[RESENHA #881] Vidas secas, de Graciliano Ramos


O livro mais importante de Graciliano Ramos e um dos maiores clássicos da literatura nacional, agora em edição de bolso. Publicado pela primeira vez em 1938, Vidas secas retrata a vida miserável de uma familia de retirantes em sua peregrinação pelo sertão nordestino. Uma das obras-símbolo do modernismo literário brasileiro, Vidas secas é um retrato atual, emocionante e cruelmente verdadeiro sobre o Brasil.

RESENHA

Vidas Secas, de Graciliano Ramos, é um dos romances mais importantes da literatura brasileira. Publicado em 1938, o livro retrata a vida de uma família de retirantes nordestinos que enfrenta a miséria e a seca no sertão. A obra pertence à segunda fase do modernismo, conhecida como regionalista, e se destaca pela linguagem seca, simples e direta, que reflete a aridez do ambiente e a condição humana dos personagens.

O livro é composto por 13 capítulos que podem ser lidos de forma independente, pois não seguem uma ordem cronológica. No entanto, o primeiro capítulo, "Mudança", e o último, "Fuga", apresentam uma ligação que fecha um ciclo. Neles, a família de retirantes, formada por Fabiano, Sinhá Vitória, os dois filhos e a cadela Baleia, caminha pelo sertão em busca de um lugar para viver, fugindo da seca e da fome. Os demais capítulos mostram episódios da vida da família na fazenda onde se instalam, trabalhando para um patrão explorador e enfrentando as dificuldades do cotidiano.

Os personagens principais são Fabiano, Sinhá Vitória, os dois filhos e a cadela Baleia. Fabiano é o chefe da família, um vaqueiro rude, ignorante e alcoólatra, que se sente inferiorizado e oprimido pelo patrão, pelo soldado e pela sociedade. Sinhá Vitória é a esposa de Fabiano, uma mulher trabalhadora, religiosa e esperta, que sabe fazer contas e sonha com uma cama de couro. Os filhos são o menino mais velho e o menino mais novo, que não têm nomes próprios e nem frequentam a escola. Eles são curiosos, sonhadores e sofrem com a falta de afeto e de brinquedos. Baleia é a cadela da família, que é tratada como um ser humano e tem um nome, ao contrário dos meninos. Ela é alegre, fiel e carinhosa, e morre de forma trágica no capítulo "Baleia".

A obra de Graciliano Ramos traz ensinamentos sobre a realidade social e histórica do Brasil, especialmente do Nordeste, marcada pela desigualdade, pela violência e pela exploração. O autor denuncia as condições de vida dos retirantes, que são marginalizados e desumanizados pela seca e pelo latifúndio. Além disso, o livro mostra a psicologia dos personagens, que sofrem com a angústia, a solidão, a incomunicabilidade e a falta de perspectivas. O autor também explora a relação entre o homem e a natureza, que é hostil e implacável, mas também fonte de esperança e de beleza.


Algumas citações marcantes da obra são:

- "Você é um bicho, Fabiano." (Capítulo II - Fabiano)

- "A catinga esturricada, a água dos charcos apodrecida, coberta de uma película verde, os juazeiros alastrados, sem uma folha." (Capítulo I - Mudança)

- "A seca, a fome, a peste, a miséria, a ignorância, a opressão, a injustiça, a violência, a morte, tudo isso se misturava na paisagem e na alma dos retirantes." (Capítulo XIII - Fuga)

- "Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes." (Capítulo IX - Baleia)

A simbologia da obra está presente em vários elementos, como o nome da cadela Baleia, que remete a um animal aquático, em contraste com a seca; o papagaio, que representa a fala e a comunicação, que são escassas na família; a cama de couro, que simboliza o conforto e o sonho de Sinhá Vitória; o fogo, que significa a destruição e a morte, mas também a purificação e a renovação; e o sertão, que é o cenário da obra e que expressa a dureza, a resistência e a identidade dos personagens.

A importância e a relevância cultural da obra são inegáveis, pois Vidas Secas é um clássico da literatura brasileira, que retrata uma realidade social e histórica que ainda persiste no país. A obra também é uma obra de arte, que revela a genialidade e a originalidade de Graciliano Ramos, que criou um estilo próprio, marcado pela concisão, pela precisão e pela força das palavras. A obra foi traduzida para vários idiomas e adaptada para o cinema, em 1963, pelo diretor Nelson Pereira dos Santos.

A biografia do autor também é interessante, pois Graciliano Ramos foi um escritor que viveu intensamente a sua época, participando da vida política e cultural do país. Ele foi prefeito de Palmeira dos Índios, diretor da Imprensa Oficial e da Instrução Pública de Alagoas, inspetor federal de ensino, preso político, militante comunista, presidente da Associação Brasileira de Escritores e viajante pelo mundo. Ele escreveu vários livros, entre romances, contos, crônicas, memórias e ensaios, que o consagraram como um dos maiores nomes da literatura nacional.

A crítica positiva acerca da obra é que Vidas Secas é um livro que emociona, que provoca, que questiona e que ensina. É um livro que mostra a realidade de um povo sofrido, mas também a sua dignidade, a sua força e a sua esperança. É um livro que revela a arte de um escritor que soube usar as palavras com maestria, com sensibilidade e com profundidade. É um livro que merece ser lido, relido e admirado por todos os leitores.

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