[RESENHA#567] O menino antigo, de Carlos Drummond de Andrade

 


APRESENTAÇÃO

Primeiro volume da reunião de poemas memorialísticos de Drummond, Boitempo I: Menino antigo retorna em novo projeto, com posfácio de Carlos Bracher.

Originalmente publicada por Drummond em três volumes — em 1968, 1973 e 1979 —, a série Boitempo parece endossar, não sem ironia, dois de seus versos mais simples: “Viver é saudade / prévia.” Ao compô-la, o poeta admitia que voltava a ser criança em Itabira, e com volúpia”, embora uma voz não nomeada o exortasse, desde sempre, a calar tais lembranças bobocas de menino”.

Não calou. Ao revisitar o passado, alegou que apenas escrevia o seu presente. Na verdade, foi além. Recordando as impressões de infância no “mundo minas”, também deixou registrada parte da biografi­a de um Brasil de essência escravagista e predatória. A agritortura”, o garimpo, o comércio, tudo admirava o pequeno Carlos, atento às vontades daquilo que talvez já identifi­casse como “privilégio” e “propriedade” — aliás, Drummond dá esses títulos a dois poemas aqui reunidos.

Carlos floresceu sob a influência das leis arcaicas que ainda regiam, no início do século XX, as relações entre sociedade e natureza, fé e moral, terra e riqueza, fazenda e família. Cresceu admirando-se do poderoso avô coronel; do pai pecuarista, que ao fi­lho ensinou “o medo e a rir do medo”; da mãe, tão “mais fácil de enganar”; e dos irmãos, vivos e mortos, presenças “a decifrar mais tarde”.

Boitempo”, assim, foi o amálgama perfeito que encontrou para defi­nir sua origem híbrida, rural e de certa forma aristocrática, já que o boi, para ele, era um animal mágico fundamental, sempre a ruminar os mistérios que o nutriam: “o fubá da vida” moído pelo tempo, bem como suas primeiras letras e até a suspeita de que o próprio amor seria, talvez, “um espetáculo / oferecido às vacas / que não olham e pastam”.

As novas edições da obra de Carlos Drummond de Andrade têm seus textos fixados por especialistas, com acesso inédito ao acervo de exemplares anotados e manuscritos que ele deixou. Em Boitempo I, o leitor encontrará o posfácio do pintor, escultor e escritor Carlos Bracher; bibliografias selecionadas de e sobre Drummond; e a seção intitulada “Na época do lançamento”, uma cronologia dos três anos imediatamente anteriores e posteriores à primeira publicação do livro.

Bibliografias completas, uma cronologia de vida e obra do poeta e as variantes no processo de fixação dos textos encontram-se disponíveis por meio do código QR localizado na quarta capa deste volume.

RESENHA

Boitempo I: Menino antigo é o primeiro volume da reunião de poemas memorialísticos do poeta. Ao revisitar o passado, ele alegou que apenas escrevia sobre o seu presente.

Considerado o ponto mais alto da lírica memorialística de Carlos Drummond de Andrade, este livro é o primeiro das suas memórias poéticas. Ele se destaca pelo esforço em resgatar e reconstruir a infância perdida, juntamente com a mítica Itabira do Mato Dentro. O movimento próprio à rememoração desobedece qualquer linearidade temporal presente, sobrepõem-se animais e frutas da roça, móveis da casa patriarcal, figuras familiares, temores noturnos, causos de figuras célebres na cidade e histórias de forasteiros - muitas delas proibidas ao garoto que tudo observa com olhos e ouvidos atentos.

Drummond transita pela vila de sua infância até a mocidade e o vasto mundo que chega apenas pelo jornal "ilustrado e longínquo" com curiosidade - uma característica que o acompanhou por toda vida. Seu estilo antissentimental traz um retrato realista dos lugares descritos em suas memórias.

Alguns dos destaques do livro incluem "Poema de Sete Faces", um dos poemas mais famosos do autor; "No Meio do Caminho", um retrato vívido e evocativo das paisagens brasileiras; e "A Máquina do Mundo", considerado por muitos como um dos melhores trabalhos literários já produzidos na língua portuguesa.

De maneira geral, "O Menino Antigo" oferece aos leitores uma oportunidade única para apreciar alguns dos melhores trabalhos literários de Carlos Drummond de Andrade. Através destes textos poderosos somos levados numa jornada emocionante rumo às profundezas paradoxais da existência humana - suas angústias, desejos, esperanças e sonhos - tudo isso com muito lirismo e sensibilidade estilística próprias à grandeza deste poeta consagrado em todo mundo.

O AUTOR

Carlos Drummond de Andrade (1902–1987) foi um dos maiores poetas brasileiros do século XX. "No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho" é um trecho de um de seus poemas mais conhecidos.

Drummond foi também cronista e contista, mas foi na poesia que mais se destacou. Foi o poeta que melhor representou o espírito da Segunda Geração Modernista com uma poesia de questionamento em torno da existência humana.

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