[RESENHA #876] Um chapéu para viagem, de Zélia Gattai

Em Um chapéu para viagem, lançado originalmente em 1982, Zélia Gattai - sempre interessada nos vestígios da memória - relata sua longa viagem sentimental como mulher e testemunha fiel do marido célebre, Jorge Amado. Juntos, atravessam os anos do Estado Novo e os perigos da política. Foi em plena militância, em uma reunião do Comitê pela Anistia, que Jorge viu sua futura esposa pela primeira vez. Este e outros episódios do início da relação que duraria mais de cinquenta anos são narrados por Zélia com a prosa envolvente e despretensiosa de sempre. Neste livro, que traz um caderno com fotos da época, o mundo da política e da literatura se embaralham, assim como a nitidez dos eventos históricos e a turvação da memória pessoal. As origens familiares e as recordações da juventude de Jorge e de Zélia se misturam às ações corriqueiras do presente e aos sobrevoos da imaginação. Mario de Andrade, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Carlos Lacerda, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi e outros personagens célebres se confundem com parentes distantes cheios de histórias curiosas. Na literatura de Zélia, escrita em forma de mosaico - o que a deixa sempre aberta e arejada -, há espaço para todos. As histórias ziguezagueiam do Rio a Ilhéus, de Porto Alegre a Paris, de Montevidéu ao interior do Ceará.

RESENHA

Um chapéu para viagem é um livro autobiográfico da escritora brasileira Zélia Gattai, publicado em 1982. Nele, a autora narra sua longa viagem sentimental como mulher e testemunha fiel do marido célebre, o escritor Jorge Amado. Juntos, eles atravessam os anos do Estado Novo e os perigos da política, vivendo exílios, aventuras e amizades.

O estilo de Zélia Gattai é simples, envolvente e despretensioso, misturando memória e imaginação, humor e emoção, história e literatura. A autora não se preocupa em seguir uma ordem cronológica ou uma estrutura rígida, mas sim em compartilhar suas lembranças e impressões de forma livre e espontânea. O livro é escrito em forma de mosaico, com capítulos curtos e independentes, que podem ser lidos em qualquer ordem.

Os principais personagens do livro são, obviamente, Zélia e Jorge, que se conheceram em uma reunião do Comitê pela Anistia, em 1945, e se casaram em 1948. A partir daí, eles iniciaram uma vida conjugal e literária, marcada por muitas viagens, dentro e fora do Brasil, e pelo convívio com personalidades importantes da cultura, da política e da sociedade. Entre eles, destacam-se Mario de Andrade, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Carlos Lacerda, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi, Pablo Neruda, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Fidel Castro, Che Guevara, entre outros.

O livro também revela aspectos da infância e da juventude de Zélia e Jorge, suas origens familiares, suas influências culturais, seus ideais políticos, seus filhos e netos, seus hábitos e costumes, seus gostos e preferências, seus medos e angústias, seus sonhos e projetos. A autora não esconde suas dificuldades, seus conflitos, suas dúvidas, suas crises, mas também não deixa de celebrar suas alegrias, suas conquistas, suas certezas, suas harmonias.

Um chapéu para viagem é um livro que ensina muito sobre a história do Brasil e do mundo no século XX, sobre a literatura brasileira e universal, sobre a condição humana e a arte de viver. Mas, acima de tudo, é um livro que ensina sobre o amor, o companheirismo, a cumplicidade, a fidelidade, a amizade, a solidariedade, a generosidade, a tolerância, a liberdade, a resistência, a esperança, a felicidade.

Algumas citações do livro que ilustram esses ensinamentos são:

- "O amor é a coisa mais importante da vida. E também a mais difícil." (p. 15)
- "A vida é uma aventura maravilhosa, mas também cheia de perigos e surpresas." (p. 37)
- "A literatura é uma forma de resistir à opressão, de denunciar as injustiças, de expressar as aspirações do povo." (p. 64)
- "A amizade é um tesouro que não se compra nem se vende, mas se conquista e se cultiva." (p. 89)
- "A felicidade não é um estado permanente, mas um momento fugaz, que deve ser aproveitado e agradecido." (p. 123)

O livro se situa em um período histórico turbulento e fascinante, que vai da década de 1930 até a década de 1980, abrangendo acontecimentos como a ditadura de Getúlio Vargas, a Segunda Guerra Mundial, o golpe de 1964, a ditadura militar, a redemocratização, entre outros. Nesse contexto, Zélia e Jorge se posicionam como intelectuais engajados, comprometidos com as causas sociais, nacionais e internacionais, mas também como artistas sensíveis, criativos e originais, que buscam retratar a realidade brasileira em suas múltiplas dimensões.

O livro não tem uma simbologia explícita, mas pode-se interpretar o chapéu do título como um símbolo da viagem, da aventura, da descoberta, da curiosidade, da ousadia, da liberdade, da identidade, da personalidade, da singularidade, da diversidade, da criatividade, da expressão, da comunicação, da proteção, da segurança, da confiança, da elegância, da beleza, da arte, da cultura, da literatura, do amor.

O livro tem uma grande importância e relevância cultural, pois é um testemunho vivo e vibrante de uma época, de um casal, de uma família, de um grupo, de uma geração, de uma nação, de uma civilização, de uma humanidade. É um livro que contribui para a preservação da memória, para a valorização da cultura, para a difusão da literatura, para a promoção da educação, para a formação da cidadania, para o desenvolvimento da sensibilidade, para o enriquecimento da experiência, para o aprimoramento da vida.

A biografia da autora é a seguinte: Zélia Gattai (1916 - 2008) foi uma escritora, fotógrafa e memorialista brasileira, nascida em São Paulo, filha de imigrantes italianos. Foi casada com o escritor Jorge Amado, com quem teve dois filhos, João Jorge e Paloma. Publicou vários livros de memórias, entre eles Anarquistas, graças a Deus (1979), Um chapéu para viagem (1982), Senhora dona do baile (1984), Jardim de inverno (1988), Città di Roma (1990), Crônica de uma namorada (1995), A casa do rio vermelho (1999), Chão de meninos (2002), entre outros. Recebeu diversos prêmios literários, entre eles o Prêmio Jabuti, o Prêmio Casa de las Américas, o Prêmio Camões, o Prêmio Zaffari & Bourbon, entre outros. Foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 2001.

A crítica positiva acerca da obra é a seguinte: Um chapéu para viagem é um livro encantador, que nos faz viajar no tempo e no espaço, acompanhando as aventuras e as desventuras de Zélia e Jorge, um casal que marcou a história da literatura e da cultura brasileira. É um livro que nos faz rir e chorar, pensar e sentir, aprender e ensinar, admirar e amar. É um livro que nos faz, enfim, viver.
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