[RESENHA #879] Insônia, de Graciliano Ramos

Em novo projeto gráfico, Insônia reúne treze contos em que estão presentes a secura emotiva e a economia vocabular, características que convivem com a precisão psicológica de Graciliano Ramos.

Publicado originalmente em 1947, Insônia é o sexto livro de Graciliano Ramos. A obra reúne treze contos ― “Insônia”, “Um ladrão”, “O relógio do hospital”, “Paulo”, “Luciana”, “Minsk”, “A prisão de J. Carmo Gomes”, “Dois dedos”, “A testemunha”, “Ciúmes”, “Um pobre-diabo”, “Uma visita” e “Silveira Pereira” ―, nos quais temas muito caros ao autor se evidenciam, como morte, envelhecimento e injustiça social.

Insônia mostra como o ser humano reage a situações diversas, revelando suas fragilidades e angústias.

As histórias desta obra estão repletas de inquietudes existenciais que oferecem ao leitor a possiblidade de confrontar a própria realidade, acompanhado sempre do estilo que consagrou Graciliano Ramos como um dos maiores autores brasileiros, e que já é conhecido dos leitores: a economia vocabular, a secura emotiva e a precisão psicológica.

RESENHA

Insônia é uma coletânea de treze contos publicada em 1947 pelo escritor alagoano Graciliano Ramos, um dos maiores nomes da literatura brasileira. Nesta obra, o autor explora temas como a morte, o envelhecimento, a injustiça social, a solidão e a angústia, retratando a realidade de personagens que sofrem com as adversidades da vida e com os conflitos internos.

O estilo de Graciliano Ramos se caracteriza pela economia vocabular, pela secura emotiva e pela precisão psicológica. O autor utiliza uma linguagem simples, direta e objetiva, sem excessos de adjetivos ou descrições. Ao mesmo tempo, ele consegue transmitir a complexidade e a profundidade dos sentimentos e dos pensamentos dos seus personagens, que são marcados pela dificuldade de se expressar e de se relacionar com os outros. A narrativa é predominantemente em primeira pessoa, o que confere um tom intimista e confessional aos contos.

Os contos que compõem o livro são: "Insônia", "Um ladrão", "O relógio do hospital", "Paulo", "Luciana", "Minsk", "A prisão de J. Carmo Gomes", "Dois dedos", "A testemunha", "Ciúmes", "Um pobre-diabo", "Uma visita" e "Silveira Pereira". Cada um deles apresenta uma situação diferente, mas que revela aspectos comuns da condição humana. Alguns dos personagens mais marcantes são:

- O narrador de "Insônia", que sofre de insônia crônica e passa as noites em claro, rememorando episódios de sua vida e refletindo sobre a morte e o sentido da existência.

- O ladrão de "Um ladrão", que invade uma casa e se depara com uma mulher agonizante, que lhe pede para matá-la e acabar com seu sofrimento.

- O velho de "O relógio do hospital", que vive em um asilo e tem como única distração observar o relógio do hospital vizinho, que marca o tempo de sua vida e de sua morte.

- O menino de "Paulo", que é abandonado pela mãe e vive nas ruas, sofrendo de fome, frio e violência, até encontrar um cachorro que se torna seu amigo e protetor.

- A moça de "Luciana", que é casada com um homem rico e infeliz, e se apaixona por um rapaz pobre e alegre, que lhe oferece uma nova perspectiva de vida.

- O judeu de "Minsk", que é perseguido pelo nazismo e foge para o Brasil, onde tenta se adaptar a uma cultura diferente e enfrenta o preconceito e a solidão.

- O preso político de "A prisão de J. Carmo Gomes", que é torturado e humilhado pelos agentes da ditadura, e que mantém a esperança de ser libertado e reencontrar sua família.

- O médico de "Dois dedos", que perde dois dedos da mão em um acidente e se sente incapaz de exercer sua profissão e de viver normalmente.

- O advogado de "A testemunha", que é chamado para defender um homem acusado de assassinato, e que descobre que ele é o mesmo homem que lhe salvou a vida em uma situação de perigo.

- O marido de "Ciúmes", que é dominado pelo ciúme e pela desconfiança em relação à sua esposa, e que acaba provocando uma tragédia familiar.

- O pobre-diabo de "Um pobre-diabo", que é um homem miserável e doente, que vive de esmolas e que é desprezado por todos, até encontrar uma mulher que lhe dá um pouco de carinho e de compaixão.

- A visita de "Uma visita", que é uma mulher que vai visitar um amigo que está internado em um hospital psiquiátrico, e que se surpreende com o estado em que ele se encontra e com as revelações que ele lhe faz.

- O professor de "Silveira Pereira", que é um intelectual respeitado e admirado, mas que esconde um segredo terrível em seu passado, que pode destruir sua reputação e sua vida.

O livro Insônia traz ensinamentos sobre a natureza humana, sobre os dilemas morais e existenciais, sobre a sociedade e a história. Alguns dos contos se passam em períodos históricos importantes, como a Segunda Guerra Mundial e a ditadura militar no Brasil, e mostram como esses eventos afetam a vida das pessoas comuns. O livro também revela a visão crítica e realista de Graciliano Ramos sobre o Brasil, sobre as desigualdades sociais, sobre a violência, sobre a corrupção, sobre a alienação e sobre a resistência.

Algumas citações marcantes do livro são:

- "Não durmo. Não é insônia propriamente. É uma espécie de vigília dolorosa, cheia de recordações e de remorsos." ("Insônia")

- "A mulher estava morta. O ladrão sentiu um alívio. Não precisava matá-la. Não precisava fazer nada. Podia ir embora." ("Um ladrão")

- "O relógio do hospital era a única coisa viva que eu via da minha janela. E eu o odiava. Era ele que me lembrava que eu estava morrendo." ("O relógio do hospital")

- "Eu não tinha ninguém. Só tinha o cachorro. Ele era meu amigo. Ele me defendia. Ele me dava comida. Ele brincava comigo. Ele me fazia feliz." ("Paulo")

- "Eu queria fugir com ele. Queria deixar tudo para trás. Queria viver uma vida nova, uma vida simples, uma vida alegre. Mas eu não podia. Eu era casada. Eu tinha um compromisso. Eu tinha medo." ("Luciana")

- "Eu não era mais Minsk. Eu era um estrangeiro. Um refugiado. Um fugitivo. Um ninguém. Eu não tinha pátria. Não tinha família. Não tinha amigos. Não tinha futuro." ("Minsk")

- "Eu não sabia o que eles queriam de mim. Eu não sabia o que eu tinha feito de errado. Eu só sabia que eles me batiam, me xingavam, me humilhavam. Eles queriam que eu confessasse. Mas eu não tinha o que confessar." ("A prisão de J. Carmo Gomes")

- "Eu perdi dois dedos. Eu perdi a minha mão. Eu perdi a minha profissão. Eu perdi a minha dignidade. Eu perdi a minha vida." ("Dois dedos")

- "Eu reconheci o réu. Era ele. O homem que me salvou. O homem que me devolveu a vida. O homem que agora estava acusado de tirar a vida de outro. Como eu poderia defendê-lo? Como eu poderia acusá-lo?" ("A testemunha")

- "Eu não confiava nela. Eu achava que ela me traía. Eu achava que ela me enganava. Eu achava que ela me odiava. Eu a amava. Eu a odiava. Eu a matei." ("Ciúmes")

- "Eu era um pobre-diabo. Um verme. Um lixo. Ninguém me queria. Ninguém me ajudava. Ninguém me amava. Só ela. Ela me queria. Ela me ajudava. Ela me amava. Ela morreu." ("Um pobre-diabo")

- "Eu fui visitá-lo. Ele estava louco. Ele falava coisas sem sentido. Ele ria sem motivo. Ele chorava sem razão. Ele me contou o que tinha feito. Ele me pediu perdão. Ele me assustou." ("Uma visita")

- "Eu era um professor. Um sábio. Um mestre. Todos me respeitavam. Todos me admiravam. Todos me invejavam. Ninguém sabia o que eu tinha feito. Ninguém sabia o que eu escondia. Ninguém sabia quem eu era." ("Silveira Pereira")

A simbologia do livro está relacionada à ideia de insônia, que representa não apenas a falta de sono, mas também a falta de paz, de sentido, de esperança, de amor. A insônia é o estado de alerta, de angústia, de sofrimento, de culpa, de medo, de solidão. A insônia é o que impede os personagens de dormir, de sonhar, de viver.

A importância e a relevância cultural do livro estão na sua capacidade de retratar a realidade brasileira de forma crítica e sensível, mostrando as contradições, as injustiças, as violências, as misérias, as esperanças e as resistências do povo brasileiro. O livro também é um exemplo da qualidade literária de Graciliano Ramos, que se destaca pela sua originalidade, pela sua coerência, pela sua criatividade e pela sua expressividade.

Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 1892, e morreu no Rio de Janeiro, em 1953. Foi escritor, jornalista, professor, político e preso político. Escreveu romances, contos, crônicas, memórias, cartas e ensaios. Entre suas obras mais famosas estão Vidas Secas, São Bernardo, Angústia, Memórias do Cárcere e Infância. Foi um dos principais representantes do modernismo brasileiro, especialmente da segunda fase, conhecida como regionalista. Sua obra é marcada pelo engajamento social, pela denúncia das desigualdades, pela análise psicológica, pela linguagem enxuta e pela valorização da cultura popular.

Em conclusão, Insônia é um livro que merece ser lido e apreciado por todos os que se interessam pela literatura brasileira e pela condição humana. É um livro que nos faz pensar, sentir, questionar, admirar e aprender. É um livro que nos mostra a insônia como um mal, mas também como uma possibilidade de despertar.

Postar um comentário

Comentários