[RESENHAS #807] O recado do morro, de Guimarães Rosa



O recado do morro é um livro de João Guimarães Rosa, um dos maiores escritores brasileiros do século XX. O livro faz parte do volume Corpo de Baile, publicado em 1956, e é composto por um conto longo que narra uma viagem pelo sertão de Minas Gerais, envolvendo mitos, lendas, histórias e personagens típicos da região.

O estilo de Guimarães Rosa é marcado pela inovação linguística, pela criação de neologismos, pela oralidade, pelo regionalismo e pela musicalidade. O autor explora as diversas possibilidades da língua portuguesa, misturando arcaísmos, estrangeirismos, gírias, provérbios e termos populares. Além disso, ele utiliza recursos como a aliteração, a assonância, a rima e o ritmo para dar um efeito poético ao seu texto.

Os principais personagens do livro são Pedro Orósio, um guia sertanejo que conduz uma comitiva de viajantes pelo interior de Minas; Gorgulho, seu irmão e rival, que planeja matá-lo por vingança; Catraz, outro irmão de Pedro, que tenta avisá-lo do perigo; Joãozezim, um menino que ouve o recado do morro e o repassa para Guégue, um velho contador de histórias; Nômini Dômini, um louco profeta que prega o fim do mundo; o Coletor, um funcionário público que escreve números misteriosos na parede da igreja; e Laudelim, um cantador que interpreta o recado do morro em forma de música.

O livro ensina sobre a cultura, a história, a geografia e a religiosidade do sertão mineiro, mostrando a diversidade e a riqueza dessa região. O livro também reflete sobre a formação do Brasil, a relação entre o saber e o não-saber, a comunicação e a interpretação, a tradição e a modernidade, a ordem e a desordem, a vida e a morte.

Algumas citações da obra que ilustram o estilo e o conteúdo do autor são:

- "Morro alto, morro grande, me conta o teu padecer. / Pra baixo de mim, não olho; p’ra cima, não posso ver..." (Contracanção. Peça pseudofolclórica.)

- "Desde ali, o ocre da estrada, como de costume, é um S, que começa grande frase."

- "No sertão, vigora a regra, e não a lei - a regra da aliança e da vingança."

- "A estória é um recado. O recado é um boato. O boato é um aviso. O aviso é uma profecia. A profecia é uma canção. A canção é uma morte."

- "O sertão é do tamanho do mundo."

O período histórico em que se passa a obra é o início do século XX, quando o Brasil ainda era uma república recém-proclamada, marcada por conflitos políticos, sociais e econômicos. O sertão, nesse contexto, era uma região marginalizada, isolada e esquecida pelo poder central, mas que guardava uma identidade própria, baseada na resistência, na criatividade e na fé.

A simbologia do livro é complexa e variada, envolvendo elementos da natureza, da religião, da matemática, da música e da literatura. O morro, por exemplo, é um símbolo da imponência, da permanência e da sabedoria do sertão, que observa e comunica os acontecimentos aos seus habitantes. O recado do morro, por sua vez, é um símbolo da ambiguidade, da multiplicidade e da transformação da linguagem, que pode ser entendida de diferentes formas por diferentes pessoas. O número sete, que aparece várias vezes na obra, é um símbolo da perfeição, da completude e da harmonia, mas também da incompletude, da imperfeição e da desarmonia, dependendo do ponto de vista.

A importância e a relevância cultural do livro são inegáveis, pois se trata de uma obra que valoriza e divulga a cultura sertaneja, que é uma das raízes da cultura brasileira. O livro também é um exemplo de como a literatura pode ser uma forma de conhecimento, de expressão e de arte, que dialoga com outras áreas do saber e com outras manifestações culturais.

A biografia do autor é breve, mas intensa. João Guimarães Rosa nasceu em 1908, em Cordisburgo, Minas Gerais. Formou-se em medicina, mas nunca exerceu a profissão. Foi diplomata, viajando por vários países da Europa e da América. Estreou na literatura em 1936, com o livro de contos Sagarana. Em 1956, publicou Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas, suas obras mais importantes. Em 1963, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, mas morreu antes de tomar posse, em 1967, no Rio de Janeiro.

A crítica positiva acerca da obra é unânime, considerando-a uma das mais originais, criativas e significativas da literatura brasileira e mundial. O recado do morro é uma obra que desafia, encanta e surpreende o leitor, que se vê envolvido por uma trama complexa, por uma linguagem inventiva e por uma visão singular do sertão e do Brasil. O livro é uma obra-prima de Guimarães Rosa, um autor que soube captar e transmitir a essência e a diversidade da cultura e da língua portuguesa.

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