[RESENHA #946] Corpo, de Carlos Drummond de Andrade


APRESENTAÇÃO: “Meu corpo não é meu corpo, / é ilusão de outro ser.” Nos versos de abertura deste livro, publicado em 1984, Drummond se propõe um rompimento radical: o desejo de afastar-se do invólucro de si mesmo, um corpo que lhe apaga a lembrança da mente, que o “ataca, fere e condena”, inventando a dor para, entre outros ardis, “torná-la interna, / integrante do meu Id”.

Desse corpo já velho e privado, seu “carcereiro”, Drummond parte para outros, bem menos exclusivos. O corpo que se desnuda com prazer, tornando-se o “último véu da alma”. O corpo feminino, ou a representação pictórica dele, percebido não apenas como linha, curva e volume, mas também como signo e melodia. Os corpos em repouso e os ausentes, os “mortos que andam” e que, apesar de avessos à sua condição essencial de carne, já se veem como fértil “terra estrumada” ― o corpo feito jardim.

“Por que nascemos para amar, se vamos morrer? / Por que morrer, se amamos?” É o que Drummond se pergunta, sempre oscilando entre a materialidade e a metafísica dos corpos que investiga. Põe-se a falar do tempo, do “pão do ano passado”, que o corpo mastiga, mas não consegue eliminar; do céu e da grandeza ambígua dos corpos celestes; da vergonhosa desigualdade do nosso corpo social. “Um dia”, prevê o poeta, “virá tudo de roldão”, e “as classes se unirão entre os escombros”.

As novas edições da obra de Carlos Drummond de Andrade têm seus textos fixados por especialistas, com acesso inédito ao acervo de exemplares anotados e manuscritos que ele deixou. Em Corpo, o leitor encontrará o posfácio da crítica literária e pesquisadora da USP Eliane Robert Moraes; bibliografias selecionadas de e sobre Drummond; e a seção intitulada “Na época do lançamento”, uma cronologia dos três anos imediatamente anteriores e posteriores à primeira publicação do livro.


RESENHA

Bibliografias completas, uma cronologia de vida e obra do poeta e as variantes no processo de fixação dos textos encontram-se disponíveis por meio do código QR localizado na quarta capa deste volume."Corpo" é uma coletânea poética de Carlos Drummond de Andrade que busca explorar as complexidades e incertezas da existência humana por meio de reflexões sobre o corpo e suas manifestações físicas e emocionais. Esta análise-resenha destacará alguns poemas significativos presentes no livro, fornecendo uma visão geral sobre a obra como um todo.

O poema inicial, "Leio o poema de um corpo", estabelece o tom introspectivo e reflexivo do livro. Nele, o autor examina o corpo como um texto a ser lido, com sua própria gramática e histórias a contar. Drummond faz um convite ao leitor para mergulhar na experiência do corpo como um meio de compreensão da vida e de si mesmo.

Outro poema notável é "Sou aquele que sabe", que explora a dualidade entre a mente e o corpo. Drummond questiona a relação entre o "eu" interior e o "eu" físico, revelando a luta existencial entre consciência e matéria. Essa reflexão profunda mostra o interesse do autor em desvendar sua própria existência.

"O homem observado" é um dos poemas mais impactantes do livro, abordando a ideia de que o corpo, muitas vezes, é reduzido a um objeto de análise e controle. Drummond critica a objetificação do ser humano e aponta para a importância de olhar além da aparência física, buscando compreender a complexidade interior de cada indivíduo.

Através do poema "Confissão amarga", Drummond explora a relação corpo-mente-sociedade e a angústia que surge quando o corpo não corresponde às normas impostas pela sociedade. O autor reflete sobre o desejo de aceitação e a luta contra a pressão para se encaixar em padrões estéticos, o que pode levar a uma percepção negativa do próprio corpo.

Em "O Minuto Depois", Drummond aborda as sensações físicas e emocionais que surgem após um momento íntimo, explorando os sentimentos de vulnerabilidade e intimidade que o corpo proporciona. Em "O Amor e seus Contratos", ele discute as relações interpessoais moldadas pelo corpo, como as expectativas e compromissos que envolvem o amor romântico.

"Dezembro" é um poema que trata a passagem do tempo e a morte, mostrando como o envelhecimento e a finitude do corpo são inevitáveis. "Pintor de Mulher" retrata a admiração e fascínio pelo corpo feminino, enquanto "Maternidade" explora a conexão profunda entre mãe e filho e as transformações físicas e emocionais que a maternidade traz.

Já em "Homem Deitado", o autor apresenta a figura do corpo em repouso, destacando a necessidade do descanso e a fragilidade do ser humano. "Ausência" aborda a solidão e a sensação de vazio que o corpo pode experimentar em momentos de separação e perda.

Em "História Natural", Drummond explora a relação entre o corpo e a natureza, destacando nossa conexão com o mundo ao nosso redor. Por fim, "O Outro" discute a relação com o corpo do outro, evidenciando a importância do encontro e do desejo.Em contraste com a angústia presente em alguns poemas, "Feijoada e família" traz um toque de humor e celebração da vida cotidiana. Drummond descreve poeticamente a preparação de uma feijoada em família, ressaltando a importância dos momentos compartilhados e a valorização das pequenas alegrias do corpo e do convívio social.

Esses são apenas alguns exemplos das diversas abordagens e reflexões que Carlos Drummond de Andrade apresenta em "Corpo". O livro oferece uma visão multifacetada sobre o corpo humano, explorando sua relação com a existência, a sociedade, a identidade e as transformações emocionais. Drummond convida o leitor a contemplar o corpo como um repositório de histórias e emoções, despertando reflexões sobre a própria vida e o mundo ao redor.

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