[RESENHA #880] Angústia, de Graciliano Ramos

 

Lançado originalmente em 1936 e apresentado aqui em novo projeto gráfico, Angústia tem como protagonista Luís Silva, funcionário público de Maceió que leva uma vida medíocre e sem grandes emoções até o dia em que se apaixona por Marina. De início, a jovem demonstra certo interesse no relacionamento e no conforto material que o casamento poderia lhe proporcionar, mas logo acaba trocando o noivo por Julião Tavares, mais rico e poderoso. Tomado por ciúmes e rancor, Silva fica perturbado com os acontecimentos que se desenrolam e passa a acompanhar a vida de Marina enquanto sonha em matar Julião.

Escrito em primeira pessoa, o romance tem estrutura temporal não linear, seguindo o fluxo de consciência do narrador-personagem e aproximando o leitor dos sentimentos despertados pelos conflitos vividos por Luís Silva.

RESENHA

Angústia é um romance de Graciliano Ramos, publicado em 1936, que retrata a vida de um homem atormentado por suas frustrações pessoais e sociais. O autor, considerado um dos maiores prosadores da literatura brasileira, utiliza uma linguagem seca, direta e precisa, sem ornamentos ou sentimentalismos, para criar uma narrativa densa, angustiante e crítica.

O protagonista e narrador da obra é Luís da Silva, um funcionário público e escritor frustrado, que vive em Maceió, no início do século XX. Luís é um homem solitário, amargo e pessimista, que se sente inferiorizado diante da sociedade e de si mesmo. Sua única fonte de alegria é o amor por Marina, sua vizinha, com quem planeja se casar. Porém, seus planos são arruinados quando descobre que Marina o trai com Julião Tavares, um homem rico, arrogante e pretensioso, que aspira ser escritor.

A partir daí, Luís entra em um estado de obsessão e ciúme, que o leva a perseguir Marina e Julião, e a rememorar seu passado infeliz, marcado por uma infância pobre, uma adolescência reprimida, uma juventude fracassada e uma vida adulta medíocre. Luís se sente impotente e humilhado, e não consegue se libertar da angústia que o consome. Sua única saída é o crime: ele decide matar Julião, como forma de vingança e de afirmação de sua existência.

O romance é uma obra-prima da literatura brasileira, que revela a capacidade de Graciliano Ramos de penetrar na psicologia humana e de retratar a realidade social de seu tempo. O autor utiliza recursos como o fluxo de consciência, o monólogo interior, o tempo psicológico e o foco narrativo em primeira pessoa, para criar uma atmosfera de tensão e de sufocamento, que envolve o leitor e o faz sentir a angústia do protagonista. Além disso, o autor faz uma crítica à sociedade burguesa, à hipocrisia, à corrupção, à exploração e à alienação, que marcam o contexto histórico da obra.


Algumas citações marcantes do livro são:

- "A vida é horrível, meu caro senhor, a vida é horrível."

- "Eu não era nada na vida, nunca fora nada, nunca fizera nada. E aquela certeza de inutilidade, de nulidade, batia-me na cara como um soco."

- "Era preciso acabar com aquilo, era preciso liquidar Julião Tavares. Não me ocorria outra ideia. E a minha vida, a minha existência, dependia daquela ideia fixa."

- "Eu não tinha remédio. A minha vida estava perdida. E a culpa era minha, só minha. Se eu fosse outro, se eu tivesse qualidades, se eu fosse capaz de alguma coisa, Marina não me abandonaria."

A obra Angústia é uma leitura indispensável para quem quer conhecer a obra de Graciliano Ramos e a literatura brasileira moderna. O livro é um exemplo de como o autor soube combinar a forma e o conteúdo, a arte e a crítica, a emoção e a razão, para criar uma obra original, profunda e impactante. O livro é uma lição de como o ser humano pode se perder em sua própria angústia, e de como a sociedade pode gerar indivíduos infelizes, frustrados e violentos. O livro é, enfim, uma obra de arte, que merece ser lida, relida e apreciada.

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