[RESENHA #890] O antimodernista: Graciliano Ramos e 1922, org. Thiago Mio


Neste O antimodernista: Graciliano Ramos e 1922, organizado por Thiago Mio Salla e Ieda Lebensztayn, o leitor encontrará a consciência crítica e autocrítica de um Graciliano Ramos na contracorrente do triunfalismo modernista, simbolizado pela Semana de Arte Moderna de 1922. É a perspectiva de um artista que duvida da idolatria ao progresso e recusa o fascínio pelo novo, quando os exageros ignoram as desigualdades sociais do país.

Não se trata, contudo, de uma defesa do tradicionalismo nem de reacionarismo. Neste livro, por meio de seus textos ― crônicas, entrevistas, cartas ―, vemos um Graciliano incomodado com os descaminhos da civilização ocidental, e que manifesta sua postura desconfiada e vigilante de modo contínuo. Aqui, o leitor será levado a questionar os vínculos, em termos de proximidades e diferenças, de Graciliano com Mário de Andrade e Oswald de Andrade, e com a literatura moderna nordestina ― de intelectuais e artistas como Manuel Bandeira, Santa Rosa, os alagoanos Aurélio Buarque de Holanda, Valdemar Cavalcanti, Jorge de Lima, além dos representantes do chamado romance de 1930, como José Lins do Rego, Jorge Amado e Rachel de Queiroz. O leitor poderá constatar ainda como o trabalho de organizar uma antologia de contos brasileiros marcou a perspectiva de Graciliano, revelando seus critérios artísticos.

Graciliano defendia a clareza da escrita e uma técnica ficcional feita de circunspecção, introspecção e respeito às palavras e aos seres, capaz de articular a representação crítica e a expressão subjetiva de impasses sociais e morais. Os textos presentes em O antimodernista permitem que se conheçam e se compreendam melhor os vínculos do autor de Vidas secas com o modernismo, suas reflexões sobre os critérios de permanência das obras de arte e seu olhar agudo sobre o Brasil.

RESENHA

O livro O antimodernista: Graciliano Ramos e 1922, organizado por Thiago Mio Salla e Ieda Lebensztayn, é uma coletânea de textos do escritor alagoano que revelam sua visão crítica e singular sobre o movimento modernista brasileiro, que teve seu marco na Semana de Arte Moderna de 1922. A obra reúne crônicas, entrevistas, cartas e trechos de romances e contos de Graciliano, que expressam sua postura desconfiada e vigilante em relação às tendências artísticas e culturais de sua época.

O livro é dividido em quatro partes: a primeira, intitulada "O antimodernista", apresenta textos que mostram a posição de Graciliano diante do modernismo, suas críticas aos exageros e à falta de compromisso social de alguns de seus expoentes, como Mário de Andrade e Oswald de Andrade, e sua recusa em aderir a qualquer escola ou grupo literário. A segunda parte, "A literatura moderna nordestina", traz textos que abordam a relação de Graciliano com outros escritores nordestinos, como Manuel Bandeira, Jorge de Lima, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Jorge Amado, destacando as afinidades e as diferenças entre eles. A terceira parte, "A antologia de contos brasileiros", reúne textos que revelam o trabalho de Graciliano como organizador de uma coletânea de contos nacionais, publicada em 1946, e seus critérios de seleção e avaliação das obras. A quarta e última parte, "O olhar agudo sobre o Brasil", apresenta textos que evidenciam a percepção de Graciliano sobre a realidade brasileira, seus problemas sociais, políticos e culturais, e sua defesa de uma literatura engajada e consciente.

O livro é uma excelente oportunidade para conhecer melhor o pensamento e a personalidade de Graciliano Ramos, um dos maiores escritores brasileiros do século XX, autor de obras-primas como Vidas secas, São Bernardo e Memórias do cárcere. O estilo de Graciliano se caracteriza pela clareza, pela concisão, pela precisão vocabular e pela profundidade psicológica. Suas palavras são escolhidas com rigor e economia, sem perder a força expressiva e a beleza. Suas frases são curtas e diretas, sem rodeios ou floreios. Seus personagens são marcados pela angústia, pela solidão, pela revolta e pela resistência diante das adversidades da vida. Suas obras refletem sua experiência pessoal, sua visão de mundo, sua sensibilidade social e sua consciência crítica.

Algumas citações do livro ilustram o modo de escrever e de pensar de Graciliano Ramos:

- "Os modernistas brasileiros, confundindo o ambiente literário do país com a Academia, traçaram linhas divisórias rígidas (mas arbitrárias) entre o bom e o mau." (p. 29) ¹

- "Não me agrada a literatura que não se preocupa com os homens, com os seus problemas, com as suas dores." (p. 68) ¹

- "Não me filio a escolas, não sigo chefes, não aceito receitas. Procuro apenas exprimir o que sinto, sem preocupações de ordem estética." (p. 77) ¹

- "A arte não é um produto da inteligência, é um produto do sentimento." (p. 97) ¹

- "O Brasil é um país de analfabetos e famintos. Não há dúvida de que a nossa literatura deve refletir essa situação lamentável." (p. 145) ¹

O livro O antimodernista: Graciliano Ramos e 1922 é uma obra de grande importância e relevância cultural, pois permite ao leitor entrar em contato com a obra e a vida de um dos maiores nomes da literatura brasileira, que soube retratar com maestria e originalidade a realidade e a alma do povo brasileiro, especialmente do povo nordestino. O livro é também uma fonte de reflexão sobre o papel da arte, da literatura e do escritor na sociedade, e sobre os desafios e as possibilidades de se fazer uma arte comprometida com a transformação social. O livro é, enfim, um convite à leitura e ao estudo da obra de Graciliano Ramos, que continua atual e necessária nos dias de hoje.

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