“Nunca se pode conhecer, mas apenas se narrar”

A velhice, é um estudo - livro escrito por Simone de Beauvoir que abrange mil anos e uma variedade de diferentes nações e culturas para fornecer uma imagem clara e alarmante da "vergonha secreta da sociedade" - onde, a autora denuncia a distância da comunidade com relação aos idosos, com relação ao que os idosos são obrigados e forçados pela sociedade a sofrer e suportar. A narrativa de Beauvoir tende para as questões ligadas à visibilidade do idoso no campo social. Como uma sociedade que educa para respeitar, amar e acolher, castiga e evita o idoso? De que forma a sociedade se desfaz da presença daqueles que um dia foram maioria? Como as gerações se comportam perante a mudança existente entre o ser cuidado e o cuidar? E talvez, a indagação mais inquietante seja: como o nosso tratamento - o desta geração - é um reflexo dos valores e prioridades da nossa sociedade?

Beauvoir separou o livro em duas partes. A primeira metade aborda um olhar "de fora para dentro", ou seja, como a sociedade e seus cidadãos enxergam a velhice, variando de como as famílias tratatam os mais velhos aos pontos de vista da velhice pelos filósofos e gigantes literários. Ao longo dos anos, ela quebra as influências de filósofos particulares e mostra como essas influências se assentaram na psique humana e estão embutidas na sociedade dos anos 70. A segunda parte do livro é um olhar de dentro para fora. idoso, de pobre a rico, bem como famoso a desconhecido, Beauvoir examina os mitos e realidades da vida como uma pessoa idosa no mundo desenvolvido, e apresenta provas de que, apesar das expectativas das sociedades, os idosos ainda sentem as mesmas paixões que os seus. Beauvoir aborda e desafia criticamente a marginalização das sociedades e negligencia sua população idosa e desafia o leitor a mudar seu futuro.

O que é velhice? É uma objetiva ou uma construção social? ou ambos? Como as pessoas experimentam a idade? Quais estratégias você tem para lidar com o fato de ser velho? Como diferentes culturas tratam pessoas idosas? Quais questões éticas surgem? Em suma, ela está começando a examinar a velhice do ponto de vista filosófico. Beauvoir começa dizendo que a maioria das pessoas tem muita resistência a pensar sobre essas coisas e prefere evitá-las: a negação é definitivamente minha abordagem preferida. Eu nunca vou envelhecer, dizem eles mesmos. Eu vou ficar jovem, talvez não no corpo, mas pelo menos em espírito. Talvez eu me mate para evitar um destino tão miserável. (Ela nos diz que esta é uma reação muito comum). E ainda assim, a maioria das pessoas envelhece. Então, por que não olhar para o que isso significa? Aqui, há uma variável dentre o pensamento existencialista de Beauvoir, uma ótica sob a qual somos comandados à refletir acerca da realidade da idade e do paralelo à nossa existência atual, fazendo-nos pensar no dia do amanhã, pensando não somente em como estaremos, mas em como estão as pessoas que se encontram nesta posição de idade: velhas.

Eu sou incapaz de conceber o infinito, e ainda assim não aceito a finidade. Eu quero essa aventura que é o contexto da minha vida para continuar sem fim.

O problema de encarar a velhice é que ela possui óticas, lados, experimentações. O que é velhice para mim, pode não ser para você. Ainda que a abordagem de Beauvoir volte-se para a velhice no quesito idade, há de se pensar as diferentes nuances e vertentes que cobrem o mesmo tópico: a velhice do corpo, do espírito, da alma, das vontades, dos desejos. Há uma variante de pensamentos dentro de um mesmo tópico, pois as pessoas são variadas, os ensinamentos e os desejos também. Tudo isso não torna o estudo mais fácil, muito pelo contrário, as múltiplas faces do problema nos colocam frente a uma rua sem saída, onde estamos rodeados de pessoas velhas, mas todas com visões diferentes sobre o que de fato é a velhice, então, ninguém acaba sabendo como encarar a velhice do outro, uma vez que fomos educados para acolher e aceitar, porém, não fomos educados para aceitar e encarar os nossos problemas, ninguém é capaz de fazer isso por nós, e quando chegar a hora de encarar o espelho da idade, só nós, apenas nós, poderemos decidir qual será a nossa reação e o que faremos perante a isso. Mas, enquanto isso não acontece, podemos simplesmente refletir nos ensinamentos de Beauvoir.

Agora, fiquemos com a reflexão mais profunda presente em toda a obra:

A sociedade só se preocupa com o indivíduo na medida em que ele é lucrativo. Os jovens sabem disso. Sua ansiedade quando entram na vida social coincide com a angústia dos idosos, pois são excluídos dela.

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Blogueiro, escritor, poeta, professor, ensaísta, cinéfilo, viajante e filantropo. Estudante de Ciências Sociais em busca de uma compreensão mais assertiva do nosso local em sociedade.

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