companhia das letras

Resenha do livro Globalização: as consequências humanas Zygmunt Bauman

domingo, 22 de agosto de 2021

/ by Vitor Zindacta


Livro resenhado: Bauman, Z. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.


Zygmunt Bauman é um sociólogo polonês, iniciou sua carreira na Universidade de Varsóvia, onde teve artigos e livros censurados, professor nas Universidades de Leeds e Varsóvia, publicou livros como: Amor líquido, Vidas desperdiçadas, Modernidade e Holocausto, o consumismo pós-moderno.
No primeiro capítulo o autor introduz uma reflexão a respeito das grandes corporações, onde as decisões são tomadas por seus acionistas, que estão em localidades distantes da realidade em que a organização está inserida, e preocupam-se apenas com a lucratividade das empresas. E em consequência da globalização, mudam as empresas de local sem se preocupar com os funcionários que estão presos a esta localidade devido a família. Assim, quem não está preso a localização muda o destino de acordo com suas decisões, e quem está preso está destinado a sofrer as consequências deste processo. E quando os obstáculos surgem, o capital, por não estar preso ao espaço migra para locais mais pacíficos afim de não se desgastar com problemas.
A distância e a fronteira geográfica deixaram de existir e as palavras “perto”, “longe”, “dentro” e “fora” perderam sentido na medida em que a comunicação evoluiu, e junto dela o progresso dos meios de transporte. “Desenvolveram-se de forma consistente meios técnicos que também permitiram à informação viajar independente dos seus portadores físicos.” (BAUMAN, 1999, p.17). Segundo Bauman, a rede de computadores proporcionou um aumento na velocidade de transmissão da informação, sendo esta mais rápida que a viagem dos corpos. De acordo com Bauman, esse aumento na velocidade de transmissão tornou a comunicação cada vez mais barata, reduzindo assim, o custo entre local e global. “A comunicação barata inunda e sufoca a memória, em vez de alimentá-la e estabilizá-la.” (BAUMAN, 1999, p. 19). Essa afirmação do autor faz referência a velocidade com que as informações chegam e o excesso delas devido ao baixo custo. Essa velocidade e mobilidade deixaram o espaço sem interação, onde as elites estão cada vez mais isoladas e inacessíveis. Porém, este encurtamento das distâncias abrange apenas aqueles que tem liberdade para se locomover.
O autor expõe que passou-se a padronizar os espaços geográficos através da criação de medidas padrão, de distância, superfície e volume, mapas, a fim de que o ser humano seguisse os caminhos da uniformidade e homogeneidade, desde a construção das cidades, visando a “cidade perfeita”, onde os que não se adaptassem aos padrões de normalidade eram excluídos dessa sociedade. Porém, segundo Richard Sennet citado por Bauman, em uma sociedade tão homogênea fica difícil lidar com as diferenças e situações de incerteza, e isto desintegrou as relações sociais humanas e deixou as pessoas cada vez mais solitárias. “A experiência das cidades americanas analisadas por Sennet aponta para uma regularidade quase universal: a suspeita em relação aos outros, a intolerância face à diferença, o ressentimento com estranhos e a exigência de isolá-los e bani-los, assim como a preocupação histérica, paranoica com a “lei e a ordem”, tudo isso tende a atingir o mais alto grau nas comunidades locais mais uniformes, mais segregadas dos pontos de vista racial, étnico e de classe” (BAUMAN, 1999, p.54).
O rompimento entre Estado e economia segundo Bauman, permitiu com que as empresas migrassem de localidade sem ter prejuízo econômico e deixassem as consequências disso para o Estado. Ele ainda cita a falta de comprometimento dessas empresas com a população local onde estão se instalando, o que ocorre é a busca incessante por mão de obra barata e aumento dos lucros. Levando ao que o autor chama de nova desordem mundial, onde ele explicita que o Estado vem sendo eliminado, e paira a dúvida de quem está no controle e qual será o futuro da humanidade. E acrescenta, que globalização é o processo de desordem da economia e das relações sociais. O Estado perdeu a soberania e tornou-se dependente dos processos produtivos, apenas mantendo o interesse das grandes organizações, isso acontece devido ao Estado apenas manter e criar processos para manter a estabilidade financeira e econômica. Assim, o que se observa é que as promessas de redução das desigualdades sociais tem falhado, e visivelmente tem aumentado a riqueza dos mais ricos e piorado as condições de vida dos mais pobres.
A globalização trouxe com ela uma sociedade marcada pelo consumo e competitividade, “os bens, serviços e sinais devem despertar desejo e, para isso, devem seduzir os possíveis consumidores e afastar seus competidores” (BAUMAN, 1999, p.86). Para que haja crescimento econômico os consumidores devem estar cada vez mais interessados nos produtos e sentir necessidade de consumir, para isso a tecnologia tem evoluído constantemente para que os produtos de hoje possam ser substituídos em um futuro próximo. No livro Bauman cita Pierre Bourdieu e o “Estado beneficente”, onde as leis aplicadas pelos governos garantem segurança mínima a classe média e precárias as classes menos favorecidas. O que o autor coloca, é que o Estado vem priorizando os setores do capital financeiro e tornando precário os setores sociais.
Essa leitura contribuiu muito para o conhecimento de como a globalização impactou na sociedade, e quais as consequências futuras disso tudo. Porém, devido a linguagem utilizada pelo autor ser meio complexa, a compreensão não fica muito facilitada.
Esta obra é recomendada a estudantes, especialistas em estudos sociais, grande público que se interesse pelo assunto, por se tratar de um assunto de difícil compreensão, exigindo alguns conhecimentos prévios.
Bourdieu, P. L’architecte de l’euro passe aux aveux. Le Monde Diplomatique, setembro de 1997, p.19
Sennet, R. Something in the city: the spectre of uselessness and the search for a place in the world. Times Literary Supplement, 22 de setembro de 1995, p.13.
Postagem mais recente
Next Story Postagem mais antiga Página inicial
siga-nos no Instagram: @postliteral
Leia[+]
© all rights reserved
made with by templateszoo