[RESENHA #885] Infância, de Graciliano Ramos


Literário e autobiográfico, Infância retrata as memórias de Graciliano Ramos dos tempos de menino até a adolescência no interior de Alagoas, ao mesmo tempo que acompanha sua formação como leitor e os primeiros passos como autor. Os textos, relatos independentes elaborados entre 1936 e 1944, não foram escritos na ordem em que se encontram organizados neste volume, o que confere à narrativa um tom folhetinesco típico da narrativa oral. A poética das memórias une a hesitação do narrador ao cuidadoso trabalho de refino do texto, que é característico de Graciliano Ramos, evidenciando porque ele é um dos maiores autores brasileiros de todos os tempos.

RESENHA

Infância, de Graciliano Ramos, é um livro que mistura memória e ficção, narrando as experiências do autor desde sua primeira infância até o início da adolescência. Publicado em 1945, o livro é considerado uma obra autobiográfica, mas também pode ser lido como um romance ou um conjunto de contos. O estilo de Graciliano Ramos é marcado pela precisão, pela concisão e pela objetividade, refletindo a dureza do sertão nordestino onde ele viveu parte de sua vida.

O livro é dividido em 34 capítulos, cada um com um título que resume o tema ou o episódio narrado. O narrador é o próprio Graciliano Ramos, que se apresenta como um adulto que tenta reconstituir sua infância a partir de lembranças fragmentadas e imprecisas. Ele se dirige ao leitor em alguns momentos, explicando suas dificuldades e intenções ao escrever. O livro não segue uma ordem cronológica, mas sim uma ordem temática, alternando entre cenas da vida familiar, da vida escolar, das relações sociais e das descobertas pessoais.

Os principais personagens do livro são os familiares do narrador, especialmente seu pai, sua mãe e seus irmãos. O pai é um homem severo, autoritário e violento, que impõe sua vontade aos filhos e à esposa. A mãe é uma mulher submissa, religiosa e carinhosa, que tenta proteger os filhos dos castigos do marido. Os irmãos são companheiros de brincadeiras, de aventuras e de sofrimentos do narrador, que se destaca por ser o mais velho e o mais inteligente. Outros personagens importantes são os professores, os colegas, os amigos e os inimigos do narrador, que representam as diferentes facetas da sociedade da época.

O livro retrata o Brasil do final do século XIX e do início do século XX, marcado por profundas desigualdades sociais, políticas e econômicas. O narrador vive em diversas cidades do Nordeste, como Viçosa, Palmeira dos Índios, Maceió e Buíque, onde testemunha a miséria, a violência, a corrupção, a ignorância e a opressão que afetam o povo sertanejo. O livro também mostra a influência da cultura europeia, especialmente da literatura francesa, na formação intelectual do narrador, que se interessa pela leitura e pela escrita desde cedo.


O livro é repleto de citações marcantes, que revelam o pensamento, o sentimento e o humor do narrador. Algumas delas são:

- "As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural [...] Onde estava o cinturão? Impossível responder [...] Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça."

- "A leitura era um vício terrível e absorvente, e, bem considerando, não sei se me fazia bem ou mal. Lia desordenadamente tudo o que me caía nas mãos, com avidez, sem método, sem escolha, sem critério, sem gosto. Lia por ler, por matar o tempo, e nem sempre o tempo morria: às vezes eu é que me sentia morrer, de tédio, de fastio, de sono."

- "A minha infância de menino sozinho deu-me duas coisas que parecem negativas, e, foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair as realidades e os sonhos que estavam dentro deles, e aumentaram a área de minha vida."

O livro também possui uma forte simbologia, que pode ser percebida em alguns elementos recorrentes, como o sol, o mar, o sangue, o fogo, o cinturão, o chicote, o livro, a pena, a carta, o retrato, o espelho, o sonho, o medo, a dor, a culpa, a vergonha, a raiva, o ódio, o amor, a ternura, a esperança, a liberdade, a rebeldia, a resistência, a submissão, a humilhação, a dignidade, a honra, a justiça, a injustiça, a verdade, a mentira, a ilusão, a desilusão, a inocência, a malícia, a ignorância, o conhecimento, a sabedoria, a loucura, a lucidez, a vida e a morte.

O livro tem uma grande importância e relevância cultural, pois é um dos clássicos da literatura brasileira, que retrata de forma magistral a infância de um dos maiores escritores do país. O livro também é um documento histórico, que revela aspectos da sociedade, da cultura, da política e da educação do Brasil no início do século XX. Além disso, o livro é uma obra de arte, que encanta pela beleza, pela originalidade, pela emoção e pela reflexão que provoca no leitor.

Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 1892, e morreu no Rio de Janeiro, em 1953. Foi escritor, jornalista, professor, político e preso político. É considerado um dos maiores nomes do modernismo brasileiro e do regionalismo nordestino. Entre suas obras mais famosas estão Vidas Secas, São Bernardo, Angústia, Memórias do Cárcere e, claro, Infância.

Infância, de Graciliano Ramos, é um livro que merece ser lido, relido e apreciado por todos os que amam a literatura e a vida. É um livro que nos faz conhecer melhor o autor, a sua obra, o seu tempo e o seu lugar. É um livro que nos faz conhecer melhor a nós mesmos, a nossa infância, a nossa história e a nossa identidade. É um livro que nos faz sentir, pensar, rir, chorar, aprender e crescer. É um livro que nos faz viver.

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