[RESENHAS #821] Quadras ao gosto popular, de Fernando Pessoa


Fernando Pessoa (1888-1935) nasceu em Lisboa. Nome-chave da lírica moderna, inventou vários heterônimos – personagens com vidas, personalidades e estilo de escrita próprios. Os principais são Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, e sob estes nomes Pessoa escreveu grande parte de sua obra poética. Em vida, publicou no formato de livro somente Mensagem, poema épico sobre Portugal. Quadras ao gosto popular reúne composições em que o poeta – autor de alguns dos mais belos versos da língua portuguesa – trata de coisas simples da vida. Também nesses versos ele dá vazão ao seu lado romântico.

RESENHA

Quadras ao gosto popular é uma obra póstuma do poeta português Fernando Pessoa, publicada pela primeira vez em 1965. Trata-se de uma coletânea de 325 quadras, ou seja, poemas de quatro versos, escritos em linguagem simples e popular, que abordam temas como o amor, a morte, a saudade, a religião, a política e a vida cotidiana. O autor utiliza recursos como a rima, a ironia, o humor e a sabedoria popular para expressar seus sentimentos e pensamentos.

Fernando Pessoa é considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa e figura central do modernismo português. Nasceu em Lisboa, em 1888, e viveu parte da sua infância e adolescência na África do Sul, onde recebeu uma educação inglesa. De volta a Portugal, em 1905, dedicou-se à literatura e à tradução, além de trabalhar como publicitário e editor. Pessoa ficou famoso por criar vários heterônimos, ou seja, personalidades poéticas distintas, cada uma com seu estilo, biografia e visão de mundo. Entre os mais conhecidos estão Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares.

Quadras ao gosto popular é uma obra que revela a faceta mais simples e humana de Fernando Pessoa, que se aproxima do povo e da tradição oral portuguesa. As quadras foram escritas entre 1929 e 1935, os últimos anos de vida do poeta, que morreu de cirrose hepática, em 1937. Nesse período, Pessoa enfrentou problemas financeiros, familiares e afetivos, além de uma crise existencial e criativa. As quadras refletem essas angústias, mas também mostram a esperança, a fé e o humor do autor.

A obra não tem personagens, mas sim vozes poéticas que se alternam, ora falando em primeira pessoa, ora em segunda ou terceira pessoa. Algumas quadras parecem dirigir-se a um interlocutor específico, como um amigo, um amor ou um inimigo. Outras quadras parecem expressar a voz coletiva do povo, como se fossem provérbios ou conselhos. Há também quadras que parecem dialogar com o próprio poeta ou com seus heterônimos, criando um efeito de metalinguagem.


Algumas citações marcantes da obra são:

- "O amor, quando se revela, / Não se sabe revelar. / Sabe bem olhar pra ela, / Mas não lhe sabe falar." (Quadra 1)

- "Quem quer dizer o que sente / Não sabe o que há de dizer. / Fala: parece que mente... / Cala: parece esquecer..." (Quadra 4)

- "Não sei se é amor que tens, / Ou amor que finges ter. / Sei que me não amas bem; / Sei que te não quero querer." (Quadra 12)

- "Se queres ser feliz / Manda embora a razão. / A razão é que faz isto: / Querer o que não se tem." (Quadra 28)

- "Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena. / Quem quer passar além do Bojador / Tem que passar além da dor." (Quadra 55)

- "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. / Deus quis que a terra fosse toda uma, / Que o mar unisse, já não separasse. / Sagrou-te, e foste desvendando a espuma." (Quadra 68)

- "Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo." (Quadra 74)

- "O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente." (Quadra 75)

A obra tem uma forte simbologia, que remete à cultura e à história de Portugal. Por exemplo, o Bojador, mencionado na quadra 55, é um cabo situado na costa africana, que foi ultrapassado pelos navegadores portugueses no século XV, abrindo caminho para as grandes descobertas marítimas. O poeta usa essa imagem para falar da superação dos limites e dos desafios da vida. Outro símbolo recorrente é o do Quinto Império, uma ideia de um império espiritual e universal, baseada na obra do padre Antônio Vieira, que Pessoa retoma em algumas quadras, como a 68 e a 69.

A importância e a relevância cultural de Quadras ao gosto popular são inegáveis, pois se trata de uma obra que mostra a diversidade e a riqueza da poesia de Fernando Pessoa, um dos maiores nomes da literatura mundial. A obra também é um testemunho da sensibilidade e da inteligência do poeta, que soube captar e expressar os sentimentos e os pensamentos de sua época e de seu povo, mas também de sua alma e de sua arte. A obra é um convite à reflexão, à emoção e à admiração, que merece ser lida e relida por todos os amantes da poesia.

A crítica positiva que se pode fazer da obra é que ela é uma obra-prima, que combina forma e conteúdo de maneira harmoniosa e surpreendente. As quadras, apesar de simples e populares, são profundas e originais, revelando a genialidade e a criatividade de Fernando Pessoa. A obra também é uma obra universal, que transcende as fronteiras do tempo e do espaço, e que fala ao coração e à mente de qualquer leitor. A obra é, enfim, uma obra indispensável, que enriquece e ilumina a cultura e a literatura portuguesas e mundiais.

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