Lolita conta a história do literato Humbert Humbert desde seus primeiros anos de vida, quando tem seus primeiros contatos com uma “ninfeta”, cujo narrador define que são aquelas: “Entre os limites etários dos nove e dos catorze anos ocorrem donzelas que, a certos viajantes enfeitiçados, duas ou muitas vezes mais velhos do que elas, revelam a sua vera natureza, que não é humana, e sim nínfica (isto é, demoníaca)”. Além disso, o narrador responde a questão sobre todas as meninas nesta idade serem ou não ninfetas com um “… Claro que não”. Como se lutando contra a sua própria natureza, Humbert Humbert passa o livro entre censuras próprias e dilemas morais, tentando convencer o leitor que sua preferência por ninfetas difere totalmente do que faria um estuprador, pois, segundo ele, o homem fisgado por uma dessas meninas, sabe se conter, alimentando o seu prazer com meras olhadas e toque involuntários de braços. Mesmo buscando se inocentar perante o leitor, o personagem-narrador demonstra sua luta contra o que é ao procurar uma mulher adulta para casar; porém acabando por não dar certo. É então que ele vai embora para os EUA. Procura uma casa; e, ao achar uma, enquanto lhe é mostrada pela dona do lugar, Humbert Humbert se depara com Lolita, com doze anos de idade, fazendo com que acabe a sua relutância em morar ali e se inicie a sua paixão, que ocupará boa parte do livro.
“Oh, Lolita, és a minha pequena, como Vee o foi de Poe e Bea de Dante, e que rapariguinha não gostaria de fazer rodopiar uma saia farta, mostrando as calcinhas?” O flerte literário da história demonstra a erudição do narrador-personagem ao fazer referências a Edgar Allan Poe e Dante Alighieri, os quais a história nos conta terem se casado com mulheres muito novas; embora no caso deles fosse um contexto histórico totalmente diferente.
A prosa poética e a experimentação de linguagem de Nabokov são sentidas a cada parágrafo do texto, através de metáforas que produzem no leitor um impacto de sensibilidade. No trecho abaixo, o autor russo troca os verbos das frases, provocando graça e dizendo, por fim, ao leitor que sabe o que está fazendo. “O meu vizinho do lado ocidental, que podia ser comerciante ou professor, ou ambas as coisas, falava-me uma vez por outra, quando barbeava algumas flores tardias, no jardim, ou regava o carro, ou então, posteriormente, quando descongelava o caminho da garagem (não me importo se estes verbos estiverem todos errados)”.
Minha relutância em relação a este livro está em seu ritmo, Nabokov parece se recusar a chegar ao fim da história, como se escrever muito representasse algo mais para ele. Nalguns trechos, como nas longas viagens, o livro se torna cansativo; impondo-se uma difícil decisão a afirmativa de a prosa poética do autor ser ou não compensatória em relação ritmo da obra. A partir do meu ponto de vista, não nego ser este um grande livro, nem mesmo me arrependo de tê-lo lido, mas confesso que esperava um pouco mais da obra. Vale a cada um ter a sua própria perspectiva.

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