[RESENHA #882] S. Bernardo, de Graciliano Ramos

No declínio de um atribulado percurso de vida, um poderoso fazendeiro do sertão alagoano conta a sua história.

Em S.Bernardo somos apresentados a Paulo Honório, menino órfão que trabalhava como guia de um cego e vendia cocadas durante a infância para conseguir algum dinheiro. Mais tarde, ele passou a labutar na roça - tarefa a que se dedicou até os 18 anos, quando acabou preso após cometer um crime de honra. Ao ser solto, o principal foco de sua vida passa a ser amealhar bens e dinheiro. Para isso, toma um empréstimo de um agiota e começa a negociar gado, redes, rosários e diversas miudezas pelo sertão.

Enfrentando uma série de percalços, Paulo Honório reage a tudo com frieza, e chega a empregar meios antiéticos para atingir seus objetivos. Após conseguir juntar algumas economias, retorna a sua terra natal, Viçosa, decidido a comprar a fazenda São Bernardo, onde havia trabalhado na juventude.

Já mais velho, amargurado pela vida que levou, o narrador revisita dramas de seu passado e conflitos internos que permanecem inexplicáveis até o momento em que suas memórias estão sendo escritas. Nem a fazenda S. Bernardo, que conseguiu adquirir por preço irrisório, nem a professora Madalena, a quem contratou para alfabetizar as crianças do seu empreendimento rural e com quem acaba se casando, deram-lhe o sossego que tanto buscava. A escrita, então, é o que lhe resta, na tentativa de ter de volta a paz desejada.

Da elaborada teia existencial desenvolvida ao longo da trama - com os conflitos entre as visões de mundo incorporadas pelos personagens -, destaca-se, em S.Bernardo, um texto riquíssimo, principalmente nas falas de Paulo Honório, construído em metáforas surpreendentes, ainda que disfarçadas pela concretude das palavras.

Considerado pela crítica literária um dos mais importantes textos de ficção do movimento modernista brasileiro, S.Bernardo está disponível agora nesta bela edição que integra o projeto gráfico mais recente da obra de Graciliano Ramos.

RESENHA

São Bernardo é um romance de Graciliano Ramos, publicado em 1934, que narra a vida de Paulo Honório, um homem rude e ambicioso que se torna um poderoso fazendeiro no sertão alagoano. A obra é considerada uma das mais importantes da literatura brasileira, por retratar com realismo e profundidade psicológica a realidade social e humana do Nordeste.

O estilo de Graciliano Ramos é marcado pela concisão, pela precisão vocabular e pela ausência de ornamentos. O autor utiliza uma linguagem seca e direta, que reflete a personalidade e o ambiente do protagonista. A narrativa é feita em primeira pessoa, com flashbacks que revelam o passado e o presente de Paulo Honório. O narrador não poupa críticas a si mesmo e aos outros, expondo seus conflitos internos e suas contradições.

Os principais personagens da obra são:

- Paulo Honório: o protagonista e narrador, que conta sua trajetória de órfão pobre a dono da fazenda São Bernardo. É um homem violento, astuto e sem escrúpulos, que usa de todos os meios para conseguir o que quer. É casado com Madalena, por quem nutre uma paixão obsessiva e destrutiva.

- Madalena: a esposa de Paulo Honório, uma professora culta e idealista, que se opõe aos valores e aos métodos do marido. É uma mulher inteligente, sensível e crítica, que tenta educar e humanizar Paulo Honório, mas acaba sendo vítima de sua incompreensão e violência.

- Padilha: o antigo dono da fazenda São Bernardo, que a vendeu a Paulo Honório por um preço irrisório, depois de ser ludibriado e arruinado por ele. É um homem fraco, irresponsável e viciado em jogo, bebida e mulheres.

- Casimiro Lopes: o amigo e comparsa de Paulo Honório, que o ajuda em suas trapaças e crimes. É um homem cínico, leal e sem escrúpulos, que não tem família nem sentimentos.

- Ribeiro: o contador e guarda-livros de Paulo Honório, que cuida das finanças da fazenda. É um homem culto, refinado e melancólico, que perdeu sua fortuna e sua família no passado.

- Margarida: a negra doceira que criou Paulo Honório na infância, e que ele traz para morar na fazenda. É uma mulher bondosa, religiosa e maternal, que tem carinho e respeito pelo protagonista.

A obra traz vários ensinamentos, como a crítica à exploração e à injustiça social, a reflexão sobre o sentido da vida e da morte, a análise das relações de poder e de afeto, a contraposição entre a cultura e a barbárie, a denúncia da violência e da opressão, a busca pela identidade e pela liberdade.

Algumas citações da obra que ilustram esses ensinamentos são:

- "A minha vida é um rosário de desgraças. Não sei se mereço ou não mereço. Talvez mereça. Mas é duro viver assim, numa perseguição constante, sem saber por quê." (p. 13) ¹

- "Não sou mau. Não sou bom. Sou como milhares de indivíduos que se arrastam por este mundo, que nascem, crescem, trabalham, amam, odeiam, sofrem e morrem, sem saber por quê, sem saber para quê." (p. 23) ¹

- "Aquele casamento era um erro. Eu não podia continuar vivendo com aquela mulher, que me irritava, que me humilhava, que me fazia sentir a minha inferioridade. Mas eu não podia viver sem ela, que me atraía, que me fascinava, que me dominava." (p. 127) ¹

- "Eu não tinha culpa de nada. A culpa era da vida, que me fizera assim, duro, violento, insensível. A culpa era da terra, que me sugava, que me consumia, que me impedia de ser feliz. A culpa era de Deus, que me criara para sofrer, para fazer sofrer, para morrer." (p. 189) ¹

O período histórico em que a obra se insere é o da Segunda República, também chamada de Era Vargas, que vai de 1930 a 1945. Nesse período, o Brasil passou por profundas transformações políticas, econômicas, sociais e culturais, como a industrialização, a urbanização, a centralização do poder, a repressão aos movimentos populares, a legislação trabalhista, a censura, o nacionalismo e o populismo. A obra de Graciliano Ramos reflete esse contexto, ao retratar a realidade do Nordeste, marcada pela seca, pela miséria, pela violência, pelo coronelismo, pelo latifúndio e pela resistência.

A simbologia da obra está presente em vários elementos, como o próprio título, que remete à fazenda São Bernardo, que representa o sonho, a ambição, a conquista, a posse, a opressão e a solidão de Paulo Honório. A fazenda é o cenário, o motivo e o símbolo de sua vida. Outro elemento simbólico é o caderno de contas, que Paulo Honório usa para escrever sua história, e que revela seu caráter pragmático, materialista e calculista. O caderno de contas é o contraponto ao caderno de notas de Madalena, que expressa sua sensibilidade, sua cultura e sua crítica. Outros símbolos são o relógio, que marca o tempo, a rotina, a ordem e o progresso; o revólver, que simboliza a violência, a autoridade, o poder e o medo; e o cachorro, que representa a fidelidade, a companhia, a ternura e a morte.

A importância e a relevância cultural da obra são inegáveis, pois São Bernardo é um clássico da literatura brasileira, que retrata com maestria a realidade e a psicologia do homem nordestino, e que dialoga com questões universais, como o amor, o ódio, a culpa, a redenção, a vida e a morte. A obra foi traduzida para vários idiomas, como inglês, francês, espanhol, alemão, italiano, russo, sueco, húngaro, polonês, tcheco, romeno, búlgaro, japonês e hebraico. A obra também foi adaptada para o cinema, em 1972, pelo diretor Leon Hirszman, com Othon Bastos e Isabel Ribeiro nos papéis principais.

A biografia do autor foi resumida no início deste texto, mas vale destacar alguns aspectos de sua vida e de sua obra. Graciliano Ramos nasceu em Quebrângulo, Alagoas, em 1892, e morreu no Rio de Janeiro, em 1953. Foi escritor, jornalista, político e militante comunista. Foi preso em 1936, acusado de subversão, e solto em 1937, por falta de provas. Escreveu romances, contos, crônicas, memórias, cartas, ensaios e traduções. Sua obra é marcada pelo regionalismo, pelo realismo, pelo socialismo e pelo existencialismo. Seus principais livros são: Caetés (1933), São Bernardo (1934), Angústia (1936), Vidas Secas (1938), Infância (1945), Insônia (1947), Memórias do Cárcere (1953) e Viagem (1954).

Finalizando esta resenha, podemos afirmar que São Bernardo é uma obra-prima da literatura brasileira, que merece ser lida, relida, estudada e apreciada por todos os que se interessam pela arte, pela cultura e pela história do nosso país. Graciliano Ramos é um autor que nos ensina, nos emociona, nos incomoda e nos desafia, com sua linguagem precisa, sua narrativa envolvente, sua visão crítica e sua sensibilidade humana. São Bernardo é um livro que nos faz pensar, sentir, questionar e transformar.

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