[RESENHA #886] Caetés, de Graciliano Ramos

Romance de um dos maiores nomes da literatura clássica brasileira, Graciliano Ramos.

A história de Caetés se passa em Palmeira dos Índios, cidade em que Graciliano viveu. Neste romance narrado em primeira pessoa, conhecemos a trajetória de João Valério, um jovem guarda-livros introvertido e sonhador que se envolve com a esposa de seu chefe e amigo Adrião Teixeira.

Existe ainda em João, o desejo de se casar com Luísa Teixeira e poder assim, ascender socialmente. Porém, o livro vai muito além do que uma história de amor e seus desdobramentos. O protagonista da obra aspira ser reconhecido como autor, e luta contra o bloqueio criativo que enfrenta em sua tentativa de escrever um romance histórico sobre os índios caetés.

Após um acontecimento inesperado e uma reviravolta no curso da história, o jovem ascende à posição de sócio da empresa em que trabalha. Sentindo-se culpado, mas incapaz de resistir ao poder, como em um ciclo, João Valério segue em seus devaneios românticos.

RESENHA

Caetés é o primeiro romance de Graciliano Ramos, publicado em 1933. O livro narra a história de João Valério, um homem introvertido e sonhador que se apaixona por Luisa, a esposa de seu patrão e amigo Adrião. O caso amoroso é descoberto por uma carta anônima, que leva Adrião ao suicídio. João Valério, consumido pelo remorso, abandona Luisa, mas assume a sociedade da firma comercial que pertencia a Adrião. Luisa, por sua vez, é uma mulher ambiciosa e manipuladora, que tenta enganar João Valério para ficar com a herança do marido.

O livro é narrado em primeira pessoa pelo próprio João Valério, que faz uma análise crítica de seus sentimentos e atitudes. O autor utiliza uma linguagem simples e direta, sem floreios ou sentimentalismos, para retratar a psicologia do personagem e o ambiente social em que ele vive. O cenário é o sertão alagoano, mais especificamente a cidade de Palmeira dos Índios, onde Graciliano Ramos foi prefeito. O autor descreve com realismo e ironia os costumes, as tradições e os conflitos da sociedade sertaneja, marcada pela desigualdade, pela violência e pela hipocrisia.

O título do livro faz uma alusão aos caetés, uma tribo indígena que praticava o canibalismo e que ficou famosa por devorar o bispo Sardinha no século XVII. João Valério é comparado a um caeté, que devora seu amigo Adrião para satisfazer seu desejo e sua ambição. O livro também explora a temática do conflito entre o primitivo e o civilizado, o natural e o artificial, o instinto e a razão. João Valério é um homem dividido entre sua origem humilde e sua ascensão social, entre seu amor por Luisa e sua culpa por Adrião, entre sua fantasia e sua realidade.

O livro é considerado uma obra precursora do que seria o estilo de Graciliano Ramos em seus romances posteriores, como São Bernardo, Angústia e Vidas Secas. O autor demonstra uma grande habilidade em construir personagens complexos e verossímeis, que refletem os dilemas e as contradições do ser humano. O livro também é uma crítica social ao Brasil da época, que passava por profundas transformações políticas, econômicas e culturais.

Algumas citações marcantes do livro são:

- "Eu era um caeté, um selvagem, um canibal. Devorara o meu amigo, o meu protetor." (p. 13) 

- "Não me interessava a vida dos outros, a minha bastava-me. E a minha vida era um sonho." (p. 17) 

- "Eu não tinha coragem de olhar para Luisa. E ela, que me olhava, que me devorava com os olhos, parecia-me uma estranha." (p. 139) 

- "Eu não era feliz, nem infeliz. Era uma coisa neutra, um vegetal." (p. 143) 

Caetés é um livro que merece ser lido por todos os que apreciam a literatura brasileira. É uma obra que revela o talento e a originalidade de Graciliano Ramos, um dos maiores escritores do modernismo. É uma obra que nos faz pensar sobre a natureza humana, sobre a sociedade e sobre nós mesmos. É uma obra que nos emociona, nos surpreende e nos ensina.

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