companhia das letras

Resenha: Modernidade e Holocausto, de Zygmunt Bauman

domingo, 22 de agosto de 2021

/ by Vitor Zindacta

Em 'Modernidade e Holocausto', Bauman sugere ao leitor que observe de forma mais crítica e, digamos, com melhores lentes o ponto de vista enxergado e propagado pela sociologia referente ao Holocausto. Para ele, a forma como os sociólogos trabalham este assunto subestima a real importância que ele realmente teve. Pois apresenta o Holocausto como um evento da história judaica, confortavelmente atípico e inconsequente da sociedade cristão-europeu, ponto culminante do antissemitismo, mas que pouco questiona a compreensão de uma tendência histórica que a modernidade teria do processo civilizador e muito menos revisa os tópicos ortodoxos da investigação sociológica. Ou, apresentando de outra maneira, um episódio em destaque de uma ampla categoria de conflitos sociais semelhantes, derivados de uma “predisposição natural”, inextinguível da espécie humana, ao preconceito e agressão. De ambas as formas, o Holocausto é posto como uma possibilidade “natural” a qual devemos contar, e, sobretudo, “explicar”, “compreender” ou “dar sentido” estudando a sociedade moderna.

O autor nos convida a uma reflexão mais profunda do objeto, na qual ele procura descobrir mais o que o Holocausto tem a dizer sobre a sociologia do que o contrário. Somos levados a notar que o Holocausto foi mais um produto da modernidade e não um fracasso como a corrente mais ortodoxa da sociologia nos faz crer: proclamando o Holocausto como uma derrota da modernidade em suprimir desejos estranhos da irracionalidade humana, ao invés de reconhecê-la como uma possibilidade. Ele sugere que separar civilização e crueldade selvagem, talvez não seja o mais correto, pois ambos coexistem na modernidade e uma, talvez, não “sobreviva” sem a outra, pois tanto a criação quanto a destruição são aspectos inseparáveis da sociedade civilizada como conhecemos. Em sua proposta, o Holocausto é um importante e confiável teste das possibilidades ocultas da sociedade moderna.
Bauman lança uma luz sobre o quão necessário foi a compreensão do moderno modo burocrático da racionalização e sua cega busca de eficiência, instrumentos para o extermínio em massa, derivadas de especificações bem desenvolvidas e firmemente arraigadas da divisão do trabalho. Ele explica que tudo só foi possível pois houve cooperação entre vários departamentos da burocracia estatal alemã, um cuidadoso planejamento, projeção da tecnologia e do equipamento técnico adequados, cálculo de orçamentos, e levantamento dos recursos necessários, ou seja, competência da rotina burocrática de escritório. A seu ver, a escolha do extermínio físico foi um esforço mais dedicado do Estado alemão em encontrar soluções racionais para sucessivos “problemas” que surgiam doravante as circunstâncias cambiantes.
Não obstante, ele nos alerta que nunca antes, em nenhum massacre ou genocídio parecido a busca pela “Solução final” entrou em conflito com a execução do objetivo e a eficiência em executar. A honra do funcionalismo público estaria na capacidade obedecer, de forma conscienciosa, a ordem superior, como se aquilo expressasse sua própria vontade. A disciplina do servidor público substituiria a responsabilidade moral. Exterminar tudo que não esteja dentro da regra interna da organização lhe daria a mais elevada virtude moral.
Ou seja, o sucesso administrativo do Holocausto se deu devido a utilização - como bem coloca o autor - de “pílulas de entorpecimento moral” que a tecnologia e a burocracia modernas colocavam à disposição. Afinal, grande parte dos autores não despejou o gás nas câmaras e nem atirou nos judeus. O distanciamento físico e psíquico do agente da ação de suas consequências, ou melhor, da invisibilidade de seus resultados moralmente repugnantes e principalmente, tornar invisível a humanidade da própria vítima, impulsionaria e, em partes, explicaria os fatores sócios psicológicos por trás da eficiência do método.
Por fim, propõe o autor que uma importante lição do Holocausto está na necessidade de encarar seriamente a crítica e expandir o debate crítico do “processo civilizador”, incluindo sua tendência a deslegitimar as motivações éticas da ação social. Pois identificamos em nossa sociedade a subordinação do uso da violência a cálculos racionais, então devemos reconhecer o Holocausto como resultados legítimos da tendência civilizadora e seu grande potencial.
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