ENTREVISTA | Do cabelo grisalho à autonomia e autoestima feminina em "Sem Tinta", de Camila Balthazar

“E se eu parasse de pintar o cabelo?”. A partir desse pensamento, a jornalista e escritora Camila Balthazar (@camila.balthazar) fez da sua transição para o grisalho o ponto de partida para investigar por que o branco parecia ser a única cor proibida para os fios das mulheres. As descobertas dos dois anos seguintes estão no livro “Sem tinta”, sua nova obra de não ficção, lançada pela editora Paraquedas, selo de publicação da Claraboia. O texto da orelha é assinado por Adriana Ferreira Silva, também jornalista e escritora.

Ao longo de 232 páginas, Camila mostra por que os questionamentos vão muito além da simples decisão sobre a cor dos cabelos. Após pesquisar sobre padrões de beleza e envelhecimento, estudar sobre a história das tinturas e entrevistar mais de trinta mulheres – cientistas, psicólogas, cabeleireiras, grisalhas famosas na internet e até uma rabina –, a autora evidencia como o grisalho atravessa tanto questões de gênero, raça e classe social, como de saúde, feminismo e etarismo. Entre as mulheres entrevistadas na obra estão Carla Scanavez, PhD em cabelos pela Unicamp e pesquisadora da Natura; Marina Richena, doutora em química pela Unicamp e pesquisadora da AgResearch; e Maria Valéria Robles Velasco, pesquisadora e professora do departamento de cosmetologia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP.

Nascida na Bélgica em 1984, Camila Balthazar viveu mais de 10 anos em São Paulo, onde fez pós-graduação em jornalismo literário. Desde o início da pandemia, voltou a viver em Florianópolis, onde passou a maior parte da infância e da adolescência. Ao longo da vida, também já morou em uma cidade rural do Kansas, nas montanhas da Califórnia e na Cidade do México, onde fez a primeira entrevista que mudou a forma como passou a olhar para o jornalismo.

Camila também publicou “BIO 50 CEOs”, escrito a partir de entrevistas com algumas das maiores lideranças do Brasil e do mundo, e escreveu dezenas de livros sob encomenda com histórias corporativas e familiares. Atualmente, está à frente da Casa B, empresa que reúne jornalistas especialistas em dar voz às ideias de líderes de grandes empresas.  


Confira a entrevista completa com a autora:

O que motivou a escrita do livro? Como foi o processo de escrita?

A história do “Sem tinta” começou quando uma cabeleireira me falou: “Por que você não para de pintar o cabelo?”. O ano era 2019 e achei a ideia totalmente impossível. Poucos meses depois, veio a pandemia e aí me perguntei: “E se eu parasse?”. Eu não saía na rua, não tinha ninguém vendo a minha raiz branca aparecendo e de repente percebi que aquilo não me incomodava. O que me incomodava era imaginar os outros vendo; era saber que eu não estava fazendo o “máximo possível” para ser considerada bonita na nossa sociedade. 

Parei de pintar e, um ano e pouco depois, comecei a procurar livros, relatos e pesquisas que me explicassem por que o branco parecia ser a única cor proibida para os nossos fios. Quanto mais procurava, mais sentia falta de um espaço que dialogasse com o que eu estava vivendo. Eu passava horas conversando sobre isso com outras pessoas. Admirava e salvava fotografias de mulheres grisalhas. Anotava frases que lia e gostava. Assistia a documentários sobre cabelos brancos. Lia todos os poucos livros que encontrava sobre o tema – um deles, aliás, tinha a seguinte frase: “O que dizem sobre cabelos brancos é mentira”.

Demorei a entender por que era mentira. Precisei entrevistar dezenas de mulheres — cientistas, psicólogas, amigas, cabeleireiras, grisalhas famosas na internet e até uma rabina. Li muitas pesquisas acadêmicas sobre padrões de beleza, envelhecimento, etarismo e genética. Consultei dados sobre a indústria da beleza e fiquei bastante surpresa com as descobertas.

Em maio de 2021, finalmente comecei a escrever. Uma vez por semana, eu passava um dia inteiro escrevendo sobre as últimas conversas e achados. Como escritora, é assim que reflito sobre a minha própria experiência. Eu não queria convencer ninguém a parar de pintar os cabelos. Minha motivação era compartilhar o segredo que até então ninguém me contara: não tingir os fios também é uma opção.

Se você pudesse resumir os temas centrais do livro, quais seriam?

Eu diria que a principal mensagem do livro é a nossa liberdade de escolha. Quando comecei a pintar o cabelo, por volta dos 25 anos, jamais cogitei que eu estava diante de duas opções: tingir ou não. Simplesmente escondi os fios brancos com tonalizante – e o mais interessante é que devo ter feito isso quando tinha uns vinte ou trinta fios brancos, mas nós temos 150 mil fios na cabeça! Ou seja, tingimos tudo por conta de pouquíssimos brancos.

Muitas pessoas que já leram o livro também relatam que nunca tinham pensado sobre essa questão antes. Parece algo básico, mas realmente fazemos no automático sem questionar o que está por trás dessa escolha. Somos nós que escolhemos ou é a nossa cultura que nos influencia e escolhe por nós?

O cabelo branco traz vários outros questionamentos que estão presentes no livro, como o nosso medo de envelhecer. Afinal, um dos principais receios que as mulheres têm ao ficarem grisalhas é parecerem mais velhas. Apesar disso, essa é uma questão que não preocupa os homens da mesma forma. Eles ficam grisalhos e charmosos; nós, velhas e desleixadas. Por trás desse conceito há muitas camadas que nos levam a conversar sobre etarismo e feminismo.


Que livros influenciaram diretamente a obra? 

Acredito que todos os livros que já lemos vão compondo o nosso repertório e acabam nos influenciando de alguma forma, mas nesse caso específico dois livros estavam sempre ao meu lado na mesa de trabalho: “Indomável”, da Glennon Doyle, “O ano do pensamento mágico”, da Joan Didion. Nenhum deles trata de cabelos brancos, mas ambos eram meu refúgio para os momentos em que eu travava na escrita. Folhear e ler alguns trechos desses livros, que também têm capítulos curtos e tratam de temas que podem ser considerados tabus – as expectativas alheias que as mulheres parecem sempre estar atendendo, no caso de “Indomável”, e o luto, no caso do “O ano do pensamento mágico” –, me ajudava a me encontrar na minha própria escrita.

Além disso, outros livros foram muito importantes durante a pesquisa do “Sem tinta”. Destaco o “Bruxas – A força invencível das mulheres”, da jornalista francesa Mona Chollet, que li em espanhol por indicação de uma amiga, já que ainda não havia tradução para o português. Fiquei muito feliz quando meses depois saiu a edição brasileira pela Editora Âyiné. Outro livro que adorei ter descoberto foi o “Livro do cabelo”, da jornalista Leusa Araujo, que traz uma pesquisa histórica riquíssima e nos mostra como o cabelo deixa pistas do contexto da sociedade dependendo da época e do país.

E é impossível não citar os dois livros que são os meus preferidos para estudar escrita: “Como escrever bem”, do William Zinsser, e “Sobre a escrita”, do Stephen King. Tenho um combinado comigo mesma de relê-los pelo menos uma vez a cada dois anos. Sempre aprendo algo novo e lapido a minha escrita com essa dupla.

Quais são as suas principais referências como autora?

Gosto bastante de livros de ficção, mas as minhas principais influências na escrita são os livros de outras pessoas que também trabalham ou trabalharam como jornalistas e aplicam as técnicas do jornalismo literário. Como exemplo, volto a falar da Joan Didion. “O ano do pensamento mágico” me marcou muito quando li, em 2008, principalmente pela forma como ela traz as pesquisas científicas sobre luto em um relato tão pessoal. Mais recentemente, gostei bastante do livro “Como mudar a sua mente”, escrito pelo jornalista Michael Pollan. O texto é um pouco menos literário do que os que me atraem mais, mas gostei bastante da forma como ele aplicou o jornalismo para pesquisar a fundo sobre os psicodélicos.

Você escreve desde quando? Como começou a escrever?

Acho o máximo quando leio entrevistas com escritores e escritoras que contam que amavam escrever desde a infância. No meu caso, só fui descobrir que gostava de escrever durante as aulas de redação para o vestibular. Eu já tinha facilidade com essas disciplinas durante a escola, mas ainda não tinha percebido que gostava do processo e do resultado do que escrevia. Nunca soube qual faculdade escolheria e, por exclusão e talvez por esse interesse que surgiu pela escrita, acabei decidindo cursar jornalismo. Desde então, a escrita é parte tanto da minha vida pessoal como profissional. Escrevo todos os dias, principalmente por conta do trabalho. Aliás, o meu maior desafio atual é encontrar os meus momentos de escrita por prazer – sem que a atitude de abrir uma tela em branco me remeta à sensação de que ainda estou no horário do expediente!

Como você definiria seu estilo de escrita?

Talvez as pessoas que leem o que escrevo possam responder melhor: o que mais escuto de quem já terminou “Sem tinta” é que elas sentiram como se estivessem conversando comigo, sentadas à minha frente. Um comentário que também me chamou a atenção foi de que a pessoa viu meu livro, ficou com preguiça por estar diante de mais um livro que dita regras para a “mulher moderna”, mas resolveu dar uma chance e no fim se surpreendeu, adorou e me procurou nas redes sociais para contar isso.

Dito isso, acredito que minha escrita é direta, leve e sem dar muitas voltas ou usar palavras complicadas. Quando termino um texto, sinto que parece que aquelas palavras fluíram naturalmente da minha cabeça para o computador. Mas claro que não foi assim: existe bastante trabalho para chegar ao resultado de um texto que transmita essa sensação de uma conversa próxima com quem está lendo.

Como é o seu processo de escrita?

Escrevo todos os dias, mas nem sempre o que eu chamo de “para mim”. Sou jornalista, já fui editora de uma revista de bordo e sócia de uma editora de livros sob encomenda, então tudo o que fiz e faço na vida profissionalmente envolve a escrita. Atualmente, tenho uma empresa que reúne mais jornalistas sêniores para dar voz às ideias de líderes de grandes empresas. Dentro dessas demandas de trabalho, tento encaixar a escrita pessoal, o que nem sempre é fácil.

Por isso, preciso definir metas para mim mesma. No caso do livro “Sem tinta”, decidi que a melhor estratégia para eu manter o compromisso comigo mesma seria criar o compromisso com outras pessoas. Criei uma newsletter no Substack e passei a enviar um texto por semana para o e-mail das pessoas inscritas. Depois editei esses textos e acrescentei novos capítulos para o livro. Esse processo foi muito prazeroso porque também fez com que a escrita fosse menos solitária – as pessoas podiam ler, comentar e compartilhar os textos.

Prefiro escrever pela manhã, mas no fim escrevo quando for necessário para cumprir o prazo que estabeleci. Se estou com dificuldade de “engrenar”, coloco uma música no fone de ouvido – minha playlist preferida é a do jazzista Thelonious Monk, que descobri ao saber que era a música preferida do Harumi Murakami para escrever –, acendo uma vela, deixo o celular em outro cômodo da casa e desconecto o computador da internet. É um processo que não faz mágica, mas costuma me deixar feliz.

Quais são os seus projetos atuais de escrita? O que vem por aí?

Também como parte do meu trabalho, escrevo livros como ghostwriter. Recentemente, entreguei um deles após oito meses de dedicação e agora tirei um período de descanso desses projetos maiores de longo prazo. Apesar de ainda não ter outros projetos autorais em vista, já sei que sempre acabo me interessando por temas que envolvam pesquisa e entrevistas, assim como aconteceu com “Sem tinta”. Além disso, em geral me interesso por comportamento e o papel da mulher na sociedade, mas sei que até mesmo uma pesquisa sobre plantas medicinais poderia um dia me interessar. Se eu fosse tentar prever o futuro, diria que o próximo livro vai investigar algum tema que esteja me marcando profundamente e me desperte o desejo de investigar.

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