Leia Também
filmes indicacao

[RESENHA FILMÍCA] A Queda! - As últimas Horas de Hitler

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM

 Alguns países possuem uma mancha na sua história. Algo pelo qual seus habitantes se sentem culpados, mesmo sem terem tido participação direta no acontecimento em questão. O Brasil, por exemplo, lamenta a escravidão que impôs aos negros vindos da África e que ajudaram a construir a cultura do país. No entanto, tal sentimento de culpa ganha outra dimensão na Alemanha. Os alemães – até hoje – se sentem culpados pelas crueldades cometidas (especialmente contra os judeus) pelo regime nazista liderado por Adolf Hitler.


O nazismo é, ao mesmo tempo, um tabu e um mistério na Alemanha. Ninguém entende como um povo tão culto como o alemão aceitou tão facilmente o domínio ideológico e político de Adolf Hitler. Ninguém entende como os atos de crueldade cometidos pelo führer e sua equipe de comando passaram tanto tempo despercebidos pelos alemães (que só ficaram sabendo do ocorrido durante o Julgamento de Nurenberg, que condenou diversas autoridades do regime nazista após a II Guerra Mundial). Ninguém gosta de relembrar ou de falar sobre esse período na Alemanha. Por essa razão, causa surpresa a existência de um filme como A Queda! As Últimas Horas de Hitler, do diretor Oliver Hirschbiegel, filme que foi indicado ao Oscar 2005 de Melhor Filme Estrangeiro.

O filme se propõe a apresentar um lado – até então – desconhecido do fim da II Guerra Mundial: como foram os últimos dias de Adolf Hitler no poder, quais eram os seus pensamentos e os da sua equipe de militares e, principalmente, o que ele e os que o cercavam estavam sentindo naquele determinado momento. Como a maioria dos que estavam presentes naqueles dias está morta, Oliver Hirschbiegel tomou os depoimentos da Srta. Junge, a secretária particular de Hitler, como base para o roteiro do filme – o que confere ao mesmo um caráter documental.

A Queda! As Últimas Horas de Hitler não tem como objetivo humanizar Adolf Hitler. Oliver Hirschbiegel não quer que sintamos pena, ódio, repulsa ou indignação. Nada que o diretor tenha mostrado na tela irá nos surpreender. Esperávamos tais atitudes de um ditador como ele. O que choca, no entanto, é ver até que ponto o seu lunatismo influenciou os outros, como na cena em que a Sra. Goebbels (com a conivência do marido) assassina seus cinco filhos, pois não admite que eles vivam numa Alemanha sem o nacionalismo-socialista implantado pelo Tio Hitler.

Oliver Hirschbiegel começa e termina seu filme com duas afirmações da Srta. Junge; ambas relacionadas ao sentimento de culpa dos alemães pelo regime nazista. Entretanto, o filme – pelo menos para mim - teve um efeito contrário: ele exorciza os alemães desse sentimento, ao mostrar que eles foram tão vítimas de Adolf Hitler quanto os judeus. Hitler abandonou seu povo, o culpou nos momentos finais e os deixou à mercê de seu louco exército. Não perceber o mal que o führer fez não é nenhum problema. Também não se pode reverter aquilo que já foi feito. O importante é viver, aprender e não repetir os erros do passado. Os alemães já pagaram muito pelos erros dos outros. Está na hora de eles abandonarem o passado e se apegarem ao futuro. O difícil é fazer isso quando são muitas as pessoas (e um povo todo – o judeu) a relembrá-los de tudo o que aconteceu naqueles anos obscuros.

CURADORIA

ULTIMAS RESENHAS PUBLICADAS