[RESENHA #887] Cangaço, de Graciliano Ramos

A antologia é uma reunião de textos do escritor alagoano – alguns inéditos – sobre o banditismo sertanejo, que foram publicados entre os anos de 1931 e 1941, em veículos de seu estado natal e do Rio de Janeiro, então capital do país. Ao todo, são 14 artigos de imprensa e dois capítulos do romance Vidas secas.

RESENHA


Pequena cangaço é uma coletânea de textos de Graciliano Ramos sobre o fenômeno do banditismo sertanejo, que marcou a história do Nordeste brasileiro nas primeiras décadas do século XX. A obra reúne crônicas, artigos, entrevistas e relatos do autor, escritos entre 1931 e 1941, que mostram a sua visão crítica e literária sobre o cangaço e seus principais personagens, como Lampião, Maria Bonita, Corisco e Antônio Silvino.

O estilo de Graciliano Ramos é marcado pela concisão, pela precisão e pela ironia. O autor não romantiza nem glorifica os cangaceiros, mas também não os demoniza nem os vitimiza. Ele busca compreender as causas e as consequências do cangaço, analisando o contexto social, político e econômico em que ele se desenvolveu. Graciliano Ramos retrata o cangaço como uma forma de resistência e de protesto dos sertanejos contra a opressão e a exploração dos coronéis, dos governantes e dos latifundiários, mas também como uma expressão de violência e de crueldade, que gerou sofrimento e morte para muitos inocentes.

Um dos ensinamentos da obra é que o cangaço não pode ser reduzido a uma dicotomia simplista entre bandidos e mocinhos, entre heróis e vilões, entre civilização e barbárie. O cangaço é um fenômeno complexo e contraditório, que revela as contradições e os conflitos da sociedade brasileira, especialmente do Nordeste. O cangaço é, ao mesmo tempo, um reflexo e uma crítica da realidade sertaneja, marcada pela desigualdade, pela corrupção e pela injustiça.

Algumas citações da obra que ilustram o estilo e o pensamento de Graciliano Ramos são:

- "O cangaço é um produto do meio. Não se pode explicá-lo sem o estudo das condições em que vivem os sertanejos, sem o conhecimento da sua psicologia, das suas necessidades, dos seus anseios."
- "Lampião era um homem extraordinário. Não se pode negar isso. Mas era um homem extraordinariamente mau. Não se pode negar isso também."
- "O cangaceiro não é um bandido comum. É um bandido político. E é um bandido político porque é um produto da política. A política é que faz o cangaceiro, como faz o coronel, como faz o jagunço, como faz o soldado."
- "O cangaço é uma doença. Uma doença social. E, como toda doença, tem causas e tem remédios. As causas são conhecidas: a miséria, a ignorância, a opressão, a injustiça. Os remédios são difíceis: a educação, a cultura, a democracia, a justiça."

O período histórico em que se situa a obra é o da Primeira República (1889-1930) e do início do Estado Novo (1937-1945), épocas de intensas transformações políticas, econômicas e sociais no Brasil. O cangaço foi um dos movimentos que contestaram a ordem oligárquica e autoritária que dominava o país, especialmente o Nordeste, e que reivindicaram uma maior participação e representação dos setores populares na vida nacional.

Os personagens que aparecem na obra são, em sua maioria, cangaceiros reais, que fizeram parte da história do cangaço, como Lampião, o mais famoso e temido líder do movimento; Maria Bonita, a sua companheira e a primeira mulher a integrar o bando; Corisco, o seu principal aliado e sucessor; Antônio Silvino, o precursor do cangaço moderno; e outros, como Jararaca, Sabino, Zé Baiano, Sinhô Pereira, Virgulino Ferreira, etc. Além dos cangaceiros, a obra também retrata os seus adversários, como os policiais, os volantes, os coronéis, os juízes, os padres, etc., e os seus simpatizantes, como os coiteiros, os sertanejos, os jornalistas, os escritores, etc.

A simbologia da obra está relacionada aos símbolos que identificavam os cangaceiros, como os chapéus de couro, as roupas coloridas, as armas, as medalhas, as fitas, etc. Esses símbolos expressavam a personalidade, a hierarquia, a religiosidade, a vaidade, a bravura, a rebeldia, etc., dos cangaceiros, e também serviam para diferenciá-los dos demais sertanejos e para impressionar os seus inimigos e admiradores.

A importância e a relevância cultural da obra estão no fato de que ela contribui para a compreensão e a valorização de um dos aspectos mais marcantes e controversos da cultura nordestina e brasileira, que é o cangaço. A obra também mostra a genialidade e a versatilidade de Graciliano Ramos, que foi capaz de abordar o tema do cangaço com diferentes gêneros e estilos literários, e de criar uma obra original e instigante, que dialoga com outras obras sobre o mesmo assunto, como as de Euclides da Cunha, José Lins do Rego, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, etc.

A biografia do autor pode ser resumida da seguinte forma: Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 1892, e morreu no Rio de Janeiro, em 1953. Foi escritor, jornalista, professor, político e preso político. É considerado um dos maiores nomes da literatura brasileira, e um dos expoentes do romance regionalista nordestino. Entre as suas obras mais famosas, estão Caetés, São Bernardo, Angústia, Vidas Secas, Memórias do Cárcere, Infância, etc.

Pequena cangaço é uma obra indispensável para quem quer conhecer melhor a história, a cultura e a literatura do Nordeste e do Brasil. É uma obra que revela a sensibilidade, a inteligência e a criatividade de Graciliano Ramos, que soube retratar o cangaço com maestria e originalidade, sem cair em clichês ou preconceitos. É uma obra que nos faz pensar, sentir e admirar o universo fascinante e complexo do cangaço e dos cangaceiros, que são parte integrante da nossa identidade nacional.

Postar um comentário

Comentários