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[RESENHA#739] Bahia de todos os santos, de Jorge Amado

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“Esse é bem um estranho guia”, diz Jorge Amado no “Convite” que abre Bahia de Todos-os-Santos. “Com ele não verás apenas a casca amarela e linda da laranja. Verás igualmente os gomos podres que repugnam ao paladar.” Essas palavras resumem o espírito deste livro sui generis sobre a cidade de Salvador. Escrito originalmente em 1944, no auge da luta antifascista, manteve em suas sucessivas atualizações a abordagem visceral que o transformou numa obra ao mesmo tempo de celebração dos esplendores da cidade e de denúncia de suas muitas mazelas. A versão definitiva só ficou pronta em 1986. Quem melhor do que Jorge Amado, que cantou em tantos livros a “cidade da Bahia”, povoando suas ruas com personagens inesquecíveis, para fazer esse retrato de corpo inteiro da capital baiana? Pelas páginas deste livro desfilam as belezas arquitetônicas da metrópole - suas igrejas, átrios e palácios, suas ladeiras e ancoradouros -, bem como seus encantos naturais - praias, matas, morros, lagoas -, mas também o lado miserável da cidade, seus cortiços malcheirosos, a falta de saneamento e infraestrutura, o desamparo e a doença. Aqui e ali, fotografias de Flávio Damm utilizadas na edição de 1961 pontuam o que vai sendo descrito. Não se trata de um guia preocupado apenas com a descrição do pitoresco, mas de uma narrativa múltipla sobre o cotidiano da cidade e suas transformações ao longo das décadas. Do dia a dia do trabalhador braçal às receitas de quitutes baianos, da arte dos mestres da capoeira ao misticismo dos terreiros de candomblé, dos pequenos crimes dos “capitães da areia” à dura poesia dos pescadores e mestres de saveiros, da universidade às festas religiosas e pagãs, a vida de Salvador pulsa a cada parágrafo. Moradores da cidade, ilustres ou anônimos, são evocados aqui com a mesma vitalidade e frescor dos personagens dos romances do autor, convertido em cicerone que abre as portas de sua grande casa aos leitores do mundo.

RESENHA


Bahia de Todos-os-Santos: Guia de Ruas e Mistérios é um livro singular na obra de Jorge Amado, publicado pela primeira vez em 1944 e revisado pelo autor em várias edições posteriores. Trata-se de um guia turístico, histórico e cultural da cidade de Salvador, mas também de um retrato crítico e afetivo de sua gente, seus costumes, suas lutas e suas contradições.

O livro é dividido em quatro partes: "A Cidade", "O Povo", "A Festa" e "O Mar". Em cada uma delas, Jorge Amado descreve com riqueza de detalhes os principais pontos turísticos, monumentos, igrejas, museus, bairros, ruas, praças, mercados, portos, ilhas e praias da capital baiana, bem como as personalidades, os tipos populares, as lendas, as tradições, as religiões, as manifestações artísticas, as comidas, as bebidas, as músicas e as danças que compõem a identidade cultural da Bahia. O autor também não deixa de abordar os problemas sociais, políticos e econômicos que afligem a cidade, como a pobreza, a exploração, a violência, a corrupção, a discriminação e a opressão.

O livro é escrito em um tom coloquial, humorístico e irreverente, que reflete a personalidade do autor e a linguagem do povo baiano. Jorge Amado mistura informações objetivas com impressões subjetivas, relatos históricos com crônicas cotidianas, dados estatísticos com anedotas pitorescas, elogios entusiasmados com críticas contundentes. O autor também se vale de citações de outros escritores, poetas, historiadores, jornalistas e artistas que retrataram ou homenagearam a Bahia em suas obras, como Castro Alves, Gregório de Matos, Manuel Querino, Ruy Barbosa, Dorival Caymmi, Carybé, Pierre Verger, entre outros.

Bahia de Todos-os-Santos é um livro que revela a paixão de Jorge Amado pela sua terra natal, mas também o seu compromisso com a verdade e a justiça social. É um livro que convida o leitor a conhecer e a se encantar com a cidade de Salvador, mas também a refletir sobre os seus desafios e as suas possibilidades. É um livro que celebra a diversidade e a riqueza da cultura baiana, mas também denuncia as desigualdades e as injustiças que a afligem. É um livro que, em suma, expressa o amor do escritor pela Bahia de todos os santos, de todos os pecados, de todos os encantos e de todos os mistérios. 

O livro se diferencia de outros títulos do autor, que se dedicaram principalmente ao romance ficcional, com personagens e enredos que retratavam aspectos da realidade brasileira, especialmente da região do cacau, do Recôncavo Baiano e do Pelourinho. No entanto, o livro também se aproxima de outras obras de Jorge Amado, que exploraram o gênero da biografia, da crônica, da fábula, do conto e da poesia, demonstrando a versatilidade e a criatividade do escritor. Além disso, o livro mantém algumas características comuns à obra de Jorge Amado, como o regionalismo, o realismo, o humor, a crítica social, a valorização da cultura popular e a defesa dos oprimidos.

A crítica positiva que se pode fazer ao livro é que ele é uma obra-prima da literatura brasileira, que consegue aliar informação e emoção, arte e política, erudição e simplicidade, tradição e modernidade, em um texto envolvente, divertido e esclarecedor. É um livro que não só apresenta a cidade de Salvador ao leitor, mas também a interpreta, a questiona, a critica e a exalta, em uma perspectiva ao mesmo tempo pessoal e coletiva, histórica e atual, poética e realista. É um livro que, enfim, é um verdadeiro guia de ruas e mistérios da Bahia de Todos-os-Santos.

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Bahia de todos os santos
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A morte e a morte de Quincas Berro Dágua

O AUTOR
Jorge Amado (1912-2001) foi um escritor brasileiro, um dos maiores representantes da ficção regionalista que marcou o Segundo Tempo Modernista. Sua obra é baseada na exposição e análise realista dos cenários rurais e urbanos da Bahia. Traduzido para mais de trinta idiomas e detentor de inúmeros e importantes prêmios, o escritor teve vários de seus trabalhos adaptados para a televisão e o cinema, entre eles, "Dona Flor e Seus Dois Maridos" e "Gabriela Cravo e Canela".

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