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RESENHA: Tempo morto e outros tempos, de Gilberto Freyra

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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A obra Tempo morto e outros tempos, de Gilberto Freyre, constitui um documento de excepcional relevância para a compreensão da gênese do pensamento sociológico brasileiro, configurando-se menos como um diário estrito e mais como o que o próprio autor denominou uma "autobiografia à prestação". Sob uma perspectiva técnico-científica, o livro revela o processo de self-fashioning ou autoconstrução de um intelectual que, na maturidade, revisita e reinterpreta sua juventude para consolidar a autoimagem de arauto da identidade pernambucana e intérprete da formação nacional. A análise sociológica da obra permite identificar a transição de um jovem inserido em um contexto periférico para um acadêmico cosmopolita, cujas experiências em universidades americanas e europeias moldaram a metodologia híbrida que viria a caracterizar sua produção futura.

O livro abrange o período de 1915 a 1930, registrando desde as inquietações da adolescência no Recife até o impacto da Revolução de 30, que o levou ao exílio. Sociologicamente, os registros evidenciam o choque cultural entre a formação anglo-saxônica, adquirida sob a influência de mestres americanos, e as raízes latinas e católicas do autor. Freyre admite que confiar segredos a um diário íntimo era uma marca de sua deslatinização, uma prática mais comum em culturas protestantes do que na tradição católica do confessionário. Essa dualidade é fundamental para compreender sua sensibilidade aos hibridismos culturais, tema central em sua obra posterior.

Um aspecto técnico crucial reside no caráter memorialístico da obra. Embora Freyre alegue que o texto baseia-se em notas originais salvas da ação dos cupins, evidências internas sugerem uma reescrita retrospectiva. Como observa Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke, muitas passagens refletem mais o "Freyre maduro e famoso" do que o jovem aprendiz do período de 1918 a 1930. Exemplo disso é a acentuação de sua relutância em radicar-se fora de Pernambuco, quando documentos da época mostram que ele tentou a sorte em São Paulo após retornar dos Estados Unidos em 1923. Assim, o diário opera como uma ferramenta de legitimação intelectual, onde a memória é selecionada e moldada para servir à narrativa de sua missão como intérprete do Brasil.

A formação acadêmica em instituições como a Universidade Columbia, sob a orientação de mestres como Franz Boas e Franklin Giddings, é detalhada como o marco de sua especialização em Ciências Sociais e Políticas. Freyre registra sua imersão na Antropologia Cultural, reconhecendo que a "simples História não basta" para a compreensão sociológica profunda, que exige uma abordagem que una ciência e arte. Em suas palavras, o estudo básico para qualquer especialização em matéria social reside na Antropologia, ciência que ele descreve como possuidora de centros "criadores" em Columbia. Essa base científica permitiu-lhe desenvolver um olhar crítico sobre a realidade brasileira, distanciando-se do "americanismo jurídico arcaico" de figuras como Rui Barbosa e buscando uma síntese que incluísse a interpretação econômica da história.

O diário também documenta a rede de sociabilidades intelectuais de Freyre, incluindo encontros com figuras como William Butler Yeats, Amy Lowell e Oliveira Lima. Esses contatos não apenas enriqueceram sua erudição, mas também reforçaram seu individualismo e sua resistência ao especialismo pedante do doutorado de modelo germânico (Ph.D.), o qual ele descreve como glorificador do "especialismo pedante, estreito, ridículo". Em vez disso, Freyre optou por uma trajetória de estudos livres e aventurosos, guiado pelo que chamou de "hispanismo" e pela valorização do regionalismo. Essa postura sociológica antimetropolitana é visível em sua defesa da identificação do homem com suas raízes regionais, inspirada pelo movimento de Mistral e Maurras na França.

No plano pessoal, os registros de 1915 a 1917 no Recife mostram um adolescente dividido entre a insegurança e a vaidade, lidando com questões de sexualidade e religiosidade. Freyre descreve sua iniciação sexual como um ato que criou "outro eu dentro do meu eu", alterando permanentemente sua relação com o mundo familiar. Simultaneamente, seu breve entusiasmo pelo cristianismo evangélico batista revela um desejo juvenil de antiburguesia, vendo no protestantismo um modo de ser cristão ligado às camadas mais humildes, em contraste com a hegemonia católica. Contudo, essa aventura logo dá lugar a uma redescoberta poética do catolicismo através da filosofia de George Santayana, que o reconciliou com a concepção católica da vida.

A técnica narrativa de Tempo morto e outros tempos antecipa métodos de pesquisa de campo (field-work) que Freyre aplicaria em sua carreira. Ele descreve o uso da bicicleta para colher notas sobre a vida nas mucambarias do Recife e em velhos engenhos, buscando captar o "social total" através do mais intimamente humano. Essa busca pelo humano o leva a conviver tanto com a alta fidalguia quanto com a "negralhada" e prostitutas, coletando confissões que serviriam de base para uma sociologia da intimidade brasileira. Ele rejeita a imagem do erudito puramente livresco, defendendo que o verdadeiro estudo exige o contato com a vida e a observação da rotina cotidiana.

Em suma, Tempo morto e outros tempos é uma obra seminal para compreender a trajetória de um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX. Como resenha sociológica, o livro demonstra como Freyre utilizou o gênero híbrido do diário-memória para processar suas experiências transnacionais e transformá-las em um método original de análise da sociedade brasileira. O texto é atravessado por uma "saudade sem prazo fixo", que informa o presente através da evocação constante do passado, configurando o que ele chamou de método de interpretação psicológica e sociológica do povo. Ao encerrar o diário em 1930, Freyre posiciona-se como um homem que, apesar do exílio, permanece enraizado em sua terra, preparado para escrever o "grande livro" sobre o drama da formação brasileira.

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O Post Literal é um portal de cultura e entretenimento focado na interseção entre literatura, cinema e cultura pop. Fundado e editado pelo escritor Vítor Zindacta, o site se propõe a investigar as artes não apenas como lazer, mas como reflexos do tempo atual. A plataforma oferece críticas, resenhas, análises aprofundadas e entrevistas, cobrindo desde clássicos literários e lançamentos do mercado editorial nacional até fenômenos do universo geek e cinematográfico.

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