[RESENHA #884] Cartas, de Graciliano Ramos


Tendo sido viável graças à colaboração de pessoas que conviveram com o escritor, principalmente sua viúva Heloísa Ramos, Cartas reúne as correspondências íntimas de Graciliano Ramos, um dos maiores romancistas da literatura brasileira.

A organização é por ordem cronológica, desde 1910, quando Graciliano morou em Palmeira dos Índios, no agreste de Alagoas, passando por sua ida ao Rio de Janeiro em 1914, para tentar a sorte na imprensa carioca, e seu regresso à cidade da infância devido à morte de três irmãos e um sobrinho, vítimas de uma epidemia de peste bubônica. Acompanhamos ainda seu afastamento e lento retorno à literatura após a morte da primeira esposa, em 1920, decorrente de complicações no parto; e o reencontro do amor ao se apaixonar por Heloísa Medeiros, com quem se casou em 1928. Nesse mesmo período, Graciliano foi eleito e empossado prefeito de Palmeira dos Índios, cargo em que ficou por dois anos. Os bilhetes que enviou da prisão, durante o Estado Novo, em 1936, dão conta do período em que foi detido sob alegação de ser comunista. E as cartas do período seguinte terminam com os relatos de sua viagem à Tchecoslováquia e à União Soviética, em 1952.

Ao acompanhar os relatos íntimos de Graciliano Ramos a amigos e familiares, revelando suas relações com o cotidiano e com as pessoas com quem conviveu mais de perto, temos uma espécie de narrativa autobiográfica e muitas vezes confessional dos acontecimentos cruciais de sua vida. O que faz de Cartas, para além de leitura deliciosa, uma fonte documental direta importantíssima para a compreensão sobre a vida e a obra deste grande escritor.

RESENHA

Cartas é um livro póstumo de Graciliano Ramos, publicado pela primeira vez em 1980, quase 30 anos após a morte do autor. O livro reúne a correspondência íntima de Graciliano com diversas pessoas, desde sua primeira mulher, Maria Augusta, até seus filhos, passando por sua segunda esposa, Heloísa, e por amigos e colegas de trabalho. As cartas revelam aspectos da vida pessoal e profissional do escritor, bem como de sua visão de mundo e de sua participação na política e na cultura brasileira.

O estilo de Graciliano nas cartas é diferente da prosa seca e objetiva que marcou suas obras ficcionais, como Vidas Secas e São Bernardo. Nas cartas, o autor se mostra mais solto, emotivo, irônico e até mesmo romântico, dependendo do destinatário e do assunto. Ele também usa uma linguagem mais coloquial, com gírias, regionalismos e erros gramaticais propositais. As cartas mostram a evolução do estilo de Graciliano ao longo dos anos, desde as primeiras, escritas em 1910, quando ele tinha 18 anos, até as últimas, de 1952, quando ele tinha 60 anos.

As principais personagens das cartas são as pessoas que fizeram parte da vida de Graciliano, como sua família, seus amigos e seus inimigos. Entre elas, destacam-se:

- Maria Augusta, sua primeira mulher, com quem se casou em 1915 e teve quatro filhos. Ela morreu em 1927, vítima de uma tuberculose. Graciliano lhe escreveu cartas de amor, de saudade e de consolo, nas quais expressava sua admiração e seu carinho por ela.

- Heloísa Medeiros, sua segunda mulher, com quem se casou em 1928 e teve dois filhos. Ela era 17 anos mais nova que ele e era sua aluna na escola onde ele lecionava. Graciliano lhe escreveu cartas apaixonadas, nas quais se declarava e lhe pedia perdão por seus defeitos e suas ausências. Ele também lhe escreveu bilhetes da prisão, onde ficou detido entre 1936 e 1937, acusado de participar de uma tentativa de golpe comunista. Nessas cartas, ele relatava as condições precárias e as torturas que sofria, mas também demonstrava esperança e resistência.

- José Lins do Rego, seu amigo e colega de geração literária, com quem trocou cartas entre 1934 e 1952. Eles discutiam sobre literatura, política, cultura e sociedade, com críticas, elogios, conselhos e confidências. Eles também compartilhavam suas angústias, seus problemas de saúde e suas dificuldades financeiras.

- Augusto Frederico Schmidt, seu editor e amigo, com quem manteve uma correspondência intensa entre 1938 e 1952. Eles tratavam de assuntos editoriais, como contratos, tiragens, revisões e lançamentos de livros, mas também de questões pessoais, como família, viagens e opiniões. Eles tinham divergências políticas, pois Schmidt era anticomunista e Graciliano era simpatizante do comunismo, mas isso não afetou sua amizade.

- Nelson Werneck Sodré, seu amigo e camarada de partido, com quem se correspondia entre 1945 e 1952. Eles debatiam sobre a situação política do Brasil e do mundo, especialmente sobre o papel do Partido Comunista Brasileiro (PCB), do qual ambos eram membros. Eles também trocavam impressões sobre livros, filmes, música e arte.

As cartas de Graciliano trazem ensinamentos sobre diversos temas, como literatura, política, ética, educação, amor, amizade, família, trabalho, saúde, viagem, cultura e história. Elas mostram o pensamento crítico, a sensibilidade, a honestidade, a coerência, a coragem e a humanidade do autor, que se revela um homem de seu tempo, mas também de seu lugar. As cartas também revelam as contradições, as dúvidas, as angústias, as frustrações, as ironias e os humores de Graciliano, que se reconhece como um homem comum, mas também como um artista.


Algumas citações das cartas que ilustram o estilo e o conteúdo da obra são:

- "Não sei escrever cartas. Não sei falar. Não sei exprimir o que sinto. Mas sinto muito, sinto demais." (Carta a Maria Augusta, 1915)

- "Você é a minha vida, a minha alma, o meu sangue, o meu ar, o meu sol, a minha luz, o meu tudo. Você é o meu amor, o meu único amor, o meu amor eterno." (Carta a Heloísa, 1928)

- "Estou preso, fui preso há quinze dias, sem culpa formada, sem saber de que me acusam. Não sei quanto tempo ficarei aqui. Talvez muito, talvez pouco. Não sei. Sei que estou preso, que sofro, que tenho fome, que tenho frio, que tenho sede, que tenho sono, que tenho medo." (Bilhete a Heloísa, 1936)

- "Não sou comunista por convicção, mas por necessidade. Não vejo outra solução para os problemas do Brasil e do mundo. Mas não sou fanático, nem sectário, nem dogmático. Sou um homem livre, que pensa por si mesmo e que respeita o pensamento alheio." (Carta a José Lins do Rego, 1945)

- "Não sou escritor profissional, nem quero ser. Escrevo porque gosto, porque sinto necessidade de escrever, porque me dá prazer. Não escrevo para o público, nem para a crítica, nem para o mercado. Escrevo para mim mesmo, para satisfazer a minha consciência, para cumprir o meu dever de artista." (Carta a Augusto Frederico Schmidt, 1947)

- "Não sou um intelectual, sou um escritor. Não me interessa a teoria, mas a prática. Não me interessa a forma, mas o conteúdo. Não me interessa a estética, mas a ética. Não me interessa a beleza, mas a verdade." (Carta a Nelson Werneck Sodré, 1951)

O período histórico em que as cartas foram escritas abrange desde o início do século XX até a metade do século XX, passando por momentos importantes da história do Brasil e do mundo, como a Primeira República, a Revolução de 1930, o Estado Novo, a Segunda Guerra Mundial, o fim da ditadura de Getúlio Vargas, o início da Guerra Fria, o surgimento do populismo, o golpe de 1964, entre outros. As cartas refletem o impacto desses acontecimentos na vida de Graciliano e na sociedade brasileira, bem como a posição crítica e engajada do autor diante deles.

As cartas não têm uma simbologia explícita, mas podem ser interpretadas como um retrato da alma de Graciliano, que se desnuda diante de seus interlocutores, revelando suas emoções, seus pensamentos, seus valores, seus sonhos, seus medos, seus desejos, seus defeitos, suas virtudes, suas contradições, suas angústias, suas esperanças, suas decepções, suas alegrias, suas tristezas, suas ironias, seus humores. As cartas também podem ser vistas como um testemunho da história, que registra os fatos, as ideias, as opiniões, as críticas, as polêmicas, as influências, as tendências, as transformações, as resistências, as lutas.

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