companhia das letras

Resenha do livro: “44 cartas do mundo líquido moderno” de zygmunt bauman.

domingo, 22 de agosto de 2021

/ by Vitor Zindacta

BAUMAN, Zygmunt. “44 cartas do mundo líquido moderno”. Tradução: Vera Pereira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2011.


Zygmunt Bauman (Poznań, 19 de novembro de 1925) é um sociólogo polonês que iniciou sua carreira na Universidade de Varsóvia, onde teve artigos e livros censurados e em 1968 foi afastado da universidade. Logo em seguida, emigrou da Polônia reconstruindo sua carreira no Canadá, Estados Unidos e Austrália, até chegar à Grã-Bretanha, onde, em 1971, se tornou professor titular da universidade de Leeds, cargo que ocupou por vinte anos. Lá conheceu o filósofo islandês Ji Caze, que influenciou sua prodigiosa produção intelectual, pela qual recebeu
os prêmios Amalfi (em 1989, por sua obra Modernidade e Holocausto) e Adorno (em 1998, pelo conjunto de sua obra). Atualmente é professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia.

O autor Zygmunt Bauman, reúne em sua obra “44 Cartas do Mundo Líquido Moderno”, o lançamento de um olhar da contemporaneidade, buscando entender comportamentos, dicotomias e paradoxos desse novo paradigma social.
Para Interpretação, ele se utiliza da dialógica das cartas como forma de registro, através das quais ele traça uma interação com o leitor sobre a diacronia comportamental e de linguagem, caracterizado pelas mudanças das condições de vida, padrões de normalidade, de certo e errado, diferentes pontos de vista, conflito de gerações com ganho de quantidade e perda de qualidade de vida.

Em cartas como: “Conversas entre Pais e Filhos”, “Online. Offline”, “Como Fazem os Pássaros”, “Sexo Virtual” e “Estranhas Aventuras da Privacidade”, o autor apresenta como eixo central a abertura de novas possibilidades, com um grande gancho para o desenvolvimento profundamente ligado à cibernética. Nesta arena, discute-se como a comunicação e a conexão são rápidas e a forma como isso derrota facilmente a vida real, remodelando uma nova identidade social.
Na carta “Estranhas Aventuras da Privacidade”, o contraponto está em como manter e controlar a exposição e a disponibilidade entre um espaço de acesso livre e a necessidade de preservação de um grupo ou pessoa. Nesse local de conflitos, os julgamentos estão camuflados, pois não há uma imposição de resposta. Tudo é reavaliado e negociado de forma permanente, criando, assim, duas condições: reconhecimento/ tolerância, instabilidade/tensão.

Da carta 10 a 16, busca-se entender a relação entre pais e filhos. A luz dessa discussão vem permeada por assuntos como responsabilidade, auto – disciplina, padrões de normalidade, certo e errado, pontos de vista diferentes, conflitos de linguagem,... O momento de aquisição de valores passa a se diluir em outras práticas, como a substituição de regras por presentes, fragilizando a perda da identidade e respeito. Bauman comenta e traça um registro da “Geração X e Y” e as diferenças, vantagens e desvantagens, cultos ao corpo, falta de apelo crítico, que os torna vítima – fashion (moda ou moto – contínuo).

Da carta 17 a 25, o tema central é o consumo. Devido ao instinto de sobrevivência, o homem é obrigado a consumir. Só que o consumo consciente perdeu forças, dando lugar ao consumismo desenfreado. O ritmo frenético das mudanças, a sociedade capitalista, tudo faz com que a cultura se torne um armazém de ofertas variadas para todas as classes sociais distintas (A – E). Com isso, há um esvaziamento cultural, queda e perda substancial da educação. “A cultura no nosso mundo líquido não tem povo para cultivar, tem clientes para seduzir” (página 91). O que era simples ficou complexo, as indústrias criam pânico para vender “remédios”(em todos os sentidos), pois não há capilaridade de informações.

Da carta 27 a carta 37, o tema principal é a economia. Todo ano, celebra-se a possibilidade de melhorias, mas a imprevisibilidade econômica cria a regra do efeito borboleta. Poucas mudanças criam um grande volume do déficit econômico mundial, não se pode calcular o incalculável. As incertezas do mundo global estão contidas no mundo contemporâneo . Como propôs GRAMSCI “O velho está morrendo”, ou seja, a ideia de estado – nação está acabada. Para fugir da crise, cria-se a militarização do eu, separação das percepções entre os mais velhos e os novos,... Na verdade, estes artigos desejam “informar sobre a vida ocupacional, seguir regras, estabelecer parâmetros de consumo”.

Finalmente chega-se às cartas finais, que compreendem da 37 a 44: O raciocínio analógico e as tendências estatísticas nos faz pensar mais a prever acontecimentos. As cidades são centros dos eixos da globalização, desmantelamento dos impérios coloniais (processo migratório, naturalização da diáspora, gerando uma desconfiança dos estrangeiros resultando em um esvaziamento cultural).

Vivemos em um mundo globalizado, onde, cada vez mais, as relações vem se tornando superficiais e descartáveis. Bauman tenta, em seus 44 artigos, resgatar à consciência das pessoas essa superficialidade que vem tomando conta do nosso dia - a – dia e modificar esse quadro, através de uma reflexão esclarecedora. Cabe a nós leitores, colocarmos as mãos em nossas consciências e rever os nossos critérios de adoção de convivência conosco e com as pessoas ao nosso redor. Só assim, poderemos modificar esse quadro.
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