ENTREVISTA | O Zen como Forma de Repensar a Fantasia: conheça Dharma, romance de Carolina Magaldi


Escritora e tradutora mineira fala sobre os processos de criação do primeiro romance de uma trilogia que mescla conceitos do budismo à narrativa fantástica


O primeiro livro de uma trilogia, Dharma (Editora Paratexto, 130 pág.) da escritora, tradutora e professora acadêmica mineira Carolina Magaldi, oferece ao leitor um universo em que pessoas são selecionadas e treinadas para manter o fluxo de energia do mundo. A principal forma de evitar um cataclismo é direcionar e dar fluidez à energia emanada por todos a partir de emoções e sentimentos. A operação é silenciosa e realizada à sombra da maior parte da população. A obra, que se assemelha aos melhores livros de ficção e fantasia, pode parecer complexa à primeira vista, mas à medida que as primeiras páginas são passadas, mostra-se lógica, eloquente e cativante. 


Natural de Juiz de Fora (MG), a autora tem uma longa trajetória acadêmica que soma mais de 15 anos dedicados aos estudos. A escritora possui graduação em Letras - Língua Portuguesa (1998 -2001), Língua Inglesa (1999-2002) e Língua Italiana (2003-2007), é pós graduada em Globalização, Mídia e Cidadania (2003-2004), além de Mestre (2005-2006) e Doutora (2009-2013)  em Letras, na área Estudos Literários. Toda a formação se deu como aluna na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) de Minas Gerais. 



Confira a entrevista completa com a autora:

Se você pudesse resumir os temas centrais do livro, quais seriam?


Creio que o tema central seja a evolução e o amadurecimento de cada um como algo positivo e natural, perpassando a vida mundana e a espiritual, como algo que se constrói aos poucos. As temáticas da amizade e da atuação em equipes também são marcantes. O papel da escrita e da linguagem na vida também perpassam a obra, mas de forma mais sutil, como parte da construção. A criação de personagens femininas fortes, mas não masculinizadas e personagens masculinas não tóxicas também foi muito importante para mim. 


Por que escolher esses temas?


Porque a geração que está chegando à vida adulta - ou mesmo que já deveria estar integrando essa etapa - tem tido dificuldades em encarar o amadurecimento como algo positivo. No campo das discussões de gênero, há uma distorção no que se entende como personagens femininas fortes, que são em geral masculinizadas, além de personagens de fantasia agindo de forma violenta com o argumento de estarem almejando um bem maior. 


O que motivou a escrita do livro? Como foi o processo de escrita?


Eu vinha delineando a escaleta deste livro há mais de 5 anos, mas comecei a escrever de fato em 2020, com o período da pandemia. Com o mundo saindo dos trilhos, a escrita se tornou uma possibilidade de reflexão sobre o amadurecimento, que já vinha sendo um tema de destaque na minha vida, por conta da relutância que percebia em meus alunos universitários em amadurecer. O processo de escrita foi muito prazeroso e fluido, incluindo o processo de leitura crítica e preparação do texto. Hoje tenho os personagens como velhos amigos.  



Que livros influenciaram diretamente a obra? 


O livro dos 5 anéis, de Miyamoto Musashi, que foi presente de minha avó quando fiz 13 anos. O Mahabarata indiano e O Profeta de Kalil Gibran também.


Como você definiria seu estilo de escrita?


É um estilo leve e fluido, utilizando senso de humor não caricato nas atitudes dos personagens-chave da narrativa e sem simplificar a narrativa forçosamente ou aplicar fórmulas ou tropos já batidos..


Como é o seu processo criativo? 


Os romances foram planejados utilizando o parâmetro de projeto tradutório que criei para o grupo de pesquisa que coordeno. Inclusive já lecionei oficinas na Faculdade de Letras discutindo esse processo. A partir desse projeto, reservei um horário no início da manhã para manter um ritmo de escrita mesmo com todas as atribuições de professora universitária. 


Você tem algum ritual de preparação para a escrita? Tem alguma meta diária de escrita?


Para mim era muito importante que os romances tivessem 12 capítulos, por conta da simbologia do número para as práticas da yoga e tentei manter os capítulos com o mesmo volume de palavras. Não traço metas de volume de escrita porque há momentos em que flui mais e momentos de muito cansaço mental, já que leio e escrevo como profissão, lecionando tradução literária e isso seria contraproducente e geraria muita ansiedade, mas mantenho ritmos de escrita quase diária.  

Quais são as suas principais referências como autora?

Eu pesquiso épicos folclóricos, que são narrativas de fantasia originadas de tradição oral e registradas na forma escrita durante o Romantismo. Eles são uma fonte de inspiração e imaginação inegável, principalmente a Kalevala finlandesa. Gosto muito de autores de impacto espiritual também, como Hermann Hesse e Kalil Gibran, além de autores fantasia, como JRR Tolkien, Ursula LeGuin e Neil Gaiman. Na literatura brasileira, meu autor preferido de todos os tempos é Machado de Assis, que costumo pesquisar e traduzir para outras línguas.


Você escreve desde quando? Como começou a escrever?

Escrevo desde adolescente, mas comecei pela poesia. Só depois de começar a traduzir prosa me apaixonei pelas nuances da narrativa. Comecei a escrever então ficção curta, como flash fiction, que publiquei em revistas especializadas no Brasil e no exterior, e posteriormente em coletâneas também. Só então arrisquei pensar na minha primeira trilogia. 

Quais são os seus projetos atuais de escrita? O que vem por aí?

Estou finalizando o segundo volume da trilogia, que se chamará Samsara e deve ser lançado em meados de 2024. Em breve também deve ser publicada minha tradução da Kalevala finlandesa, pela Harper Collins. Também estou coordenando um projeto de extensão na UFJF chamado Fantástico Brasil, que busca contribuir para a internacionalização da fantasia escrita no país atualmente, com traduções para a língua inglesa.



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