[RESENHA #877] A casa do rio vermelho, de Zélia Gattai

O improviso, a sinceridade e o desprezo pelo tempo cronológico são elementos cruciais da escrita de Zélia Gattai. Não é fácil impor uma ordem ao mundo. Tudo o que resta ao escritor é sobrevoar as palavras, conservar-se aberto e disponível para as surpresas da vida e da linguagem. Se escrever é lembrar, escrever é também aceitar a embriaguez das pequenas recordações. Nada melhor, nesse caso, do que narrar a história de uma casa. No bairro do Rio Vermelho, nos anos 1960, Zélia Gattai e Jorge Amado compraram uma bela casa, situada no topo de uma ladeira, que entraria para a história da literatura. Casa sempre pronta a acolher os amigos, a abrigar festas e a estimular o jogo das ideias. Já na porta de entrada, talhada pelo artista baiano Calasans Neto, a figura sensual de Tereza Batista anuncia o acesso a um território regido pela alegria e pela invenção, que não se deixa abalar nem por um infarto de Jorge nem por uma difícil visita de despedida de Pablo Neruda. Casa que é aberta, com delicadeza e timidez, também para o leitor. "Para quem não conhece os detalhes, peço licença para contar novamente", Zélia escreve, com a gentileza de uma amável anfitriã. Em A casa do Rio Vermelho, Zélia continua a narrar a saga de sua vida - que se mistura não só com a do marido Jorge Amado, mas com a aventura de toda uma geração de artistas. Sua grande proeza é fazer da literatura não só registro de emoções e de acontecimentos, mas uma maneira de se apropriar do mundo.

RESENHA

A casa do rio vermelho, de Zélia Gattai, é um livro que narra a história da residência onde viveu o casal de escritores Jorge Amado e Zélia Gattai, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, na Bahia. A casa foi comprada em 1960 e se tornou um ponto de encontro de artistas, intelectuais e ativistas políticos, que frequentavam as festas e as conversas animadas do casal. O livro é um memorial afetivo, que mistura lembranças pessoais, acontecimentos históricos e referências literárias.

O estilo de Zélia Gattai é simples, sincero e envolvente. Ela escreve com fluidez e humor, sem se preocupar com a ordem cronológica ou a coerência narrativa. Ela prefere sobrevoar as palavras, deixando-se levar pelas surpresas da vida e da linguagem. Ela não tem pretensões de fazer uma obra literária, mas sim de compartilhar suas memórias com o leitor, como se fosse uma amiga íntima.

Os principais personagens do livro são, obviamente, Jorge Amado e Zélia Gattai, que protagonizam cenas de amor, cumplicidade, criatividade e resistência. Eles são retratados como um casal apaixonado, que se apoia mutuamente nas dificuldades e nas alegrias. Eles também são mostrados como pessoas generosas, que abrem as portas de sua casa para receber os amigos, que vão desde escritores famosos, como Pablo Neruda, Gabriel García Márquez e Carlos Drummond de Andrade, até pessoas simples, como os pescadores, os vendedores e os vizinhos do bairro. Além deles, há uma série de personagens secundários, que enriquecem a narrativa com suas histórias, suas personalidades e suas opiniões.

O livro ensina ao leitor sobre a importância da amizade, da solidariedade, da cultura e da liberdade. A casa do rio vermelho é um espaço de convivência, de troca, de aprendizado e de diversão. É um lugar onde se celebra a vida, a arte, a política e o amor. É um lugar onde se respeita a diversidade, a diferença, a criatividade e a resistência. É um lugar onde se vive intensamente, sem medo de ser feliz.

Algumas citações do livro que ilustram esses ensinamentos são:

- "A casa do Rio Vermelho era um lugar de festa, de alegria, de encontro de amigos. Nela, Jorge e eu vivemos os melhores anos de nossa vida." (p. 11)
- "Nossa casa era um lugar de liberdade, onde cada um podia expressar sua opinião, sua crítica, sua indignação, sem receio de ofender ou ser ofendido." (p. 34)
- "Nossa casa era também um lugar de cultura, onde se discutia literatura, cinema, teatro, música, pintura, escultura, com pessoas que entendiam do assunto e com outras que apenas gostavam." (p. 56)
- "Nossa casa era, sobretudo, um lugar de amor, onde Jorge e eu nos amávamos sem pudor, sem vergonha, sem culpa. Nossa casa era o nosso ninho, o nosso refúgio, o nosso paraíso." (p. 78)

O período histórico em que se passa o livro é o da segunda metade do século XX, marcado por grandes transformações sociais, políticas e culturais no Brasil e no mundo. O livro aborda temas como a ditadura militar, a censura, a resistência, o exílio, a anistia, a redemocratização, o movimento feminista, o movimento negro, o movimento ecológico, entre outros. O livro também mostra como a literatura de Jorge Amado se inseriu nesse contexto, refletindo e influenciando a realidade brasileira e mundial.

A simbologia do livro está relacionada à casa como um símbolo de identidade, de pertencimento, de memória e de afeto. A casa do rio vermelho representa a essência de Jorge Amado e Zélia Gattai, que nela imprimiram sua personalidade, sua história, sua cultura e seu amor. A casa também representa a Bahia, com sua beleza, sua diversidade, sua religiosidade e sua alegria. A casa é um patrimônio cultural, que preserva e transmite os valores e as tradições do casal, da Bahia e do Brasil.

A importância e a relevância cultural do livro estão ligadas à sua capacidade de retratar uma época, um lugar e um casal que marcaram a história da literatura brasileira e mundial. O livro é um documento histórico, que registra fatos, personagens e acontecimentos que influenciaram e foram influenciados pela obra de Jorge Amado e Zélia Gattai. O livro é também um testemunho pessoal, que revela aspectos íntimos, emocionais e humanos do casal, que nem sempre aparecem em suas obras ficcionais. O livro é, enfim, uma homenagem, que celebra a vida e a obra de dois grandes escritores, que souberam transformar a literatura em arte e em amor.

Zélia Gattai (1916-2008) foi uma escritora brasileira, nascida em São Paulo, filha de imigrantes italianos. Foi casada com o escritor Jorge Amado, com quem teve dois filhos, João Jorge e Paloma. Participou ativamente da vida política e cultural do país, integrando o Partido Comunista Brasileiro e o movimento de resistência à ditadura militar. Escreveu vários livros de memórias, entre eles Anarquistas, graças a Deus, Jardim de inverno, Um chapéu para viagem e A casa do rio vermelho. Recebeu diversos prêmios e homenagens, como o Prêmio Jabuti, o Prêmio Camões e a Ordem do Mérito Cultural. Foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 2001.

A casa do rio vermelho é um livro encantador, que nos convida a entrar na intimidade de um dos casais mais queridos e admirados da literatura brasileira. Zélia Gattai nos conta, com graça e sensibilidade, as histórias que viveu ao lado de Jorge Amado, na casa que foi o cenário de sua felicidade e de sua criação. O livro é um convite à amizade, à cultura, à política e ao amor, que transbordam das páginas e nos contagiam com sua energia e sua beleza. O livro é um presente, que nos faz sentir parte da família de Jorge e Zélia, e nos faz agradecer por sua existência e por sua generosidade. O livro é uma obra-prima, que nos faz admirar ainda mais a escritora Zélia Gattai, que soube transformar suas memórias em literatura e em arte.


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