companhia das letras

Resenha: Grande sertão: Veredas, deJoão Guimarães Rosa

domingo, 8 de agosto de 2021

/ by Vitor Zindacta



ISBN-13: 9788520922675
ISBN-10: 8520922678
Ano: 2015 / Páginas: 496
Idioma: português
Editora: Nova Fronteira

A Nova Fronteira traz ao público esta nova edição em capa dura de Grande sertão: veredas. Livro fundamental na literatura brasileira, o romance João Guimarães Rosa, publicado em 1956, foi escolhido pela Folha de São Paulo, pela Revista Época e por várias associações internacionais como um dos 100 maiores livros da literatura universal do século XX. Nesta obra de Guimarães Rosa, o sertão é visto e vivido de uma maneira subjetiva e profunda, e não apenas como uma paisagem a ser descrita, ou como uma série de costumes que parecem pitorescos. Sua visão resulta de um processo de integração total entre o autor e a temática, e dessa integração a linguagem é o reflexo principal. Para contar o sertão, Guimarães Rosa utiliza-se do idioma do próprio sertão, falado por Riobaldo em sua extensa e perturbadora narrativa. Encontramos em ´Grande Sertão-Veredas´ dimensões universais da condição humana - o amor, a morte, o sofrimento, o ódio, a alegria - retratadas através das lembranças do jagunço em suas aventuras no sertão mítico, e de seu amor impossível por Diadorim.

RESENHA

João Guimarães Rosa – Médico, diplomata e um dos maiores escritores brasileiros. Nasceu em Cordisburgo em 1908 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1967. Seus romances estão quase todos ambientados no sertão brasileiro.

Autodidata capaz de falar e ler em vários idiomas e até alguns dialetos, começou seus estudos antes mesmo dos seus sete anos. Concluiu o curso primário e a faculdade de medicina em Minas Gerais. Iniciou o exercício da profissão em Itaguara, mas foi médico voluntário da Polícia Militar, entrando para o quadro em seguida.

Foi diplomata e viveu em alguns países da Europa e da America Latina. Por sua participação na Segunda Guerra, emitindo vistos para judeus acima da cota permitida, recebeu reconhecimento do Estado de Israel, que rendeu homenagem a sua mulher no Jardim dos Justos entre as Nações.

Em sua segunda candidatura a Academia Brasileira de Letras foi eleito por unanimidade. Faleceu aos 59 anos, provavelmente de um infarto.

Resumo da obra: Riobaldo, fazendeiro do estado de Minas Gerais, conta sua vida de jagunço a um ouvinte não identificado. Trata-se de um monólogo onde a fala do outro interlocutor é apenas sugerida. São histórias de disputas, vinganças, longas viagens, amores e mortes vistas e vividas pelo ex-jagunço nos vários anos que este andou por Minas, Goiás e sul da Bahia. Toda a narração é intercalada por vários momentos de reflexão sobre as coisas e os acontecimentos do sertão. O assunto parece sempre girar na existência ou inexistência do diabo, já que Riobaldo parece Ter vendido sua alma numa certa ocasião... Riobaldo era um dos jagunços que percorriam o sertão abrindo o caminho à bala. Entre seus companheiros, havia um que muito lhe agradava: Reinaldo, ou Diadorim.
Conhecera-o quando menino e mantinha com ele uma relação que muitas vezes passava de uma simples amizade. O jagunço, que admirava e cultivava um terno laço com Diadorim, perturbava-se com toda aquela relação, mas a alimentava com uma pureza que ia contra toda a rudeza do sertão, beirando inclusive o amor e os ciúmes. Nas longas tramas e aventuras dos jagunços, Riobaldo conhece um dos seus heróis: o chefe Joca Ramiro, verdadeiro mito entre aqueles homens, que logo começa a mostrar certa confiança por ele. Isso dura pouco tempo, já que Riobaldo logo perde seu líder: Joca Ramiro acabou sendo traído e assassinado por um dos seus companheiros chamado Hermógenes. Riobaldo jura vingança e persegue Hermógenes e seus homens por toda aquela árida região.
Como o medo da morte e uma curiosidade sobre a existência ou não do diabo toma cada vez mais conta da alma de Riobaldo, evidencia-se um pacto entre o jagunço e o príncipe das trevas, apesar de não explícito. Acontecido ou não o tal pacto, o fato é que Riobaldo começa a mudar à medida que o combate final contra Hermógenes se aproxima. E a crescente raiva do jagunço só é contida por uma relação mais estreita com Diadorim, que já mostra marcas de amor completo. Segue-se, então, o encontro com Hermógenes e seus homens, e a vingança é enfim saboreada por Riobaldo. Vingança, aliás, que se tornou amarga: Hermógenes mata, durante o combate, o grande amigo Diadorim... A obra reserva, nas últimas páginas, uma surpreendente revelação: na hora de lavar o corpo de Diadorim, Riobaldo percebe que o velho amigo de aventuras que sempre lhe cativou de uma forma especial era, na verdade, uma mulher.

Conclusões sobre a Obra
É uma obra difícil de ser lida principalmente pela maneira que é feita a passagem do tempo e tipo de linguagem usada, um livro que para se compreender deve-se se entregar totalmente. Mas nesse enredo complicado de se aprofundar nas partes em que a personagem Diadorim aparece são os momentos em que o leitor tem a oportunidade de entender melhor a própria personagem e o Riabaldo e todas as questões em que o livro é abordado
O personagem Diadorim é envolto, no decorrer de toda a obra, por características opostas, que se manifestam em situações diversas. Tais características permeiam desde o universo psicológico do personagem até a aparência e o nome, elementos cuja união nos revela uma dualidade complexa, mas coerente. Diadorim, com seus trajes de jagunço, transmitia força e impunha respeito. Manuseava muito bem as armas e não tripudiava em apertar o gatilho. Andava sempre sério, falava com autoridade e não tolerava brincadeiras de mau gosto. Em certa ocasião, o jagunço Fancho-Bode o chamou de “o delicado” e em questão de segundos, Diadorim já o tinha dominado e o mantinha sobre a mira de um punhal.
Contrastando sua aparência de homem do sertão, alguns de seus traços físicos se mostravam femininos. A pele branca, os doces olhos verdes, as mãos delicadas e outras sutilezas em seu corpo revelavam que Diadorim não era um homem comum. Sob aquele traje de indestrutibilidade existia uma criatura frágil e sutil. “Por um sentir: às vezes eu tinha a cisma de que, só de calcar o pé em terra, alguma coisa nele doesse. Mas, essa ideia, que me dava, era do carinho meu. Tanto que me vinha à vontade, se pudesse, nessa caminhada, eu carregava Diadorim, livre de tudo, nas minhas costas.”
Outro detalhe que revelava a existência de algo incomum e aumentava o mistério, era que Diadorim nunca permitia que o vissem despido e evitava ver seus companheiros assim. Seus banhos eram à noite, sem ninguém por perto. Riobaldo pensava ser apenas uma crendice.
Do mesmo modo como Riobaldo travava dentro de si uma batalha a respeito de seu amor por Diadorim, esse sofria com seus conflitos psicológicos. Diadorim possuía uma personalidade forte e oscilava entre momentos de doçura com a natureza e momentos em que só buscava ódio e vingança.
O romance fala de uma vingança que foi muito maior que o amor, fala se muito da covardia de Riobaldo em não se entregar ao amor por ele estar preso a tradições que passam por cima de sentimento e esquece que Diadorim foi egoísta por não querer em nenhum momento revelar sua verdadeira, abandonar sua vingança e resolver ser feliz, pois o amor é feito de entrega.
O sertão está presente em cada elemento da obra, até mesmo na maneira como é narrada. Ao finalizar a obra, conclui-se então que o mais importante não é o desfecho em si, mas sim, o desenrolar da trama. 


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