[RESENHA #891] Pequena história da república, de Graciliano Ramos

Esta Pequena história da República foi pensada originalmente para o concurso promovido pela revista Diretrizes, em 1939, cujo objetivo era a premiação de um texto que contasse, para crianças, a história de nossa República, em comemoração aos 50 anos de sua proclamação. O texto, que não chegou a ser inscrito no concurso, viria a ser publicado em Alexandre e outros heróis.

Com a publicação de Vidas secas, Graciliano Ramos havia encerrado um ciclo. A pesquisa que viera desenvolvendo tinha atingido um patamar difícil de ser superado. Vidas secas criaria, para o escritor, uma situação de impasse. Avançar além daquele ponto lhe parecia empreitada quase impossível. Talvez valesse tentar uma mudança de rota, recomeçar do zero, pondo de lado o que fizera até ali. Optando por um campo de experimentações que lhe permitiria talvez maior descontração, decidiu realizar experiências de literatura para jovens.

Abordando a queda do Império e a evolução da chamada República Velha, Pequena história da República é uma espécie de crônica histórica. O tom irreverente, acentuado na primeira parte, é muito semelhante ao do famoso relatório do prefeito de Palmeira dos Índios, dirigido ao governador do estado, que iria possibilitar a descoberta, pelo editor Augusto Frederico Schmidt, do escritor Graciliano Ramos.

RESENHA

Pequena história da república é um livro que narra, de forma crítica e irônica, os principais acontecimentos políticos do Brasil desde a queda do Império até a ascensão de Getúlio Vargas. Escrito por Graciliano Ramos, um dos maiores nomes da literatura brasileira, o livro foi originalmente concebido para um concurso de textos infantis, mas acabou sendo publicado em 1944, no volume Alexandre e outros heróis.

O estilo de Graciliano Ramos é marcado pela concisão, pela precisão e pela ironia. O autor não se limita a contar os fatos históricos, mas os analisa com um olhar crítico e questionador, revelando as contradições, as injustiças e as disputas de poder que marcaram a história da República. O livro não tem personagens fictícios, mas apresenta figuras históricas como Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves, Afonso Pena, Nilo Peçanha, Hermes da Fonseca, Wenceslau Brás, Delfim Moreira, Epitácio Pessoa, Artur Bernardes, Washington Luís e Getúlio Vargas. Além disso, o autor também menciona outros personagens importantes, como os abolicionistas, os republicanos, os positivistas, os militares, os cafeicultores, os coronéis, os tenentes, os operários, os estudantes, os comunistas e os integralistas.

O livro é uma fonte de ensinamentos sobre a história do Brasil, pois mostra como a República foi construída e consolidada, quais foram os seus principais desafios, conflitos e transformações, e como a sociedade brasileira se organizou e se manifestou ao longo desse período. Além disso, o livro também é uma obra de arte, pois utiliza a linguagem literária para expressar a visão de mundo do autor, que é crítica, realista e engajada. Algumas citações do livro que ilustram esse aspecto são:

- "A República nasceu de um golpe militar, e os militares, que não entendiam de política, entregaram o governo aos políticos, que não entendiam de administração." (p. 19)

- "O povo, que não tinha sido consultado sobre a mudança de regime, continuou na mesma situação de antes: trabalhando, pagando impostos e obedecendo às autoridades." (p. 20)

- "A política do café com leite consistia nisto: São Paulo elegia o presidente da República e Minas Gerais o vice-presidente. Ou vice-versa. Os outros estados não tinham voto na matéria." (p. 37)

- "A Revolução de 1930 foi um movimento armado que derrubou o presidente Washington Luís e impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes. Foi uma revolução porque mudou muita coisa. Ou porque não mudou nada, conforme o ponto de vista de cada um." (p. 58)

O livro também utiliza alguns recursos simbólicos, como a metáfora, a comparação, a personificação e a antítese, para criar efeitos de sentido e de humor. Por exemplo, o autor compara a República a uma criança que nasceu fraca e doente, mas que foi crescendo e se fortalecendo aos poucos, apesar das dificuldades. Ele também personifica a História, dizendo que ela é uma senhora muito séria e muito ocupada, que não tem tempo para contar as suas histórias com detalhes e que às vezes se engana ou se esquece de alguma coisa. Ele ainda usa a antítese para contrastar a situação dos ricos e dos pobres, dos poderosos e dos oprimidos, dos vencedores e dos vencidos, dos heróis e dos vilões.

A importância e a relevância cultural do livro são inegáveis, pois se trata de uma obra que contribui para a formação histórica e literária dos leitores, além de estimular o pensamento crítico e a consciência cidadã. O livro também é um testemunho da trajetória e da personalidade de Graciliano Ramos, que foi um escritor, jornalista, político e preso político, que viveu e sofreu as consequências dos acontecimentos que narra. Sua biografia é tão interessante quanto a sua obra, e pode ser conhecida em livros como Infância, Memórias do cárcere e Cartas.

Para finalizar, pode-se dizer que Pequena história da república é um livro que vale a pena ser lido, pois é uma obra que alia informação e diversão, que ensina e encanta, que provoca e diverte. É um livro que mostra que a história não é algo morto e distante, mas algo vivo e próximo, que nos afeta e nos desafia. É um livro que nos faz conhecer melhor o nosso país, o nosso povo e a nós mesmos.

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