[RESENHA #824] Passageiro para Frankfurt, de Agatha Christie


No aeroporto de Frankfurt, a viagem de Sir Stafford Nye sofre uma reviravolta. Enquanto aguarda seu voo, uma mulher o aborda dizendo estar em perigo mortal. Em um arroubo de cavalheirismo, o diplomata inglês lhe entrega o passaporte e a passagem, ajudando a jovem a escapar. De volta à Inglaterra, Nye reencontra a moça em circunstâncias misteriosas e acaba descobrindo uma conspiração internacional de grandes proporções. Existe um plano em ação para recolocar os nazistas no poder, e apenas um seleto grupo de agentes pode impedir que isso aconteça.

RESENHA

Passageiro para Frankfurt é um romance policial de Agatha Christie, publicado em 1970, que marca o aniversário de 80 anos da autora. A obra é considerada uma das mais ousadas e controversas da escritora, pois aborda temas como nazismo, conspiração internacional e drogas alucinógenas.

O livro narra a aventura de Sir Stafford Nye, um diplomata inglês que, em uma escala no aeroporto de Frankfurt, é abordado por uma mulher misteriosa que lhe pede para trocar de identidade com ela, alegando estar em perigo de morte. Movido pela curiosidade e pelo tédio, Sir Stafford aceita a proposta e se envolve em uma trama complexa e perigosa, que envolve uma organização secreta que planeja restaurar o poder nazista na Europa.

A mulher misteriosa se revela como Mary Ann, uma agente dupla que trabalha para o governo britânico e para a organização nazista. Ela é a neta de um líder nazista chamado Conde von Schirach, que está escondido na América do Sul e pretende lançar uma revolução mundial com a ajuda de jovens fanáticos e drogados. Mary Ann recruta Sir Stafford para ajudá-la a impedir os planos de seu avô, mas também tem seus próprios interesses e segredos.

O livro é narrado em terceira pessoa, com um estilo ágil e envolvente, típico de Agatha Christie. A autora cria um clima de suspense e mistério, que prende a atenção do leitor até o final. Os personagens são bem construídos e apresentam diversas facetas e motivações. O protagonista, Sir Stafford, é um homem inteligente, irônico e desiludido com sua carreira e sua vida pessoal. Ele se vê diante de uma oportunidade de mudar seu destino e de participar de uma aventura que pode mudar o rumo da história. Mary Ann é uma mulher sedutora, ambiciosa e manipuladora, que usa sua beleza e seu charme para conseguir o que quer. Ela tem uma relação conflituosa com seu avô, que a considera sua herdeira e sua protegida, mas também a teme e a despreza.

O livro também conta com a participação de outros personagens importantes, como o Conde von Schirach, o líder nazista que sonha em reviver o Terceiro Reich; o Coronel Pikeaway, o chefe do serviço secreto britânico, que tenta desvendar a conspiração nazista; e o Dr. Karl, o cientista que desenvolve a droga que altera a personalidade dos jovens seguidores do Conde.

O livro traz alguns ensinamentos e reflexões sobre temas como o poder, a violência, a ideologia, a juventude, a identidade e a loucura. A autora mostra como o nazismo não foi extinto após a Segunda Guerra Mundial, mas se infiltrou em diversos setores da sociedade e se adaptou aos novos tempos. Ela também critica a alienação e a manipulação dos jovens, que são usados como massa de manobra pelos líderes inescrupulosos. Além disso, ela explora a questão da identidade, mostrando como os personagens mudam de nome, de aparência e de personalidade ao longo da história, e como isso afeta suas relações e suas escolhas.

O livro é ambientado em diversos cenários, como a Inglaterra, a Alemanha, a França, a Suíça, a Itália e a América do Sul. A autora descreve com detalhes os lugares por onde os personagens passam, criando uma atmosfera realista e verossímil. O livro também se insere no contexto histórico da Guerra Fria, da corrida espacial, da contracultura e dos movimentos sociais dos anos 1960 e 1970.

O livro contém algumas citações marcantes, que revelam o pensamento e o humor dos personagens. Por exemplo:

"A vida é uma coisa muito estranha. Às vezes, ela nos dá exatamente o que queremos. E, então, descobrimos que não queremos aquilo de jeito nenhum." (Sir Stafford Nye, capítulo 1)

"O mundo está cheio de pessoas que pensam que sabem o que é melhor para os outros. E, às vezes, elas estão certas. Mas, na maioria das vezes, estão erradas." (Mary Ann, capítulo 5)

"O poder é uma coisa terrível. Ele corrompe. Ele destrói. Ele mata. Mas, ao mesmo tempo, ele fascina. Ele seduz. Ele encanta." (Conde von Schirach, capítulo 15)

"A juventude é uma força incrível. Ela pode mudar o mundo. Mas também pode ser enganada, explorada, desperdiçada." (Dr. Karl, capítulo 18)

"A identidade é uma coisa muito frágil. Ela pode ser perdida, roubada, trocada, esquecida. Mas também pode ser reencontrada, reconstruída, reinventada." (Coronel Pikeaway, capítulo 21)

O livro não apresenta uma simbologia explícita, mas pode-se interpretar alguns elementos como símbolos de aspectos da história. Por exemplo:

  • O avião, que representa a viagem, a aventura, a fuga e a mudança.
  • O passaporte, que representa a identidade, o disfarce, a mentira e a confiança.
  • A droga, que representa o poder, a violência, a alienação e a loucura.
  • O relógio, que representa o tempo, a urgência, o destino e a morte.

O livro tem uma grande importância e relevância cultural, pois é uma das obras mais originais e polêmicas de Agatha Christie, que se arriscou a sair de sua zona de conforto e a abordar temas delicados e atuais. O livro também é um retrato de uma época de transformações e conflitos, que influenciaram a sociedade e a cultura de forma profunda e duradoura.

A autora, Agatha Christie, foi uma das maiores escritoras de todos os tempos, que se consagrou como a "Rainha do Crime", por seus romances policiais de sucesso. Ela nasceu em 1890, na Inglaterra, e começou a escrever em 1917, por um desafio de sua irmã. Ela criou personagens famosos, como Hercule Poirot e Miss Marple, que se tornaram ícones da literatura. Ela também escreveu peças de teatro, contos e poemas. Ela foi casada duas vezes e viajou pelo mundo com seu segundo marido, o arqueólogo Max Mallowan. Ela morreu em 1976, aos 85 anos, deixando um legado de mais de 80 livros publicados.

Em conclusão, Passageiro para Frankfurt é um livro que vale a pena ser lido, pois é uma obra que mistura suspense, ação, romance e política, com uma trama bem elaborada e personagens interessantes. É um livro que mostra a genialidade e a versatilidade de Agatha Christie, que soube se reinventar e se adaptar aos novos tempos, sem perder sua essência e sua qualidade. É um livro que nos faz pensar e nos emocionar, que nos surpreende e nos diverte, que nos transporta para um mundo de mistério e de aventura. É um livro que é um clássico da literatura policial, que merece ser lido e relido por todos os fãs do gênero.

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