[RESENHA #1009] Dengue boy: a infância do mundo, de Michel Nieva


RESENHA

Uma história sobre um futuro cyberpunk tropical e latino, com Dengue boy: A infância do mundo, Michel Nieva se revela uma das vozes mais interessantes na literatura latino-americana contemporânea.

No ano de 2272, a crise climática atinge um ponto intransponível. As zonas polares derreteram por completo, a temperatura média global é de 90°C e cidades como Nova York e Buenos Aires se encontram submersas. No extremo sul do continente, os Arquipélagos Patagônicos formam o Caribe Pampiano: de um lado, um balneário com belíssimas praias artificiais; de outro, uma miserável e tépida orla. É nesse cenário devastado que cresce o dengue boy.

Ninguém gosta do dengue boy. Na escola, seu aspecto bizarro e nojento o transforma no principal alvo das zombarias comandadas pelo pequeno tirano Dulce. Em casa, sua situação não é muito melhor. A mãe, exausta de seus dois empregos, não aguenta a bagunça feito pelo filho, que não possui mãos. E assim, deslocado, o esquisito mosquito humanoide vai levando sua vida, dia após dia, no mormaço insuportável do único canto ainda habitável da Terra.

Este é um livro sobre um fim do mundo. Uma prosa cyberpunk latino-americana, tropical e frenética. Um delírio de realidades moribundas, artificiais e virtuais, em que adultos negociam o valor de pandemias na Bolsa de Valores e esgarçam os últimos recursos terrestres. E, enquanto isso, crianças definem os rumos do que sobra como quem joga videogame.

Michel Nieva, uma das vozes mais interessantes e singulares da literatura argentina contemporânea, é um autor de ficção científica gaúcho-punk. Mergulhado em influências do universo do mangá, do body horror e do absurdo, o autor trabalha, com humor, cenas da vida no século 21. E nos transporta a um novíssimo século 23, no qual sua estrela brilha próxima a nomes como Franz Kafka, Ursula K. Le Guin, Jorge Luis Borges, David Cronenberg e Junji Ito.


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A história se passa no ano de 2272, quando desastres ecológicos tornaram o planeta inabitável, atingindo temperaturas de até 90ºC. Apenas alguns poucos espaços na Antártida argentina ainda podem ser habitados, dependendo do dinheiro disponível para garantir conforto. Em meio a esse cenário infernal, surge a história do menino Dulce, um personagem complexo que enfrenta desafios únicos relacionados ao dengue infantil e suas consequências genéticas.


A trama revela uma luta feroz entre a natureza e a História, com elementos de humor e crítica política. A novela aborda temas distópicos e tecnocapitalistas, explorando um futuro possível e perturbador. Os personagens atravessam situações extremas, em um mundo marcado por desastres naturais e tramas financeiras sinistras.


Michel Nieva cria um universo rico em referências literárias e cinematográficas, misturando violência, conspirações e elementos sobrenaturais de forma original e envolvente. A crítica ao capitalismo e às desigualdades sociais é evidente, refletindo um mundo onde o dinheiro determina quem sobrevive e quem é deixado para trás.


Em meio a esse caos, a narrativa se destaca como uma comédia inteligente, repleta de paródias e homenagens a grandes autores. A ficção científica de Nieva desafia as convenções do gênero, oferecendo uma visão distópica e perturbadora do futuro da humanidade. Uma obra genial que faz refletir sobre as consequências de nossas escolhas e os impactos do capitalismo desenfreado em um mundo à beira do colapso.


A qualidade da novela é tão impressionante que, ao se deparar com a poderosa trama distópica e a prosa envolvente, você pode se perder em sua narrativa intrigante e divertida sobre um futuro plausível (exceto pelos elementos lovecraftianos). Porém, é importante também estar atento aos perigos e desastres naturais que são parte integrante da paisagem da história, mas representam ameaças reais no mundo real. Nieva trabalha arduamente para criar uma obra que, em última análise, tem como objetivo nos alertar sobre esses perigos iminentes. A novela pode ser interpretada em diversos níveis, de acordo com a sua narrativa de grandeza.


A obra de Michel Nieva é uma verdadeira obra-prima que combina elementos de ficção científica, distopia, crítica social e humor de forma brilhante. A trama complexa e envolvente nos leva a refletir sobre as consequências de nossas ações e as desigualdades sociais, enquanto nos mantém entretidos com um enredo cheio de reviravoltas e personagens cativantes. A narrativa inteligente e original de Nieva nos transporta para um mundo sombrio e perturbador, mas ao mesmo tempo nos instiga a pensar e questionar o nosso próprio futuro. Uma leitura imperdível para quem busca uma história envolvente, que vai além do entretenimento e nos faz refletir sobre o mundo em que vivemos.


O AUTOR

Michel Nieva (Buenos Aires/Argentina, 1988) é formado em filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente é professor na Universidade de Nova York. Em 2021, foi eleito pela revista Granta um dos melhores prosadores jovens em língua espanhola e, em 2022, recebeu, pelo conto “Dengue boy”, o prêmio O.

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