[RESENHA #607] Brincando de Deus, de Beth Shapiro

As mentes e as ferramentas humanas não remodelam apenas o mundo físico, mas a própria evolução de outras criaturas.


APRESENTAÇÃO

A natureza nunca mais foi a mesma depois que o homem surgiu. Nossos ancestrais caçaram, poluíram e levaram centenas de espécies à extinção. Transformaram lobos em cães Boston terriers, repolho selvagem em couve e brócolis. À medida que nossos ancestrais aprenderam a caçar, a domesticar animais e a viajar, suas ações e seus deslocamentos criaram condições para que as espécies se adaptassem e evoluíssem. Porém, as mudanças recentes são diferentes. As biotecnologias atuais nos permitem interferir em espécies com mais rapidez e precisão do que nossos ancestrais. A inseminação artificial, a clonagem e a edição de genes melhoram o controle sobre o DNA que é passado para a próxima geração, aumentando ainda mais o poder da intervenção humana como força evolutiva. Nosso poder de mudar as espécies é maior do que nunca, e devemos reconhecer, aceitar e aprender a controlá-lo. Em um livro instigante, a bióloga evolucionista Beth Shapiro nos mostra como chegamos aonde chegamos e quais os dilemas e as possibilidades para o futuro. Uma combinação brilhante de ciência, história natural e experiência em primeira pessoa, Brincando de Deus mostra como nossa espécie tem manipulado a natureza praticamente desde sempre.

RESENHA


Como os humanos moldaram a genética e a evolução das plantas e animais ao seu redor? Este é o tópico da obra de Beth Shapiro, professora de biologia e ecologia, na universidade de Santa Cruz.

Shapiro, professora de Ecologia e Biologia Evolutiva na UC Santa Cruz, já foi premiada diversas vezes por seus livros. Sua especialidade é o estudo do DNA antigo, obtido de organismos extintos e vestígios arqueológicos. Essas informações genéticas do passado nos proporcionaram insights surpreendentes e, embora a história desse campo de pesquisa ainda esteja se desenrolando, Shapiro já nos oferece uma prévia. Seu livro é dividido em duas partes: uma que analisa nosso passado através do DNA antigo e outra que olha para o nosso futuro através da biotecnologia.

A primeira parte do livro é extremamente fascinante, revelando por meio do DNA antigo como os humanos influenciam a vida ao nosso redor. Isso inclui a trajetória evolutiva dos bisões, desde seu declínio durante a última era glacial, passando por uma recuperação temporária e, em seguida, quase chegando à extinção pelas mãos humanas. A autora demonstra que a evolução humana é uma história complexa de mistura e migração, reforçando o panorama apresentado em “Quem somos e como chegamos aqui”. Ela explora também a extinção em massa da megafauna, questionando a hipótese exagerada do Pleistoceno de Paul Martin e o debate em curso sobre o quanto dessas mudanças pode ser atribuído às alterações climáticas passadas e quanto aos nossos antepassados caçadores. Além disso, são abordados o processo de domesticação animal e como isso afetou a genética dos animais e a nossa própria. Por fim, a autora analisa extinções recentes, como a do pombo-passageiro, o problema das espécies invasoras e o crescimento do movimento conservacionista.

A segunda parte do livro aborda o futuro, focando na modificação genética de culturas e animais, e explora a resistência encontrada na sociedade. Shapiro examina minuciosamente algumas iniciativas que utilizam ferramentas biotecnológicas para salvar espécies à beira da extinção. Ela considera cuidadosamente o tema da extinção e não fica completamente convencida de que ressuscitar espécies seja uma ideia positiva. Ao mesmo tempo, o recente avanço das ferramentas de edição genética trouxe a possibilidade de erradicar pragas e vetores de doenças, como os mosquitos que transmitem a malária. O livro também apresenta uma extensa discussão sobre impulsos genéticos, CRISPR e a ciência e ética da edição do genoma humano.

O que chama a atenção é a facilidade de compreensão de todo esse conteúdo, apesar da variedade de temas abordados. Shapiro tem um talento especial para se comunicar claramente, contando histórias engraçadas e fazendo piadas sobre seus erros acadêmicos. Mais importante ainda, ela consegue manter a complexidade e os detalhes desses temas, mostrando repetidamente como a pesquisa cuidadosa aprimora narrativas simplistas. Analisemos uma das discussões mais duradouras da arqueologia: como os seres humanos povoaram as Américas. A análise dos ossos de bisão sugere que aqueles que atravessaram a ponte terrestre de Bering já haviam se deslocado para o sul, usando uma rota costeira para evitar os glaciares que cobriam a América do Norte, antes de abrir um corredor sem gelo. Da mesma forma, artigos científicos populares muitas vezes mencionam como outros animais, como as formigas, também praticam a agricultura. Embora essas relações mutualísticas pareçam semelhantes à domesticação, “nenhuma das espécies modificou intencionalmente a outra” (p. 113), o que é uma diferença fundamental em relação ao que os seres humanos fazem. Além disso, a capacidade dos seres humanos de digerir lactose não está estritamente ligada à prática da produção de leite, nem no presente, nem no passado.

Shapiro defende que a desinformação e o sensacionalismo em torno dos organismos geneticamente modificados, juntamente com o medo de intervenções genéticas, têm gerado desconfiança e desconforto na sociedade. Ela destaca esse “fator instintivo” como um obstáculo importante para alcançar todo o potencial da engenharia genética.

Shapiro ressalta a importância de utilizar as ferramentas da engenharia genética diante dos desafios urgentes que enfrentamos atualmente, como o crescimento populacional, as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade. Ela argumenta que, se desejamos garantir a sobrevivência e o sucesso da nossa espécie e de outras espécies, não podemos mais depender apenas da aleatoriedade da evolução. É necessário impulsionar o nosso mundo em direção a um futuro definido por meio dessas ferramentas.

Em síntese, a obra é uma excelente e poderosa ferramenta de informação acerca de genética, a autora desbrava caminhos e percorre nuances bastante palpáveis e de fácil entendimento, talvez este, seja o fator mais atraente de sua obra: a facilidade de transmitir em palavras assuntos de extrema complexidade e relevância. Uma obra para se desbravar e sempre. Leitura obrigatória para os fãs da temática.

A AUTORA

Beth Shapiro é professora de Biologia Evolutiva na Universidade da Califórnia em Santa Cruz e pesquisadora no Instituto Médico Howard Hughes. É autora de How to Clone a Mammoth, que ganhou o Prêmio AAAS/Subaru de Excelência em Livros Científicos. Ela vive em Santa Cruz, na Califórnia.

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