companhia das letras

Psicose ► [resenha filmíca]

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

/ by Vitor Zindacta



Psicose (HITCHCOCK, 1960) é um clássico do cinema preto e branco que se destacou em sua época pelo seu conteúdo terrorista. O autor do filme decide abster-se de monstros e ficção científica, e utiliza os próprios aspectos psicopatológicos do protagonista da história, Norman Bates para horrorizar os telespectadores. O filme consiste na historia de um assassinato misterioso que ao final levanta várias questões tanto no campo psicológico quanto jurídico.
Inicialmente, o filme ilustra a vida de Marion, uma secretária de uma imobiliária que num certo momento de seu emprego vê a possibilidade de mudar sua vida e resolve fugir da cidade após desfalcar de seu patrão 40 mil dólares. Certa de que seu crime só seria percebido após o final de semana, Marion sai dirigindo sem destino pelas estradas até parar no decadente Motel Bates para se hospedar. La é recebida por Norman Bates, um rapaz imaturo, tímido e frágil, que visivelmente era dominado pela mãe, da qual se ouve apenas os gritos com o filho e se vê apenas as sombras pela janela de sua casa, que ficava ao lado. A mãe de Norman se apresenta uma figura envolta de mistérios.

Num certo momento, após uma conversa entre Norman e Marion, esta já no banho é surpreendida e assassinada a facadas por uma pessoa não identificada (mas que sugere ser a mãe do rapaz) numa das cenas mais famosas de toda a história do cinema. Logo em seguida, o filho aparece para limpar a cena do crime e se livra do cadáver. O desenrolar da história, então, leva os personagens (irmã de Marion, um detetive e o patrão) até o Motel Bates, onde se revela os segredos da trama.
Somente ao final, o caso é esclarecido. Dez anos atrás, a mãe de Norman que já era viúva envolvera com outro homem, situação esta que tornou a vida do jovem num intenso conflito com a realidade. Visto que o vínculo com sua mãe fora ameaçado, Norman acaba envenenando o casal fazendo com que parecesse um duplo suicídio, além de roubar o corpo da mãe e embalsamá-lo posteriormente. E é a partir daí que seu transtorno se intensifica, tanto ao ponto de se travestir como sua mãe e assumir a sua personalidade nos momentos de delírio. O assassinato de Marion é finalmente concluído, e Norman Bates considerado o assassino.

Ao final do filme, num caráter psicanalítico, um médico psiquiatra analisa o caso como um complexo de Édipo não resolvido, e a partir daí poderemos levantar em discussão a seguinte frase citada no filme pelo próprio Norman, “Estamos todos presos em nossas próprias armadilhas… Eu nasci na minha.”. Tal frase ilustra nitidamente a relação confluente de Norman com a mãe e o não descolamento da figura materna.

No diálogo com Marion, outro fato relevante é o relatado por Norman, ao dizer que seu pai já falecera num momento anterior. Sendo assim, podemos encontrar um traço que pode ter levado o personagem a uma suposta psicose: problemas quanto à introjeção do Nome-do-pai (Lacan, 1901-1981). O desejo de Norman pela mãe, então se tornaria forte demais sem seu pai, falecido, que lhe introjetaria a lei.
Não obstante a esses problemas na constituição de sua psique, aparece na vida de Norman uma terceira pessoa: um novo companheiro para sua mãe. Norman não suporta a intromissão de um terceiro no relacionamento entre ele e sua mãe, afinal sua lei primordial havia sido afetada. Neste contexto, sem a atenção de sua amada mãe, o personagem enlouquece e assassina sua progenitora e seu padrasto.

Já pelo fato de que Norman se travestia com as roupas de sua mãe e peruca, é interessante notar que exatamente quando estava sob controle da personalidade de sua mãe que ele assassina Marion. No entanto foi percebido que havia lacunas de memórias justamente nos períodos em que ele era a mãe, deste modo, Norman tinha uma certeza consigo de que sua mãe seria quem havia cometido os assassinatos (visto que Marion foi apenas uma das vítimas de Norman) e deveria então protegê-la. Nesta visão, é diagnosticado um transtorno dissociativo de personalidade, na qual o paciente é dominado por uma ou mais personalidades distintas, sendo que cada uma delas tem alcance completo ou quase completo sobre suas funções mentais e seu comportamento segundo...

Seguindo a análise, chegamos à questão: quais deveriam ser os próximos passos das autoridades frente a um crime como este? Norman seria condenado?
Todo o interesse governamental, quando se fala em delinquência e prisão, está em mostrar as formas concretas de objetivação do poder. Os aspectos psicopatológicos, nesse tema, que deveriam ganhar extrema atenção nem sempre é colocado em pauta. O procedimento que costumam utilizar, apenas age sobre os sujeitos, através de sistemas meticulosos institucionais, e desta forma estabelecem uma tecnologia da punição. Este seria apenas um projeto de uma genealogia do poder, desenvolvida a partir do dispositivo carcerário. Neste caminho, Foucault cita:
No ponto de partida, podemos então colocar o projeto político de classificar exatamente as ilegalidades, de generalizar a função punitiva, e de delimitar, para controlá-lo, o poder de punir. Ora, daí se definem duas linhas de objetivação do crime e do criminoso. De um lado, o criminoso designado como inimigo de todos, que tem interesse em perseguir, sai do pacto, desqualifica-se como cidadão e surge trazendo em si como que um fragmento selvagem de natureza; aparece como o acelerado, o monstro, o louco talvez, o doente e logo o “anormal”. É a esse título que ele se encontrará um dia sob uma objetivação científica, e o “tratamento” que lhe é correlatado. De outro lado, a necessidade de medir, de dentro, os efeitos do poder punitivo prescrevem táticas de intervenção sobre todos os criminosos, atuais ou eventuais: a organização de um campo de prevenção, o cálculo dos interesses, a entrada em circulação de representações e sinais, a constituição de um horizonte de certeza e verdade, o ajustamento das penas a variáveis cada vez mais sutis, tudo isso leva igualmente a uma objetivação dos crimes e dos criminosos.

Freud, Sigmund. "A dissolução do complexo de Édipo." Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud 19 (1924).
Lacan, Jacques. O seminário: livro 3: as psicoses. Jorge Zahar, 2002.
Foucault, Michel. Vigiar e punir. Vozes, 1977.

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