[RESENHA #963] Os rostos que tenho, de Nélida Piñon

“Viver requer aestado artístico”. Em obra póstuma e inédita, a autora consagrada Nélida Piñon costura, através de 147 capítulos, o seu testamento literário: Os rostos que tenho.

Nélia Pinõn acreditava na importância de deixar rastros. Rastros de existência, da própria criação, de palavras que se incorporam a um legado para os que ficam. Com 147 capítulos curtos que lembram a estrutura de um diário, a autora consagrada esculpe uma extensa pluralidade de máscaras que flutua pelos meandros da vida, da arte e da mortalidade. Ao lado da pressa por escrever em contrapelo ao tempo que lhe resta, não habita a autocomiseração, mas a festa: “Luto para meus dias serem festivos. Só por estar viva, mesmo sem razão concreta, ergo a taça da ilusão”. Obra póstuma e inédita, Os rostos que tenho é, segundo o escritor Rodrigo Lacerda, o “testamento literário” de Nélida Piñon. 

A primeira escritora a se tornar presidente da ABL sabia do papel social e literário que exercem os registros que deixamos, as memórias que nos empenhamos para preservar. Através de textos curtos que, no entanto, não correm o risco de minguar na superfície, Nélida mergulha em suas próprias máscaras, tecendo um balanço de vida coeso, complexo e multifacetado. Os rostos que tenho nos apresenta a recortes de sua infância, na qual as línguas espanhola e portuguesa se entrelaçam, criando uma sinfonia cultural que ecoa através de sua vida e de sua literatura. Somos convidados, ainda, a conhecer sua relação íntima com a palavra, com a criação, com os seus contemporâneos. Em uma reflexão profunda sobre a mortalidade, reconhecemos a preciosidade de seus rastros e vontades de memória.

O prefácio desta primeira edição, assinado pelo escritor – e editor de Nélida Piñon - Rodrigo Lacerda, deixa um recado ao leitor:

“Haveria ainda muito a se falar sobre o testamento literário de Nélida Piñon e seus rostos mutantes, ou, como diz o capítulo 46, suas “máscaras”. É melhor, no entanto, deixar que os leitores se surpreendam com o livro. E se emocionem com as derradeiras perguntas que Nélida deixa no ar, vendo próximo o fim de uma vida inteira dedicada ao poder de invenção e reinvenção pelas palavras.”

RESENHA

Os rostos que tenho é um livro póstumo e inédito da escritora brasileira Nélida Piñon, considerada uma das maiores da língua portuguesa. Publicado em 2023 pela editora Record, o livro reúne 147 crônicas curtas, que lembram um diário, nas quais a autora reflete sobre sua vida, sua obra, sua relação com a palavra, seus amigos, seu amor, sua morte e seu Deus.

O nome da obra é uma alusão ao título do capítulo 46, ao qual Nélida adotou após uma reunião com os editores da obra, o titulo original desta obra é Andanças de Nélida, e foi escrito a obra como uma testamento literário enquanto escrevia, em contrapartia, seu último romance, como prefaciado por Rodrigo Lacerda.

O livro é dividido em 147 capítulos, que variam de uma a três páginas, e que abordam temas diversos, como a infância, a família, a cultura, a política, a literatura, a amizade, o amor, a solidão, a velhice, a morte e a fé. Nélida Piñon, que era filha de imigrantes espanhóis, mostra como sua identidade foi marcada pela convivência entre duas línguas e duas culturas, e como isso influenciou sua escrita. Ela também homenageia seus mestres e amigos, como Clarice Lispector, García Márquez, Susan Sontag, Rubem Fonseca, entre outros, e compartilha suas impressões sobre suas obras e suas vidas.

Os rostos que tenho é um livro que celebra a arte e a existência, em uma prosa lírica e envolvente. Nélida Piñon mostra sua paixão pela palavra, sua busca pela beleza, sua lucidez diante da realidade, sua coragem diante do sofrimento, sua esperança diante do mistério. É um livro que revela a grandeza de uma escritora que soube transformar sua vida em literatura, e sua literatura em vida.

A autora nos brinda com sua genialidade de forma poética e singela em cada capítulo,  sobretudo, quando faz afirmações ao divino no capítulo de abertura da obra, a eternidade: Deus é tão palpável quanto um pedaço de pão. Apieda-se da fome humana enquanto impõe-nos seu intransigente decálogo. E dissemina existir onde nos abrigaremos no futuro. Vale, pois, crer em tal divindade. (p.19); quando aborda a estética: A estética tem rosto, posso vê-lo. Assim, no exercício da arte, a estética é difusa, inconsútil, arcaica, carnal, mística, transcendente, arqueológica, vasta, profunda, tradicional, contemporânea, sobretudo, mestiça (p.21); quando aborda a humanidade: Quem repetirá, à beira da cama, palavras que decerto não foram alinhavadas pelo engenho e pela carência dos homens? (p.23).

A muito o que se declarar quando o tópico central da discussão é Piñon, Nélida esteve sempre à frente de seu tempo, não apenas em suas palavras e atitudes, mas em seu legado.

Nélida Piñon, que faleceu em 2022, aos 85 anos, em Lisboa, deixou um legado literário de grande valor e reconhecimento. Foi a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras, em 1996, e recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais, como o Príncipe de Astúrias, da Espanha, em 2005. Em Os rostos que tenho, ela revela as múltiplas facetas de sua personalidade e de sua criação, em um testemunho sincero, poético e emocionante.

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