companhia das letras

Nosferatu (1922) ► (Resenha)

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

/ by Vitor Zindacta


Data de lançamento: 4 de Março de 1922

País de origem: Alemanha

Obra clássica alemã silenciosa, “Nosferatu” era um filme incomum para o seu tempo, para alguns a mais assustadora adaptação de Dracula de Bram Stocker, tamanha a atmosfera sombria, o clima soturno, e a caracterização dos personagens. Houveram muitos problemas na época com a esposa de Bram Stocker, que não permitia a adaptação, com ameaça de acionamento judicial e destruição dos negativos, consequentemente os nomes dos personagens foram modificados. O Dracula aqui é retratado da forma mais animalesca possível. Filmado em 1922, pelo diretor F.W. Murnau, ele usou em grande parte locações externas ao invés de estúdio. Sua intenção era mostrar o realismo e a autenticidade, e seu trabalho foi notável. Às vezes, “Nosferatu” assemelha-se a um documentário com adornos sutis, apenas perceptíveis por quem já é familiar ao Expressionismo Alemão. Posteriormente, você notará que quase toda cena é diagonalmente composta, como a chegada da carruagem que carrega Hutter próximo ao castelo de Orlok ou as cenas quando carregam o caixão de Orlok de volta ao castelo. As cenas diagonais criam uma espécie de distorção, definitivamente uma sugestão visual do Expressionismo. As sombras extremas com uso do negativo, em uma floresta adicionalmente realçam a distorção. As atuações certamente são peculiares. Este tipo de estilo era comum em filmes silenciosos, uma resposta emocional era necessária para se perceber os sentimentos subjetivos sobre uma realidade objetiva. “Nosferatu” não deve ser considerado realístico, meramente uma fantasia onde os sentimentos e as emoções reais, devem ser lembrados na realidade concreta. Os temas são tratados com uma realidade emocional.

Autor: (Nome, nascimento e morte):

Diretor: Friedrich Wilhelm Murnau
Nascimento 28 de dezembro de 1888 - Bielefeld, Vestfália Império Alemão
Morte 11 de março de 1931 (42 anos) - Santa Barbara, Califórnia Estados Unidos

Friedrich Wilhelm Murnau, ou simplesmente F. W. Murnau, nascido Friedrich Wilhelm Plumpe (Bielefeld, 28 de dezembro de 1888 — Santa Barbara, 11 de março de 1931), foi um dos mais importantes realizadores do cinema mudo, do cinema expressionista alemão e do movimento Kammerspiel. Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens (Nosferatu, Uma Sinfonia de Horrores), de 1922, uma adaptação pessoal da novela Dracula, de Bram Stoker, é o filme mais conhecido da sua obra (em boa parte perdida) juntamente com Der letzte Mann, de 1924 e Faust (PT: Fausto) de 1926. Em 1926, emigrou para Hollywood, onde antes de morrer realizaria o aclamado Sunrise (PT: Aurora) de 1927. O seu último filme Tabu (co-realização com Robert Flaherty) foi filmado nos mares do sul, longe dos grandes estúdios e estreado postumamente. É considerado hoje em dia um filme de culto e marca uma quebra com a estética dos seus filmes anteriores.
Um dos melhores realizadores da sua geração, cuja carreira foi interrompida prematuramente por um acidente de automóvel que o vitimou aos 42 anos

Personagens: conflitos, objetivos e personalidade de cada um:

Max Schreck - Conde Orlok Nosferatu - , sombrio e tenebroso , vive de sangue

Gustav von Wangenheim - Thomas Hutter, de classe media e apaixonado por sua esposa um jovem agente imobiliário que é enviado pelo seu chefe para a Transilvânia, a “terra dos ladrões e dos fantasmas”, para negociar a venda de um imóvel em frente à sua casa .

Greta Schröder (Ellen Hutter) – mulher de Thomas , exemplifica as influências romanticas e expressionistas presentes no filme na medida em que concentra em si a representação da heroína de comportamento simples e puro

Alexander Granach Renfild (Knock) – serviçal hipnotizado que serve ao nosferatu

John Gottowt (Professor Bulwer) O professor que sabe como combater o vampiro

Sinopse:

Título Original: Nosferatu, eine Symphonie des Grauens.
Título em Portugal: Nosferatu.
Realizador: F.W. Murnau.
Guião: Henrik Galeen.
Elenco: Max Schreck, Gustav von Wangenheim, Greta Schröder, Alexander Granach, John Gottowt.

Uma adaptação não autorizada de Drácula de Bram Stoker, Nosferatu (1922) é o filme de vampiro em silêncio por excelência, trabalhada pelo lendário diretor alemão FW Murnau. Ao invés de descrever Drácula como um monstro que muda de forma ou cavalheiro afável, o Conde Orlok de Murnau (retratado por Max Schreck) é um pesadelo, um criatura aracnídea de cabeça redonda e garras - talvez a encarnação mais genuinamente perturbadora do vampirismo já imaginado. Nosferatu é um filme expressionista atípico cujo boa parte fora filmado nos próprios locais. Enquanto diretores como Lang e Lubitsch construíram vastas florestas e cidades inteiras dentro do estúdio, as paisagens, vilas e o castelo de Nosferatu eram locais reais nas montanhas dos Cárpatos. Murnau foi, portanto, capaz de infundir a história com os tons sutis da natureza: puro e fresco, bem como distorcido e sinistro.

Análise crítica (dê sua opinião sobre o texto):

A corrente do mar traz consigo uma ameaça vinda dos Cárpatos, um barco que transporta um caixão coberto de terra, onde repousa um tenebroso ser que ameaça a vida de todos os habitantes de Wisborg. Esse ser é Nosferatu, o Conde Drácula (ou melhor Orlock). E vai ser numa corrente de emoções e algum desconforto que F.W. Murnau nos transporta para o mundo quase etéreo deste assustador e sombrio personagem interpretado por Max Schreck. “Nosferatu” estreou originalmente no dia 4 de Março de 1922, pouco tempo depois do final da I Guerra Mundial e pouco tempo antes da ascensão do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (mais conhecido como Partido Nazi) na Alemanha, dois eventos que tiveram clara influência na história mundial e que vão influenciar em larga medida “Nosferatu” e a interpretação que tiramos do filme, algo que irá ser aprofundado mais à frente. O filme é realizado por F.W. Murnau, um dos melhores realizadores da sua geração, cuja carreira foi interrompida prematuramente por um acidente de automóvel que o vitimou aos 42 anos. “Nosferatu” foi um ponto de viragem para o realizador, cuja carreira passou a ser reconhecida para além das fronteiras germânicas, tendo posteriormente realizado outros filmes bem conhecidos como “The Last Laugh” (1924), “Faust” (1926) e “Sunrise” (1927). O guião de “Nosferatu” é da autoria de Henrik Galeen, sendo claramente inspirado na obra “Dracula”, da autoria de Bram Stoker. O facto de o estúdio não ter conseguido os direitos de adaptação da obra de Bram Stoker junto dos familiares do escritor, levou a que muitos dos personagens tenham os seus nomes alterados, para além das alterações introduzidas por Galeen devido ao facto de este ter introduzido vários elementos pessoais ao enredo, que o transformaram numa obra algo distinta do clássico literário de Bram Stoker, apesar de respeitar a sua essência. Entre as alterações, Nosferatu/Max Orlock é Dracula, Professor Bulwer é Van Helsing, Knock é Renfield, e Hutter e Hellen Hutter são Jonathan e Mina Harker.

No início do filme somos apresentados a Thomas Hutter, um jovem agente imobiliário que é enviado pelo seu chefe para a Transilvânia, a “terra dos ladrões e dos fantasmas”, para negociar a venda de um imóvel em frente à sua casa junto de um cliente chamado Conde Orlok (Max Schreck). Este inicialmente teme a ida para o território, mas logo acaba por encontrar um cenário bem mais benigno do que inicialmente esperava, apesar do comportamento estranho dos seus habitantes, quando o nome de Orlock é mencionado. O cenário idílico apresentado inicialmente pelo realizador logo ganha contornos perturbantes, quando percebemos a reação assustada dos animais perante o despertar de Nosferatu. Hutter ignora todos os sinais negativos presentes neste prelúdio inicial, tomando a atitude imprudente de seguir em frente com o seu desiderato. A passagem do jovem funcionário de Knock pelo castelo de Graf Orlock (Max Schreck) irá transformar-se num enorme pesadelo, quando este conhece esta sombria figura, que vive no mundo das sombras. A relação entre ambos é marcada por uma cordialidade inicial, que é perturbada pela célebre cena em que Hutter corta acidentalmente o dedo e Orlok apresta-se a chupar o seu sangue. Com a ajuda de um pequeno livro sobre vampiros, Hutter começa a juntar uma série de pistas que vai encontrando sobre o Conde Orlok e descobre que este é Nosferatu, um ser sobrenatural, que necessita de alimentar-se do sangue das suas vítimas para poder manter-se vivo. Estas pistas são confirmadas quando encontra nas catacumbas do castelo um caixão coberto de terra, cujo interior está habitado pela sinistra figura, que jaz impávida e serena perante o olhar desesperado de Hutter. Os pesadelos do personagem de Gustav von Wangenheim não se ficam por aqui. Pouco depois este acorda do desmaio e vê Orlock com uma grande pressa a carregar vários caixões cheios de terra, em direcção ao barco que o irá transportar para a calma cidade de Wisborg.

A cena do barco aparece carregada de enorme simbolismo, ficando paradigmaticamente marcada pela cena em que Murnau enquadra Nosferatu e o barco, numa composição em triângulo em que o personagem parece saído de um quadro, naquilo a que se chama “um quadro no interior de um quadro”. Nosferatu transporta consigo a morte, a peste, as sombras, e a tirania, causando a loucura e o desejo pela morte dos tripulantes a bordo da embarcação, que preferem perder a vida a estar perante o tenebroso cadáver. A chegada do barco à cidade é encarada com grande mistério por todos, visto encontrarem a embarcação vazia, e com grande comoção por parte de Ellen, uma vez que a chegada de Orlock causa-lhe estranhas e perturbadoras sensações. Nosferatu traz consigo a pestilência e a morte, impregnando a cidade de Wiborg com um mal que ameaça todos os seus habitantes. Ellen Hutter, curiosa sobre os misteriosos acontecimentos que têm acontecido desde a partida do marido para a Roménia, lê o livro sobre Nosferatu e descobre que poderá ser a única salvação de Hutter e do povo de Wisborg contra Nosferatu, visto que apenas uma mulher com um coração puro poderá atrair o vampiro e distraí-lo das luzes do dia. Todos estão assim dependentes desta bela mulher, que carrega consigo o fardo de ter de salvar a cidade e a humanidade de um destino de sombra e morte.

“Nosferatu” é um dos grandes clássicos do cinema de terror e um dos expoentes máximos do expressionismo alemão, tendo colocado nas bocas do Mundo o nome do realizador F.W. Murnau. A obra estreou originalmente em 1922, sendo um dos exemplos das excelentes obras cinematográficas que encontravam-se a ser produzidas na Alemanha, durante a chamada República de Weimar. Como já foi sugerido anteriormente, a obra foi produzida pouco tempo depois da I Guerra Mundial e algum tempo antes da ascensão Nazi. A I Guerra Mundial trouxe grandes alterações na sociedade do início do século XX, tendo-se assistido à banalização da morte na Guerra com mais de oito milhões de mortos e vinte milhões de feridos e grandes traumas nos que sobreviveram. O mapa político europeu sofreu mudanças consideráveis com o final do império Austro-húngaro, Germânico, Otomano e Russo. Para além disso, a Europa entrou numa crise política, social e financeira, com a Alemanha a ver-se numa situação ainda mais grave devido às graves penalizações impostas ao país, após a assinatura do Tratado de Versalhes, onde a Alemanha foi considerada a grande culpada da Guerra. Durante o período entre o final da I Primeira Guerra Mundial e a ascensão Nazi, a Alemanha foi governada por um sistema de governo de modelo parlamentarista democrático, com o Presidente da República a nomear um chanceler que seria responsável pelo poder Executivo. Este período ficou conhecido pela República de Weimar, cujos fracos governos tardavam em consolidar-se e em recuperar a Alemanha da grave crise económica em que estava inserida.

Posteriormente assistiu-se à ascensão do Partido Nazi, que através dos discursos e ideais inflamados de Adolf Hitler estava a conquistar aderentes numa Alemanha com o orgulho ferido. Feita a breve introdução histórica, passa a ser impossível dissociar “Nosferatu” do seu tempo. Um dos protagonistas, Thomas Hutter é um jovem individuo de classe média, que viaja para a Roménia tendo em vista um negócio com lucros que seriam impossíveis na Alemanha (sinal de que a economia no território germânico já conhecera melhores dias). Para além disso, o cenário etéreo do filme, parecido com um sonho, acaba por simbolizar o estado de letargia do povo alemão perante uma crise sem precedentes na sua história, embora esta temática seja bem melhor representada em “O Gabinete do Dr. Caligari”. Por final, e por muito que não o queiramos fazer, é impossível não comparar Nosferatu a Adolf Hitler. Ambos são figuras tirânicas, que exerceram uma influência negra sobre aqueles que os rodearam. Se Nosferatu exercia uma influência sobre as forças naturais através dos seus poderes sobrenaturais, Hitler exercia a sua influência através de uma retórica influente e de enorme impacto, que induziu o povo alemão a uma espécie de sonambulismo, que lhes trouxe um dos capítulos mais negros da sua história, que ainda procuram apagar nos dias de hoje.

De salientar que as figuras ligadas ao poder e ao capital, são os antagonistas do filme, nomeadamente o avarento Knock e o tirano Conde Orlock. Ou seja, podemos ainda encarar na obra uma certa crítica aos governantes e ao grande capital, ainda que de uma forma subliminar e praticamente imperceptível, através destes dois personagens que partilham um nome bastante semelhante. Em contraposição, os protagonistas são indivíduos de classe média/baixa, que vivem numa rua aparentemente modesta, que tal como grande parte do povo alemão, não tem culpa directa na acção dos seus governantes, que conduziu o país à crise que vivia na época. Curiosamente, é num período de crise que são produzidos muitos dos melhores filmes do cinema alemão, inseridos no chamado expressionismo alemão (ou “Caligarismo”). “Nosferatu” insere-se paradigmaticamente neste contexto, com alguns elementos-chave que que caracteriza o expressionismo alemão (designação que deve ser utilizada com grandes reservas) com os constantes jogos de luz e sombra, uma visão distorcida da realidade, personagens eivados de grande excentricidade, ou seja, obras em que a alienação da realidade acaba por metaforizar os problemas sociais, políticos e económicos desse tempo. A dicotomia entre a luz e as sombras é algo bastante marcante ao longo do filme, sendo essencial em diversas cenas que envolvem a presença de Nosferatu. Aliás, o efeito causado pela criatura é sempre mais eficaz quando surge a sua silhueta, algo plasmado pela cena em que o personagem sobe sorrateiramente as escadas para ir ter com Ellen Hutter. No caso específico desta cena, as sombras acabam por simbolizar o destino negro que a personagem interpretada por Greta Schröder irá conhecer.

Em “Nosferatu” as sombras estão ligadas ao mal, ao destino negro a que as vítimas do vampiro estão sujeitas, em oposição à luz, que simboliza a vida. Outro dos elementos característicos dos filmes do expressionismo alemão passa pela presença dos personagens algo distorcidos da realidade, atormentados e com simbologia presente no interior destes. E nesse sentido, “Nosferatu” é um filme bastante rico, apresentando um conjunto de personagens ricos em contradições internas e problemáticas “q.b.”. Entre esses personagens encontra-se Nosferatu. O vampiro interpretado por Max Schreck nada tem a ver com as versões glamorosas dos vampiros a que estamos habituados a ver recentemente no grande ecrã. Nosferatu está mais próximo de um animal feroz, asqueroso e repugnante, que traz consigo a morte e a peste, do que do vampiro educado e cordial do “Dracula” interpretado por Bela Lugosi, ou de “Dracula” de Francis Ford Coppola, ou dos adolescentes sensíveis e pouco temíveis de “Twilight” e “The Vampire Diaries”. Mais do que um personagem, Nosferatu é um símbolo ligado ao mal, à pestilência e à morte, este é a representação imagética do mal, que não dissimula os seus propósitos malignos. Grande parte do mérito do personagem causar este efeito está não só no talento de Schreck, mas também de toda a equipa de maquilhagem e efeitos, bem como do realizador F. W. Murnau, cujo trabalho levou a que a presença do personagem conseguisse exacerbar nos expectadores os seus medos mais recônditos.

Max Schreck aparece bem secundado por Gustav von Wangenheim como Thomas Hutter e Greta Schröder como Ellen Hutter. O primeiro representa um indivíduo de classe média, que aparece inadvertidamente na órbita de Nosferatu. Este é o paradigma do homem moderno, que procura melhores condições de vida mesmo que isso signifique uma aventura arriscada, um indivíduo que parece ignorar as tradições ancestrais. Schröder interpreta a ingénua Ellen Hutter, uma mulher aparentemente frágil que consegue pressentir o mal que Nosferatu causa na alma e no corpo do marido, indo ser a grande tentação de Nosferatu. Se Nosferatu simboliza as sombras e a morte, Ellen Hutter é a representação imagética da vida e da luz. Desde o início do filme que assistimos ao grande apreço que esta tem pela vida de todos os seres vivos, desde o gato de estimação até às flores que Hutter matou para lhe oferecer, passando pela vida do amado. Ou seja, entre Nosferatu e Hellen Hutter aparece representada uma dicotomia entre luz e sombras e entre a vida e a morte, com os dois a acabarem por entrarem num confronto mortal. Entre os personagens secundários, importa salientar ainda a figura de Knock, interpretado por Alexander Granach.

Knock é o chefe de Hutter e um vassalo de Nosferatu, convencendo o primeiro a visitar a Transilvânia para fazer um negócio com o Conde Orlock. O personagem de Granach é a figura típica dos personagens do expressionismo alemão, uma figura distante do real, algo alienada da sociedade, que efectua a ligação entre Nosferatu e a civilização, que actua durante a luz do dia, altura em que o seu mestre encontra-se em repouso profundo. As cenas em que este participa no hospício são magistrais, ficando na memória do espectador durante bastante tempo, com a loucura e maldade do personagem a ficarem na retina do espectador, enquanto se embrenha pelos cenários que povoam a narrativa. Os cenários do filme são marcados pela forma quase etérea como Murnau os apresenta, sobretudo na Transilvânia. No cenário envolvente ao castelo do Conde Orlock, podemos assistir a um cenário quase paradisíaco, em que os animais passeiam livremente, no entanto, esta atmosférica idílica é interrompida com o acordar de um sinistro ser, capaz de exercer uma influência inexplicável sobre as forças naturais. Outro cenário marcante da obra cinematográfica passa pelo barco que transporta Orlock da Transilvânia até à cidade ficcional de Wisborg. Neste barco desenvolve-se toda a sequência da viagem de Orlock até à cidade, sendo criada toda uma atmosfera claustrofóbica devido ao facto de Nosferatu aparecer num local fechado, ao qual é impossível escapar a não ser cometendo suicídio.

“Nosferatu” é um dos expoentes máximos das obras do chamado “expressionismo alemão” e uma das obras de maior relevo do realizador F.W. Murnau. É curioso notar como uma adaptação cinematográfica não oficial de “Dracula” de Bram Stoker, que praticamente desapareceu de circulação devido à família do escritor pretender que os negativos fossem destruídos, mais contribuiu para a divulgação da obra literária e para a “moda” dos vampiros. Também é interessante verificar como o conto e a mitologia dos vampiros foi sendo modificada ao longo dos tempos. De um vampiro feroz, mortal, que exerce uma acção sinistra sobre as forças naturais, passámos a ter vampiros que sobrevivem à luz do sol, conseguem conter os seus desejos por sangue e até conseguem passar a noite numa tenda com um lobisomem. Pelo meio, o Conde Drácula teve várias aparições no grande ecrã, umas mais memoráveis do que outras, mas nenhuma como a da obra de Murnau. Em “Nosferatu”, o Conde Orlock é nada mais, nada menos do que a representação imagética do mal, da morte e das trevas, um ser com características animalescas, cuja figura desfigurada simboliza o mal, a morte, a pestilência e as trevas.“Nosferatu” encontra-se entre as melhores obras que captaram a essência da obra literária de Bram Stoker, sendo fulcral para o codificar da mitologia clássica sobre os vampiros, numa obra seminal que continua a ser reverenciada nos dias de hoje.
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