em si os traços que à fazem única, afinal, não há ninguém feio e todos podem ofertar uma perspectiva distinta de um mesmo caminho.

Mulher feita, título homônimo do segundo conto desta obra, fala-nos acerca da descoberta de uma mulher sobre seu corpo, seus peitos e as reflexões que surgem a partir dali, tornando-a passageira de um percurso de descobertas, tornando-se figura central de sua própria narrativa, buscando-se exemplificar e estender suas descobertas para dentro e afora, descobrindo-se mulher feita, completa e em construção constante. Esta é uma obra sobre processo, progresso e reflexo.

Procura-se Michael, é, se não, um conto chave dentro da narrativa que percorre a descoberta da mulher feita. Aqui, uma personagem busca de forma incessante um homem de nome Michael, soldado de uma luta no Vietnã, que confundia-se com Tim, com John Boy, que declarava poemas ao ouvido, que curtia e amava maconha, que apresentou-se o sexo e o gozo, que fez e fazia primazia quando estavam juntos, que escondia segredos e deleitava-se nos prazeres, alguém a quem ela tanto procurou de forma incessante, uma vez, mulher feita. A narrativa é um exercício de reflexão, Michael, é, se não, a prova de que podemos nos sentir feitos e completos através das experiências e dos processos ao qual passamos, aqui, ela tornava-se completa em suas reflexões ao lembrar da figura de Michael, à quem apresentou-lhe um mundo totalmente inerente ao seu, reflexões diretas acerca do processo de crescimento, reconhecimento e busca do eu interior e de suas particularidades. Procura-se, Michael.

Segunda classe narra o encontro de duas mulheres em um vagão de trem, a principal, a contraponto, vinha de uma família pobre e miserável, seu pai, magrelo, desnutrido e sem nenhum dente na boca, devido à sua alimentação precária e manias estranhas, sua mãe, velha e cega de um olho, com um olhar morto e sem vida, como de um boto. A sua frente, uma mulher branca como clara, de cabelos amarelos como gema, trajando roupas surradas e chapéu velho, comia, na segunda classe, ovos e batata, toda aquela visão preocupou-se por toda viagem, afinal, despertara em si uma sequência de lembranças que à lembravam de toda sua pobreza, de sua origem pobre e de suas raízes das quais, aparentemente, não se orgulhava, apesar de finalizar toda história tratando-se ambas igualmente por mulheres de segunda classe, toda narrativa mostra-se contrária à essa diferença existente, criando ali, uma narrativa que diverge entre si, entre duas mulheres de igual classe, mas não de modos, e com certeza, não de destinos - e não, não falamos de viagem. A voz ecoa pela narrativa trazendo reflexões acerca do crescer, evoluir e dos caminhos que tomamos, nas formas que ganhamos, dos sentimentos que sentimos e da forma como reagimos.

Histórias e traços distintos que interligam-se apenas pelo fato de completar-se na construção do sujeito. Marilene Felinto, apresenta-nos uma ótica que permite-nos viajar, refletir e transitar entre a descoberta do que sentimos e temos sobre nós mesmos, sua narrativa agridoce e provocativa coloca-nos a pensar acerca da essência daquilo do qual somos feitos, elaborados e vivenciados, sua narrativa evoca sentimentos diversos nas mais variadas questões ligadas ao íntimo de cada experiência vivida. Mulher feita é um retrato de um misto emaranhado de pessoas que descobrem-se limitados em seus pensamentos e modos, interligando-se por meio do exercício de reflexão interno . Afinal, porque tomamos os rumos que tomamos? Por que buscamos aprovação da classe, abandonamos trabalhos, trocamos de caminho, tecemos comentários e buscamos aprovação externa? por que nos construímos e reconstruímos nosso íntimo e nossa vida por meio do exercício penoso e sofrido existente nos dias?

Este não é apenas um livro, é um exercício pessoal de cada leitor de análise profundamente própria. Uma obra impecável em sua proposta e altamente recomendada à todo leitor.

A AUTORA


Nascida em Recife em 1957, Marilene Felinto é formada em Letras pela USP e mestra em psicologia clínica pela PUC-SP. Tem dez livros publicados, entre eles As mulheres de Tijucopapo (Ubu, 2021), vencedor do prêmio Jabuti na categoria de autor revelação. É tradutora de autores como Ralph Ellison, Virginia Woolf, Edgar Allan Poe, Malcolm X e Hilton Als.

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