O indomável: João Carlos Martins entre som e silêncio, de Jamil Chade


APRESENTAÇÃO

João Carlos Martins é considerado um dos maiores pianistas intérpretes de Johann Sebastian Bach, com quem divide, além do primeiro nome, um amor profundo, inquestionável e autêntico pela música. Nesta biografia, o jornalista Jamil Chade expõe suas facetas mais públicas e seus segredos: pianista prodígio, músico silenciado pelo próprio corpo, personagem com erros e acertos, reinvenção ambulante, maestro indomável.

Da infância debruçada sobre o piano, sob o olhar atento do pai obcecado pelo sucesso do filho e disposto a recorrer a métodos questionáveis para isso, a juventude como uma promessa realizada de talento e fama e a consagração interrompida em seu auge pela gradual atrofia nas mãos, João reinventou o conceito de sobrevivência a cada silêncio forçado a suportar. Mesmo quando esteve afastado dos palcos, como no curto período em que foi empresário esportivo e durante sua passagem breve e polêmica pela política, a esperança de que a música retornasse para ele o impediu de ficar à deriva.

Muitas sessões de fisioterapia o levaram de volta aos palcos, mas o agravamento de lesões neurológicas, acidentes e um episódio de violência forçaram a interrupção na carreira de pianista, dessa vez de forma definitiva. Mas suas mãos indomáveis não deixaram de ousar trazer Bach à vida, agora como maestro. Muito mais que um exemplo de superação e perseverança, no entanto, o que se destaca em sua trajetória é o talento e a profunda dedicação à música como ferramenta transformadora de vidas.

RESENHA

João Carlos Martins, um dos maiores intérpretes de Johann Sebastian Bach, compartilha com o compositor um profundo amor pela música. Nesta biografia, o jornalista Jamil Chade revela as várias facetas de Martins: prodígio do piano, músico limitado por problemas físicos, figura com acertos e erros, reinventor constante e maestro inquebrável. Desde a infância dedicada ao piano, com um pai obstinado pelo sucesso do filho e disposto a usar métodos questionáveis, até a consagração interrompida pela atrofia nas mãos, Martins demonstra uma incrível capacidade de sobreviver aos desafios. Mesmo afastado dos palcos, seja como empresário esportivo ou político, a música sempre foi sua bússola.

O livro explora as nuances acerca do maestro, que, mesmo enfrentando lesões neurológicas, acidentes e violência, João Carlos Martins nunca deixou de trazer Bach à vida, agora como maestro. Sua jornada vai além da superação e da perseverança, destacando-se seu talento e dedicação à música como agente transformador.

João Carlos Martins, um pianista brasileiro, causou grande repercussão em sua viagem a Cuba em 1961, sendo elogiado pela imprensa local por sua técnica impressionante e interpretações brilhantes. No entanto, em meio a essa excitação artística e política, ele testemunhou a condenação à morte de um jovem acusado de atacar as instituições com granadas, o que o deixou chocado. Diante da situação caótica e do risco em que se encontrava, foi aconselhado a deixar Cuba imediatamente para evitar uma crise diplomática.

O livro ainda esclarece os desafios e traumas e convulsões não tratadas , somadas ao drama de um cisto na garganta. O pai de Martins, determinado, o incentivou e promoveu seu talento, levando-o a ter aulas com o professor de piano José Kliass. Apesar de sua ousadia e autoconfiança, João impressionou até mesmo o compositor Heitor Villa-Lobos. Sua jornada musical prometia uma carreira brilhante, apesar das adversidades enfrentadas desde cedo. Apesar do sucesso, João começou a enfrentar problemas de saúde, como um desconforto no braço durante as gravações. Mesmo assim, ele continuou a conquistar críticos e audiências nos Estados Unidos, consolidando sua reputação como um dos grandes pianistas da época. Sua jornada de sucesso foi marcada por desafios, mas João sempre se destacou como uma estrela brilhante no cenário musical.

João demonstrava talento musical desde a infância e, aos 23 anos, já se apresentava em grandes palcos internacionais. No entanto, no auge da carreira, ele começou a sentir dores e movimentos involuntários nas mãos, o que o levou a buscar ajuda médica. Os diagnósticos eram incertos, alguns apontavam para problemas psicológicos, enquanto outros indicavam causas físicas.  Apesar das dificuldades, João não desistiu da música. Ele adaptou suas técnicas e repertório, buscando maneiras de driblar a dor e continuar tocando. Com persistência e força de vontade, ele se apresentou em diversos países, emocionando o público com sua maestria e sensibilidade.

Com o passar do tempo, os problemas nas mãos de João se agravaram, tornando cada vez mais difícil a execução do piano. Em 1970, após uma crítica negativa no New York Times, ele tomou a difícil decisão de encerrar sua carreira aos 30 anos.

João Carlos Martins abandona a carreira musical em 197, se muda para São Paulo e assume o cargo de diretor da Turismo União, um braço inovador do Banco União Comercial. Na Turismo União, João utiliza seus contatos internacionais para trazer grandes shows e eventos para o Brasil, como Alice Cooper, Johnny Mathis e The Supremes. Essa iniciativa transformou a empresa em uma das maiores do ramo de entretenimento no país. Em seu escritório, João mantém um piano mudo, presente da pianista Guiomar Novaes. Em segredo, ele pratica exercícios para tentar recuperar o uso da mão afetada pela doença e voltar a tocar. 

O autor explora o papel do silêncio na música, desde as pausas nas partituras medievais até o silêncio deliberado dos sinos japoneses. Na vida de João, o silêncio do piano mudo representa a esperança de um retorno aos palcos. Em um encontro casual, João conhece o pugilista Eder Jofre, que havia perdido o título mundial de boxe anos antes. Ele decide patrocinar o retorno de Jofre às competições, buscando reerguer a carreira do esportista e promover o Brasil em um momento de instabilidade política. O autor destaca as semelhanças entre as trajetórias de João e Eder Jofre: ambos se tornaram ídolos nacionais na década de 1950, sofreram reveses em suas carreiras e contavam com o apoio de seus pais para alcançar o sucesso.

O livro destaca o talento excepcional de João Carlos Martins, reconhecido por sua técnica impecável, sensibilidade musical e capacidade única de interpretar as obras de Bach. Sua paixão pela música transcende os limites físicos, impulsionando-o a superar obstáculos e encontrar novas formas de se expressar artisticamente. Na obra testemunhamos sua luta contra a doença, as frustrações e as críticas, mas também sua capacidade de se reinventar, encontrar força na adversidade e jamais desistir de seus sonhos. Sua trajetória inspiradora serve como um farol para todos que enfrentam dificuldades em suas vidas.  Recomendamos essa biografia a todos os amantes da música clássica, aos admiradores da trajetória de João Carlos Martins e a todos que buscam histórias inspiradoras de superação. É um livro que toca o coração e nos faz refletir sobre o poder da música.

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