[RESENHA #958] A vida é cruel, Anamaria: Diálogos imaginários com minha mãe, de Fábio de Melo


“Depois que morre a minha mãe, morre também a minha obrigação de ser feliz.” – Fábio de Melo 


Com profunda sensibilidade e lirismo, A vida é cruel, Ana Maria apresenta ao leitor um depoimento franco sobre a desconstrução da mãe enquanto modelo idealizado e sobre o luto não só pela perda humana, material, mas também desta própria idealização. Ao reconstituir por meio de um diálogo imaginário a trajetória de humildade e privações de sua mãe e refletir sobre como isso moldou não só a visão de mundo dela, mas também a sua própria, Fábio de Melo escancara com crueza dos sentimentos, mais como filho do que como sacerdote, suas impressões sobre a fé e o amor, o ressentimento e as dores, as alegrias e crueldades de uma vida. É uma reflexão poderosa e comovente sobre a passagem do tempo e a finitude, uma obra capaz de sensibilizar e tocar a todos.


“Esqueça-se do que dela você já sabe, do que dela você já entendeu.

Veja a sua senhora como quem se dispõe ao detalhismo de uma pintura de Caravaggio. Leia as suas linhas como quem lê uma minuciosa descrição de Marcel Proust.

Faça como o personagem que andou em busca do tempo perdido. Molhe a madeleine no café com leite e viaje pelos caminhos que a reminiscência lhe sugerir.

Depois retorne, abrace a memória já perdoada, permita-se o choro que lava o passado nas águas do presente. E, já estando em perfeito acordo com as dores que colocam neblina sobre a lâmina dos olhos, veja como é linda a sua mãe.”


RESENHA

A vida é cruel, Ana Maria: Diálogos imaginários com minha mãe é um livro do padre e escritor Fábio de Melo, publicado pela editora Record em 2023. Neste livro, o autor compartilha sua experiência de luto pela morte de sua mãe, Ana Maria, em 2019, e reconstrói sua relação com ela por meio de conversas imaginárias.


O livro se inicia com uma citação de Mia Couto: “Mãe, nascerás sempre na pedra em que te escuto: a tua ausência, meu luto, teu corpo para sempre insepulto.” O poema transmite uma profunda dor e saudade pela perda da mãe. O eu lírico expressa que, apesar de sua mãe ter falecido, ela continuará sempre presente em sua vida, como uma pedra em que ele a escuta. A ausência da mãe é comparada ao luto eterno do eu lírico, que sente falta de seu corpo físico não ser mais presente, como se estivesse insepulto. Através dessas imagens, o poema tenta transmitir a intensidade da saudade e do vazio deixados pela mãe que se foi.


O livro é um relato emocionante e sincero, que revela os sentimentos mais profundos do autor sobre espiritualidade, religião, permanência, fé e amor, e também sobre a vida e seu legado. O autor mostra como sua mãe foi uma mulher humilde, que enfrentou muitas privações e dificuldades, mas que nunca perdeu a esperança e a alegria. Ele também reflete sobre como a visão de mundo de sua mãe influenciou a sua própria, e como ele teve que lidar com o ressentimento, as dores, as alegrias e crueldades de uma vida.


O livro é uma reflexão poderosa e comovente sobre a passagem do tempo e a finitude, uma obra capaz de sensibilizar e tocar a todos. O autor usa uma linguagem poética e lírica, que remete a obras de arte e literatura, como as pinturas de Caravaggio e as descrições de Marcel Proust. Ele também usa metáforas e imagens que evocam a memória e a saudade, como a madeleine molhada no café com leite.


A vida é cruel, Ana Maria: Diálogos imaginários com minha mãe é um livro que fala sobre a morte, mas também sobre a vida. É um livro que fala sobre a mãe, mas também sobre o filho. É um livro que fala sobre o luto, mas também sobre o perdão. É um livro que fala sobre a dor, mas também sobre o amor. É um livro que fala sobre a crueldade, mas também sobre a beleza. É um livro que fala sobre a fé, mas também sobre a dúvida. É um livro que fala sobre a humanidade, mas também sobre a divindade. É um livro que fala sobre o autor, mas também sobre o leitor. É um livro que fala sobre nós. 

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