companhia das letras

RESENHA DO DOCUMENTÁRIO – ATERRO

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

/ by Vitor Zindacta


Aterro é um documentário que surgiu da percepção de um paradoxo em relação ao lixo. Enquanto a maior parte das pessoas quer se livrar dele, sete, mulheres pioneiras da reciclagem da década de 60, falam do aparente inevitável destino do lixo e a saudade que sentem do lixo dos outros ao lado de casa. Toda a vida lidaram com reciclagem. No decorrer do documentário uma das mulheres pioneiras disse que nos dias de hoje o lixo está muito maior do que antigamente, pois naquele tempo o lixo que mais tinha era comida, vestuário. Hoje se encontra no lixo toneladas de eletrônicos. Aterro consegue ser, ao mesmo tempo, um registro verídico e atual da situação do gerenciamento de resíduos na cidade de Belo Horizonte e um documentário cativante, conscientizador, transformador. Nesse sentido, a qualidade dos depoimentos recolhidos impressiona. Elas detalham suas vidas sem nenhum pudor, o que faz com que as respeitemos. Uma das senhoras mostra a casa, feita literalmente do lixo, com restos de material de construção que era encontrado no aterro. E afirma categoricamente: ’’o lixo dava mais do que trabalho como empregada, com vantagem de não haver patrão. ’’As diversas frases pronunciadas comprovam isso: ’’a gente era mais feliz’’; ’’o lixo me deu muita coisa boa’’; nunca faltou nada’’; ’’o nosso país é um lugar rico’’; ’’eu não tenho vergonha de nada’’. Assim desdenham da forma como o lixo é coletado atualmente, o que muitas vezes dificulta o trabalho do catador. Não se resume apenas a uma questão de sobrevivência. Várias delas incorporam esse valor, num trabalho de sustentação do sistema, enxergando que, quanto menos coisas forem para a terra, melhor para todo mundo. Como se vê no documentário, catadores não podem entrar no aterro. ’’Aterro’’ coloca em primeiro plano senhoras especialistas que questionam a aterragem com toda a propriedade de quem conheceu e viveu o lixão do Morro das Pedras – que funcionou entre 1945 a 1971,atraindo moradores.Segundo os relatos, eram fartos os carregamentos despejados direto de supermercados, frigoríficos, restaurantes. Em tempos de alegria, afirmam as senhoras. ’’Lixo aterrado não é uma coisa boa. Despejado de qualquer jeito, o lixo também era motivo de incêndios e explosões, devido à concentração de gás, e também de acidentes com caminhões, com vítimas fatais difíceis. ’’



‘’Se você não comer você não tem lixo. Se você não vestir, você não tem lixo. Então o lixo é a sua própria vida. ’’ – Maria, 62 anos

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