[RESENHA #912] Talvez você deva conversar com alguém: Uma terapeuta, o terapeuta dela e a vida de todos nós, de Lori Gottlieb

De modo geral, buscamos a ajuda de um terapeuta para melhor compreender as angústias, os medos, a culpa ou quaisquer outros sentimentos que nos causam desconforto e sofrimento. Mas quantos de nós já paramos para perguntar: o terapeuta está imune à gama de questões que ele auxilia seus pacientes a dirimir e superar, dia após dia? A autora best-seller e terapeuta Lori Gottlieb nos mostra que a resposta a essa pergunta traz revelações surpreendentes.

Quando ela se vê emocionalmente incapaz de gerenciar uma situação que perturba sua vida, uma amiga lhe faz uma sugestão: talvez você deva conversar com alguém.

Combinando histórias reunidas a partir de sua rica trajetória como terapeuta (distribuídas entre quatro personagens inesquecíveis) à sua própria experiência como paciente, Lori nos oferece um relato afetuoso, leve e comovente sobre a universalidade de nossas perguntas e ansiedades, e joga luz sobre o que há de mais misterioso em nós, afirmando nossa capacidade de mudar nossas vidas.

Uma jornada emocionante de autodescoberta, uma homenagem à natureza humana e um lembrete sobre a importância de sermos ouvidos, mas também de sabermos ouvir. Um livro sobre a importância dos encontros, dos afetos e da coragem de todos os que partimos para a aventura do autoconhecimento.

RESENHA

O livro é uma mistura de memórias, autoajuda e divulgação científica sobre o mundo da terapia e da psicologia. A autora, Lori Gottlieb, é uma terapeuta renomada que escreve uma coluna semanal na revista The Atlantic e coapresenta um podcast chamado Dear Therapists. Ela também é formada em jornalismo e medicina, e já publicou outros livros, como Mulheres que escolhem demais e Diário de uma anoréxica.

No livro, Lori conta sua própria história como paciente de terapia, depois de passar por uma crise pessoal que abalou sua autoestima e seu senso de propósito. Ela decide procurar a ajuda de um terapeuta chamado Wendell, que se revela um profissional competente, sensível e bem-humorado. Ao longo das sessões, Lori vai se abrindo sobre seus medos, suas frustrações, seus relacionamentos e seus sonhos, e aprende a lidar com suas emoções de forma mais saudável e madura.

Paralelamente, Lori também narra as histórias de quatro de seus pacientes, que representam diferentes perfis e problemas. Há John, um roteirista de Hollywood que é arrogante, cínico e sarcástico, mas que esconde uma profunda dor pela morte de um filho. Há Julie, uma jovem professora que descobre que tem um câncer terminal e que precisa enfrentar a finitude da vida. Há Rita, uma mulher de 69 anos que se sente solitária, infeliz e sem esperança, e que cogita o suicídio. E há Charlotte, uma alcoólatra que tem dificuldade de se relacionar e de se valorizar.

Cada um desses personagens tem uma trajetória única e comovente, que revela aspectos históricos, sociais, políticos, geográficos e antropológicos de suas vidas. Por exemplo, John é um veterano da Guerra do Golfo, que sofre de estresse pós-traumático e que tem uma visão crítica da política americana. Julie é uma imigrante iraniana, que enfrentou o preconceito e a violência em seu país de origem e que se adaptou à cultura ocidental. Rita é uma sobrevivente do Holocausto, que carrega as marcas do trauma e da perda de sua família. Charlotte é uma vítima de abuso sexual na infância, que desenvolveu uma baixa autoestima e uma dependência química.

Lori mostra como a terapia pode ajudar essas pessoas a se conhecerem melhor, a se libertarem de seus padrões destrutivos, a se reconciliarem com seu passado, a se conectarem com seu presente e a se projetarem para seu futuro. Ela também mostra como a terapia é uma via de mão dupla, em que o terapeuta também aprende com seus pacientes, e como a relação terapêutica é baseada na confiança, na empatia, na honestidade e no respeito.

O livro é repleto de simbolismos, que ilustram os temas e as mensagens principais da obra. Por exemplo, o título do livro é uma frase que Lori ouve de uma amiga, que a incentiva a procurar terapia, e que se torna um lema para ela e para seus pacientes. O nome do terapeuta de Lori, Wendell, significa “viajante”, o que remete à ideia de que a terapia é uma jornada de descoberta e transformação. O livro também usa metáforas, como a do jogo de xadrez, que representa a estratégia e a inteligência necessárias para lidar com os desafios da vida, e a da caixa de lenços, que representa a vulnerabilidade e a compaixão que a terapia desperta.

O livro traz vários ensinamentos, tanto teóricos quanto práticos, sobre a psicologia e a terapia. Lori explica conceitos como transferência, contratransferência, resistência, insight, aliança terapêutica, entre outros, de forma clara e acessível. Ela também compartilha técnicas e ferramentas que usa com seus pacientes, como a escuta ativa, a reformulação, a interpretação, a confrontação, a validação, a intervenção, entre outras. Ela ainda oferece dicas e conselhos para quem quer se beneficiar da terapia, como escolher um bom terapeuta, estabelecer objetivos, ser honesto, estar aberto, se comprometer, etc.

A minha crítica sobre o livro é positiva, pois considero que ele é uma obra valiosa, que contribui para a divulgação e a valorização da terapia e da psicologia. O livro é bem escrito, envolvente, emocionante e inspirador. A autora consegue equilibrar o humor e a seriedade, a leveza e a profundidade, a informação e a emoção. O livro também é um convite à reflexão, à autoconhecimento e à mudança, que pode beneficiar qualquer leitor, independente de sua situação ou de seu problema. O livro é, enfim, um testemunho de que talvez todos nós devamos conversar com alguém.

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