Sobre os dias que eu não gostaria de ter que contar

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Sobre os dias que eu não gostaria de ter que contar traz ao papel o que na vida faz arder. Talvez seja pretensão ou inocência acreditar que folhas transmitem dores sentidas na carne, mas as vozes de mulheres violentadas, que integram as estruturas do sistema carcerário feminino, precisam ser ampliadas e ecoadas até que suas vivências não sejam mais contadas, e sim, transformadas.

Me faltam palavras para comentar acerca da escrita de  Flávia Gândara Simão. O livro “sobre os dias que eu não gostaria de ter que contar”, tem por objetivo expor e esclarecer o funcionamento do sistema carcerário feminino, bem como suas vivências, percepções e sentimentos relacionados ao cárcere. O livro é uma forma da autora denunciar os abusos por parte dos procedimentos adotados pelos carcereiros mediante aos cuidados com as mulheres, tratando-as de forma desrespeitosa, abusiva e invadindo seu espaço, sobretudo, seus direitos. Para que esta obra fosse possível,  a autora, Flavia Gândara, entrevistou uma série de mulheres que vivem nestas situações, consultou bibliografias, leu e assistiu matérias, consultou a legislação e todo o quadro de leis disponíveis que contemplem este tópico e confirmou todos os dados, anotações e observações efetivadas novamente com as mulheres envolvidas no processo da pesquisa.

O curioso, ou talvez nem tão curioso assim, dado mais alarmante dentro deste livro-reportagem são indicativos que apontam para quais tipo de mulheres estão aprisionadas, que geralmente são pobres, desfavorecidas, jovens, sem estudo, responsáveis pelo sustento da família, oriundas de favelas ou regiões, cidades e setores menos favorecidos e/ou trabalhadoras informais que buscam através desta realidade o sustento de sua família. Essas mulheres representam 30% de todo sistema carcerário brasileiro, e dentro deste retrato, 67% são negras. O que podemos determinar é que o traço e os indicativos apontam que o sistema carcerário atual possui uma metodologia curiosa e duvidosa na escolha de suas encarceradas, em outras palavras, podemos inferir que a raça é um fator determinante na escolha de quem será encarcerado, o que revela-nos também que ainda há uma marginalização da figura do homem negro na sociedade. Isso também pode ser verificado lendo noticias, ouvindo o rádio ou lendo qualquer matéria na internet que fale de forma clara e objetiva sobre temas que envolvem problemáticas raciais. O sistema não leva em questão a forma como aquele indivíduo se encontra na sociedade, nem de suas obrigações, tudo o que importa naquele momento é o que consta no laudo de constatação lavrado no ato da prisão pelo policial, que nem sempre é feito de forma efetiva e clara. Atente-se bem ao que eu digo, não estamos dizendo que o sistema policial atual não age com seriedade, apenas que há um tratamento diferenciado de uma pessoa para outra quanto o critério é raça. Isso me lembrou uma fala de Gabriela Prioli no programa “O grande debate”, da CNN, ao ser questionada sobre os crimes de drogas por seu debatente Abduch, Prioli contestou a fala do amigo que criminalizou e responsabilizou o tráfico de drogas no Brasil como sendo culpa dos negros, Prioli então rebateu dizendo: “quem consegue ir para delegacia e ter a sua conduta classificada como porte para uso pessoal ao invés de tráfico de drogas, não é o jovem negro e pobre”.

Devemos nos ater que o histórico da mulher em sociedade é altamente diferente do histórico do homem no campo social. A mulher sofre pressão na família, no casamento, no trabalho, na maternidade e no campo social, ela luta por direitos e por posicionamentos que são gratuitos e disponibilizados sem nenhum grau de burocracia aos homens. A forma como algumas mulheres perdem sua liberdade, ainda que seja de uma forma igualitária com alguns homens, possuem fatores e influenciadores diferente, isso acontece porquê a mulher possui necessidades específicas que não correspondem à realidade masculina, estas necessidades tem sido privada, violada e agravada pelo sistema carcerário brasileiro que não leva em consideração os índices de aprisionamento de mulheres, de furto, de envolvimento, dentre outros fatores que poderiam ser determinantes para melhora do quadro feminino dentro das cadeias, ou até mesmo para anulação de determinadas prisões lavradas sem nenhum rigor teórico de aplicação além do laudo lavrado no ato e na constatação (material ou não) no ato.

Evidenciamos por tanto durante toda escrita de Gândara que não há um plano efetivo de ação do Estado por meio de leis ou de aplicações teóricas e práticas dentro dos muros das prisões femininas. Não há nenhum tipo de recurso ou treinamento que preparem policiais ou agentes penitenciários para uma melhora no quadro daquelas que se encontram aprisionadas. É necessário ampliar o nosso olhar e nossa visão para o mundo interior às paredes do cárcere e proporcionar uma efetivação dos direitos humanos para àqueles que carecem da responsabilidade social.

Um livro magnífico e completamente mágico por diversos motivos. Indico para todos os que desejam se aprofundar mais no tema, ou conhecer a temática livro-reportagem. Também abrem-se horizontes e portas de debate acerca do sistema carcerário e da aplicação legal por parte do governo.

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Graduado em Língua Portuguesa, redação, literatura & Ciências sociais. Pós-graduado em literatura contemporânea e geopolítica. Blogueiro, ativista, pai, influenciador digital literário (@postliteral), fundador do @proximoparagrafo (proximoparagrafo.com.br), CEO majoritário do Post Literal (@postliteral), cinéfilo, fãs de gatos e apaixonado por filmes, séries e tudo o que tiver ligação com design.

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