[RESENHA #883] Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos


Testemunho político de alto nível literário, as Memórias do cárcere reafirmam a qualidade excepcional da escrita de um dos maiores escritores brasileiros.

Faltava escrever apenas um capítulo de suas memórias quando Graciliano Ramos faleceu, em 1953. Apesar de inacabado, o livro foi publicado de forma póstuma, originalmente em quatro volumes, com uma ""Explicação final"" de Ricardo Ramos fazendo as vezes de conclusão, e logo tornou-se o maior sucesso do autor ― já renomado, mas pouco lido pelo público em geral.

Graciliano Ramos foi preso em Maceió, em março de 1936, e ficou detido, sem acusação formal, passando por prisões em Recife e no Rio de Janeiro, até ser libertado em janeiro de 1937, um dos mais ilustres prisioneiros vitimados pela repressão do governo Vargas.

"Indivíduos tímidos, preguiçosos, inquietos, de vontade fraca habituam-se ao cárcere. Eu, que não gosto de andar, nunca vejo a paisagem, passo horas fabricando miudezas, embrenhando-me em caraminholas, por que não haveria de acostumar-me também? Não seria mau que achassem nos meus atos algum, involuntário, digno de pena. É desagradável representarmos o papel de vítima. ― Coitado! É degradante. Demais estaria eu certo de não haver cometido falta grave? Efetivamente não tinha lembrança, mas ambicionara com fúria ver a desgraça do capitalismo, pregara-lhe alfinetes, únicas armas disponíveis, via com satisfação os muros pichados, aceitava as opiniões de Jacob. Isso constituiria um libelo mesquinho, que testemunhas falsas ampliariam. Tinha o direito de insurgir-me contra os depoimentos venenosos? De forma nenhuma. Não há nada mais precário que a justiça. E se quisessem transformar em obras os meus pensamentos, descobririam com facilidade matéria para condenação."

RESENHA

Memórias do Cárcere é uma obra autobiográfica de Graciliano Ramos, publicada postumamente em 1953, que narra sua experiência de prisão durante o Estado Novo, entre 1936 e 1937. O autor, que era diretor da Instrução Pública de Alagoas, foi preso sem acusação formal ou julgamento, sob a suspeita de envolvimento com o Partido Comunista, ao qual só se filiaria em 1945. Levado de Maceió para o Rio de Janeiro, passou por diversas prisões, como a Ilha Grande, o Pavilhão dos Primários, a Colônia Correcional e a Casa de Correção, onde conviveu com presos políticos e comuns, testemunhando cenas de violência, miséria e corrupção.

O livro é dividido em quatro partes, cada uma correspondendo a uma etapa de sua trajetória carcerária. A primeira parte, intitulada Viagens, relata o percurso de Graciliano e seus companheiros de cela, desde a prisão em Maceió até a chegada ao Rio de Janeiro, passando por Recife e Salvador. A segunda parte, Pavilhão dos Primários, descreve a rotina no presídio da Ilha Grande, onde o autor conheceu figuras como o escritor Jorge Amado, o militante comunista Harry Berger e o líder anarquista José Oiticica. A terceira parte, Colônia Correcional, narra a transferência de Graciliano para a Colônia Agrícola de Dois Rios, também na Ilha Grande, onde ele trabalhou na roça e na biblioteca, e teve contato com presos de diversas origens e ideologias. A quarta e última parte, Casa de Correção, conta a mudança de Graciliano para a Casa de Detenção do Rio de Janeiro, onde ele ficou até ser libertado, em 1937, após a promulgação da Constituição.

O estilo de Graciliano Ramos é marcado pela linguagem seca, precisa e objetiva, que reflete sua visão crítica e realista da sociedade brasileira. O autor não se preocupa em seguir uma ordem cronológica ou em dar detalhes desnecessários, mas sim em retratar as impressões, os sentimentos e as reflexões que a prisão lhe provocou. O livro não é apenas um relato pessoal, mas também um testemunho histórico e uma denúncia social, que revela as contradições, as injustiças e as violências do regime ditatorial de Getúlio Vargas.

Os principais personagens da obra são o próprio autor, que se apresenta como um narrador em primeira pessoa, e os demais presos políticos e comuns, que formam um mosaico humano e cultural do Brasil da época. Entre eles, destacam-se o escritor Jorge Amado, que se tornou amigo de Graciliano e o incentivou a escrever suas memórias; o militante comunista Harry Berger, que era alemão e sofria com a incompreensão e a hostilidade dos guardas e dos presos; o líder anarquista José Oiticica, que era professor e poeta, e que defendia a liberdade e a educação como formas de transformação social; o médico e escritor Mario Magalhães, que era comunista e que ajudava os presos com seus conhecimentos médicos; o advogado e jornalista Agildo Barata, que era tenente e que participou da Revolução de 1930 e da Revolta Comunista de 1935; o bandido e assassino Grilo, que era temido e respeitado pelos demais presos, e que tinha uma relação ambígua com Graciliano; e o padre Olímpio, que era um preso comum, mas que se fazia passar por religioso, e que tentava extorquir dinheiro dos presos políticos.

A obra traz vários ensinamentos, tanto do ponto de vista histórico quanto do ponto de vista humano. Do ponto de vista histórico, o livro mostra como o Estado Novo reprimiu e perseguiu os opositores políticos, violando os direitos humanos e a democracia. Do ponto de vista humano, o livro mostra como o autor resistiu e se manteve fiel aos seus princípios, mesmo diante das adversidades e das tentações. O livro também mostra como o autor se solidarizou e se identificou com os presos comuns, reconhecendo neles a dignidade e a humanidade que o sistema negava.

Algumas citações da obra que ilustram esses ensinamentos são:

- "Não me perguntaram nada. Evidentemente não me prenderam para averiguações. Prenderam-me para que eu me calasse."

- "Não me sentia revoltado. A revolta pressupõe um sentimento de justiça, e eu perdera até isso."

- "Não me arrependia de nada, não me queixava de ninguém. A culpa era minha, evidentemente. Devia ter-me conformado com a ordem estabelecida, aceitado as coisas como elas eram."

- "Não me interessava a política, e sim o homem, a sua miséria ou a sua grandeza, a sua vileza ou a sua nobreza."

- "Não me considerava superior a nenhum daqueles infelizes. Talvez fosse pior do que eles. Eram criminosos, mas eu era um inútil."

- "Não me vendi, e isto me dava uma sensação agradável. Não me vendi, e isto me bastava para me reconciliar comigo mesmo."

O livro se insere no contexto histórico do Estado Novo, período da história brasileira que vai de 1937 a 1945, quando Getúlio Vargas governou o país de forma ditatorial, suprimindo as liberdades civis, censurando a imprensa, intervindo nos estados e nos sindicatos, e reprimindo os opositores políticos, especialmente os comunistas. O livro também se insere no contexto literário do Modernismo brasileiro, mais especificamente na segunda fase desse movimento, que se caracterizou pela preocupação social, pela crítica à realidade nacional e pela valorização da linguagem coloquial.

A obra tem uma grande importância e relevância cultural, pois é um dos principais documentos literários sobre a repressão política no Brasil, e uma das obras mais representativas da literatura brasileira do século XX. O livro é considerado um clássico da literatura nacional, e foi adaptado para o cinema em 1984, pelo diretor Nelson Pereira dos Santos, com Carlos Vereza no papel de Graciliano Ramos. O livro também foi traduzido para vários idiomas, como inglês, francês, espanhol, italiano, alemão, russo, chinês, entre outros.

Graciliano Ramos foi um dos maiores escritores brasileiros, autor de obras como Vidas Secas, São Bernardo, Angústia, Infância, entre outras. Nascido em Quebrângulo, Alagoas, em 1892, viveu parte de sua infância em Buíque, Pernambuco, e parte em Viçosa, Alagoas, onde estudou no internato. Em 1904, publicou seu primeiro conto, O Pequeno Pedinte, no jornal da escola. Em 1910, mudou-se para Palmeira dos Índios, Alagoas, onde trabalhou no comércio e na política, sendo eleito prefeito em 1928. Em 1930, mudou-se para Maceió, onde assumiu a direção da Imprensa Oficial e da Instrução Pública do Estado. Em 1933, publicou seu primeiro romance, Caetés, e em 1934, publicou São Bernardo, considerado sua obra-prima. Em 1936, foi preso pelo Estado Novo, experiência que originou Memórias do Cárcere. Em 1937, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como inspetor federal de ensino. Em 1945, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro. Em 1952, viajou para os países socialistas do Leste Europeu, experiência que originou Viagem, publicado em 1954, após sua morte. Graciliano Ramos faleceu no Rio de Janeiro, em 1953, aos 60 anos, vítima de câncer no pulmão.

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