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Cuícas Imortais: Os Mestres da Percussão do Samba agora em um tributo literário

Da África ao Brasil, a História e Evolução da Cuíca na Música Brasileira
Foto: Arte digital / Divulgação


APRESENTAÇÃO

A cuíca, um tambor de fricção bastante usado na percussão do samba, se desenvolveu no Brasil a partir de tambores centro-africanos de Angola e do Congo. Há referências sobre instrumentos bastante parecidos, oriundos de regiões onde viviam os kimbundos, ambundos e kiocos. Entre nós, o tambor dos bantos foi chamado, além de cuíca, de fungador,
tambor-onça, angona-puíta etc. Nos primórdios do samba, as cuícas, muitas vezes construídas artesanalmente a partir de barricas e pequenos tonéis de madeira, exerciam funções ligadas à marcação do ritmo, explorando sonoridades mais graves. Aos poucos, porém, o instrumento foi se transformando, ganhando características sonoras mais agudas, batucando e repicando sonoridades peculiares em rodas, terreiros, escolas de samba e shows.

É esse instrumento marcante na história da percussão brasileira que conduz as histórias contadas neste livro por J. Muniz Jr. e Paulinho Bicolor. Os autores, com conhecimento de causa curtido no couro das rodas de samba, abordam nas páginas que seguem a trajetória de grandes nomes da história do instrumento. A partir da figura seminal de João Mina, batuqueiro do bairro carioca do Estácio de Sá, que introduziu o instrumento nas escolas de samba, temos um passeio que mistura dados biográficos, modos de tocar, inovações, contribuições e heranças deixadas por nomes como Manoel Quirino, Bide, Generoso, Ministrinho e tantos outros.

Ao relembrar as trajetórias dos grandes construtores dos modos brasileiros de tocar cuíca, os autores prestam ainda um serviço inestimável à historiografia do samba, chamando para a grande roda do tempo — pelo nome — aqueles que, a partir das gramáticas do tambor, ousaram preencher o vazio com sonoridades inusitadas.

Luiz Antonio Simas

RESENHA

Foto: Arte digital / Divulgação

Cuícas imortais: de João Mina à Boca de ouro, de J. Muniz Jr e Paulinho Bicolor é Um tributo aos lendários cuiqueiros que se destacaram no século XX pelo extraordinário desempenho artístico com seus instrumentos mágicos, pois a cuica é o canto e o encanto do samba. A cuíca é um instrumento musical importante na cultura brasileira, com origens africanas e que se tornou parte fundamental do samba e de outras manifestações afro-brasileiras. O livro "Cuícas Imortais" apresenta a história e os perfis biográficos dos músicos que contribuíram para a transformação e permanência desse instrumento ao longo do tempo. Além disso, destaca a cuíca como um instrumento de sociabilidade que cria laços afetivos entre as pessoas. O Instituto Cultural Glória ao Samba enaltece a importância desses músicos e espera que mais obras sejam produzidas para homenagear outros ritmistas do samba.

O prefácio do livro "A Cuíca Ronca entre o Sagrado e o Profano" destaca a importância da cuíca na percussão do samba e sua origem a partir de tambores centro-africanos. O instrumento, inicialmente utilizado para marcar o ritmo com sonoridades graves, evoluiu para produzir sons agudos e distintos. Os autores do livro, J. Muniz e Paulinho Bicolor, exploram a trajetória de grandes nomes da história da cuíca, destacando suas contribuições e inovações. A cuíca é descrita como um instrumento misterioso, capaz de evocar memórias ancestrais e ritmos distintos. O livro é recomendado como uma contribuição valiosa para a historiografia do samba, ressaltando a importância da cuíca na música brasileira.


Arte digital / Divulgação


A obra se inicia narrando a história de João Mina, um dos pioneiros da cuíca no samba, é repleta de mistérios e contradições. Apesar de ser considerado por alguns como o inventor do instrumento, sua real importância e contribuição para a música popular ainda são motivo de debate. No entanto, sua participação na história do samba e sua parceria com grandes nomes como Noel Rosa são fatos incontestáveis. Sua trajetória exemplifica a complexidade e riqueza cultural por trás dos instrumentos musicais e das manifestações artísticas.

Foto: Morula / Divulgação

Desde os primórdios do samba, a presença feminina sempre foi marcante, mesmo muitas vezes sendo subjugada em canções machistas. Mulheres como Tia Ciata são lembradas por seu papel de liderança no samba, mas pouco se fala sobre a participação feminina em atividades consideradas masculinas, como a função de ritmista. Dalila e Dila, retratadas em uma fotografia de 1932, são exemplos disso, destacando-se como mestras da cuíca e do tamborim. A importância dessas mulheres no samba é ressaltada, questionando quantos outros talentos femininos foram ignorados ao longo da história. Dalila, retratada como uma das primeiras ritmistas do samba, merece destaque por sua contribuição para a cultura popular brasileira.

A revista O Cruzeiro publicou uma reportagem em 1935 sobre a visita dos bailarinos russos Clotilde e Alexandre Sakharoff ao terreiro da escola de samba Lyra do Amor, no Rio de Janeiro. Eles se encantaram com o samba e com a cuíca de Manoel Quirino, um cuiqueiro renomado da época. A reportagem destaca a técnica antiga de fabricação e afinação da cuíca, que envolvia tachinhas, arruelas e arame, além do uso do fogo para ajuste do couro. A execução da cuíca também era diferente, com apenas uma mão, o que limitava as frequências sonoras. Nos anos seguintes, houve modernizações na fabricação e afinação da cuíca, permitindo maior variedade de sons e tornando o instrumento mais versátil musicalmente.

O autor também destaca a história de Deovirgilio Florentino de Carvalho, um operário e oficial de caldeireiro, inventou um novo tipo de cuíca chamado de "cuíca-tuba" em 1933. Ele adaptou a caixa acústica da cuíca com uma campânula de tuba na esperança de amplificar o som do instrumento. Apesar de sua inovação, a prática de adicionar campânulas na cuíca já era comum entre os cuiqueiros, e Deovirgilio pode ter sido inspirado por uma reportagem de 1931 que descrevia a cuíca comparando-a com a tuba. Naquela época, a cuíca tinha um padrão sonoro mais grave e era usada principalmente para sustentar o ritmo, tendo uma função semelhante à tuba na música popular.

Aclamado, Paulo Campos foi um pioneiro cuiqueiro aclamado como Rei da Cuíca em espetáculos artísticos, atuando também na escola de samba Alma Suburbana. Ele realizou uma modificação em sua cuíca, adicionando chaves de afinação, proporcionando maior controle sobre as frequências sonoras do instrumento. Essa inovação foi vista como um gesto de civilização da cuíca, promovendo seu avanço. Apesar de não ter sido seguido por outros cuiqueiros, o experimento de Paulo Campos revela um intenso processo de transformação na história da cuíca, com impacto histórico, musicológico e sociológico na sociedade brasileira.

Relembrado, Alcebíades Maia Barcelos, conhecido como Bide, foi um dos principais fundadores do bloco Deixa Falar, que inspirou as primeiras escolas de samba. Além de compositor, deixou importantes contribuições na história do samba, especialmente em relação à cuíca. Formou parcerias musicais importantes e foi um dos primeiros sambistas a se profissionalizar. Sua atuação como cuiqueiro foi documentada em registros históricos e ele também contracenou em um filme com a cantora Aurora Miranda. Apesar do prestígio, passou por dificuldades antes de falecer em 1975, sem a devida reverência ao seu legado.

O autor ainda cita que Oliveira da Cuíca foi um renomado músico carioca que se destacou como um dos primeiros e mais habilidosos tocadores de cuíca do Brasil. Ele cresceu em um ambiente boêmio no bairro do Estácio, onde sua mãe administrava um bordel. Ao lado de João Mina, ele formou o naipe de cuícas da escola de samba Deixa Falar. Oliveira também foi pioneiro na técnica de execução da cuíca e contribuiu para o desenvolvimento e popularização do instrumento. Além de atuar em escolas de samba e no show business carioca, ele se apresentou internacionalmente e foi elogiado por sua técnica inovadora. Apesar de sua breve carreira, Oliveira deixou um legado significativo na música brasileira, sendo reconhecido como o Rei da Cuíca e um dos principais músicos de acompanhamento da época. Sua morte prematura em 1938 foi lamentada pela imprensa e seus amigos, sendo erroneamente confundida com a de outro músico.

Pedro Moreira, conhecido como "Pedro da Cuíca", era um músico prestigiado que tocava cuíca em diversos eventos e programas radiofônicos nas décadas de 1930 e 1940. Ele fazia parte do conjunto regional de Nelson Miranda e também do grupo da rádio Mayrink Veiga, dirigido por Pixinguinha. Pedro inovou no instrumento, utilizando uma cuíca com uma pele de gato e aplicações de metal cromado, que proporcionava uma sonoridade magnífica. Ele era reconhecido por sua habilidade e virtuosismo ao tocar, destacando-se como solista em diversas apresentações. Pedro também teve a oportunidade de acompanhar renomados músicos em uma audição para o Dr. Carleton Sprague Smith, diretor da Seção Musical da Biblioteca Pública de Nova York, que elogiou as sonoridades únicas que Pedro conseguia extrair da cuíca.

A obra também relata a história do popular Chico da Cuíca, conhecido por seu talento como tocador de cuíca e sua vida boêmia no Rio de Janeiro nas décadas de 1930 e 1940. Ele era reconhecido por seu prestígio profissional e participou de importantes espetáculos musicais. No entanto, também enfrentou momentos difíceis, como uma briga que resultou em ferimentos graves. Chico faleceu em 1948, em circunstâncias trágicas, e seu corpo ficou insepulto por falta de recursos da família. A história de Chico da Cuíca reflete a dura realidade dos artistas populares da época, que enfrentavam dificuldades mesmo diante de seu talento e fama.

Generoso Bueno da Silva foi considerado o melhor cuiqueiro do Brasil na época em que alegrava as noites da cidade de Santos. Ele aprendeu a tocar cuíca através de um cuiqueiro carioca e se destacou como músico profissional em eventos sofisticados. No entanto, com o fechamento dos cassinos e a chegada de novos estilos musicais, Generoso passou por dificuldades e se afastou da vida artística. Mesmo assim, foi reverenciado em um concurso em 1970, mas percebeu que não poderia mais voltar ao passado glorioso. Ele viveu na penumbra até seu falecimento em 1990, sendo lembrado como uma figura importante na difusão artística da cuíca na região.

José Santiago da Silva, conhecido como Ministrinho, foi um dos muitos netos da famosa Tia Ciata, matriarca do samba. Cresceu em um ambiente bamba e culturalmente rico, influenciado pela ancestralidade africana. Com talento para a cuíca, tornou-se um dos cuiqueiros mais célebres da história, modernizando o instrumento. Viveu uma vida boêmia, marcada por jogos e sedução, mas também se destacou como músico de acompanhamento e protagonista, sendo requisitado em shows e gravações. Viajou pelo Brasil e pelo mundo, participando até mesmo de produções cinematográficas. Nos últimos anos, enfrentou dificuldades financeiras e precisou se sustentar com um emprego no cais do porto. Sua última atuação artística foi anunciada em uma boate no Rio de Janeiro. Ministrinho dedicou sua vida à cuíca e teve uma de suas antigas cuícas exposta no Museu da Imagem e do Som, infelizmente perdida em um incêndio em 1981. Sua trajetória honra o samba brasileiro.

Boca de Ouro foi um músico lendário dedicado à cuíca, com uma trajetória intensa e fascinante. Sua vida foi marcada por mistérios, desde seu apelido até sua origem, que permanece desconhecida. Com uma incrível musicalidade, Boca se destacou como um dos melhores cuiqueiros de sua época, conquistando fama no Brasil e internacionalmente. No entanto, sua vida pessoal foi marcada por acontecimentos trágicos e rumores, como seu envolvimento com a bebida e sua morte misteriosa, que até hoje suscita dúvidas.

O livro "Cuícas Imortais" é uma obra que celebra a importância da cuíca na cultura brasileira, destacando os músicos que contribuíram para sua história e evolução. A narrativa envolvente e detalhada traz à tona personagens fascinantes e suas trajetórias marcantes, revelando a complexidade e riqueza por trás desse instrumento tão emblemático. A pesquisa profunda e o respeito à memória dos cuiqueiros tornam o livro uma leitura indispensável para quem deseja entender melhor a influência da cuíca no samba e na música brasileira como um todo. A abordagem sensível e informativa dos autores J. Muniz e Paulinho Bicolor enaltece a importância cultural da cuíca, tornando o livro uma obra fundamental para quem aprecia e valoriza a riqueza da nossa música.

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