[RESENHA #875] Senhora dona do baile, de Zélia Gattai

Relato dos anos de exílio que Zélia Gattai e Jorge Amado passaram na Europa, Senhora dona do baile nos oferece, sob o disfarce da inocência, um vigoroso retrato do pós-guerra.

A Guerra Fria racha o mundo ao meio, transformando as diferenças intelectuais e políticas em graves inimizades. São anos tensos, que Zélia fisga com agilidade incomum. Publicado originalmente em 1984, o livro tem início em 1948, quando Zélia e João Jorge, então com quatro meses, embarcam rumo à Europa para se juntar a Jorge Amado, obrigado a fugir às pressas do Brasil depois de ter seu mandato de deputado federal cassado.

Zélia adota, aqui, o papel que mais lhe agrada: o de discreta, mas meticulosa, observadora do real. Autêntica repórter, não deixa escapar nada: a dolorosa travessia do Atlântico, a saudade imensa do lar, as precárias viagens de avião em meio a rigorosas nevascas, a destruição da Europa do Leste, os congressos e compromissos de Jorge, e a convivência com personalidades como Picasso, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Marc Chagall e muitos outros.

Comovente é o modo como Zélia também privilegia as pequenas experiências e surpresas do dia a dia. Sua alma esquerdista não exclui nem mesmo a desconfiança em relação à seriedade excessiva e ao dogmatismo. Está sempre pronta para rir de si e desconfiar das próprias crenças. Com sua voz altiva e singular e sem medo de ser ofuscada pela presença do marido, Zélia narra o cotidiano do casal na Europa em histórias engraçadas e tocantes, neste livro que é considerado um dos mais importantes de sua carreira.

RESENHA

Senhora dona do baile, de Zélia Gattai, é um livro de memórias que narra os anos de exílio que a autora e seu marido, o escritor Jorge Amado, passaram na Europa, entre 1948 e 1952. A obra é um testemunho histórico, político e cultural de um período marcado pela Guerra Fria, pela reconstrução do continente devastado pela Segunda Guerra Mundial e pela efervescência artística e intelectual.

O estilo de Zélia Gattai é simples, fluente e envolvente. Ela conta suas experiências com humor, sensibilidade e honestidade, sem esconder suas opiniões, dúvidas e emoções. A autora se mostra uma observadora atenta e curiosa, que registra os detalhes do cotidiano, as paisagens, as pessoas, as comidas, as festas, as dificuldades e as alegrias de viver em um país estrangeiro.

Os principais personagens do livro são o próprio casal Jorge e Zélia, que enfrentam as adversidades do exílio com coragem, solidariedade e amor. Eles viajam por vários países, como França, Itália, Tchecoslováquia, Polônia, União Soviética, Inglaterra e Suíça, participando de congressos, conferências, manifestações e encontros com outros escritores, artistas e militantes políticos. Entre os nomes famosos que aparecem no livro, estão Picasso, Sartre, Simone de Beauvoir, Neruda, Gorki, Chagall, Brecht, Malraux, Hemingway, entre outros.

O livro ensina sobre a história da Europa no pós-guerra, as ideologias e os conflitos que dividiam o mundo, a cultura e a arte de cada país visitado, a literatura e a vida de Jorge Amado, a trajetória e a personalidade de Zélia Gattai, a amizade e a solidariedade entre os exilados, a saudade e o amor pelo Brasil. O livro também diverte com as histórias engraçadas, as situações inusitadas, as gafes e os mal-entendidos causados pela língua e pelos costumes diferentes.


Algumas citações do livro que ilustram o seu conteúdo são:

- "A vida é feita de momentos, uns tristes, outros alegres, e a gente tem que aproveitar todos, porque não sabemos o que nos espera amanhã." (p. 15)

- "Não sei se é porque sou brasileira, mas gosto de gente alegre, de festa, de música, de dança. Não gosto de gente sisuda, que leva tudo muito a sério, que não sabe rir de si mesma." (p. 37)

- "A guerra acabara de terminar, mas as marcas da destruição eram visíveis por toda parte. Prédios em ruínas, pontes quebradas, estradas esburacadas, gente faminta, crianças órfãs, mutilados, mendigos. Era de cortar o coração." (p. 65)

- "Fiquei encantada com a beleza de Paris, a cidade luz, a capital da cultura. Os monumentos, os museus, os jardins, os cafés, os boulevards, tudo me fascinava. Era como estar dentro de um filme ou de um livro." (p. 89)

- "Fomos recebidos por Picasso em seu ateliê. Ele era simpático, sorridente, brincalhão. Mostrou-nos seus quadros, suas esculturas, seus desenhos. Era um gênio, um mestre, um revolucionário da arte." (p. 112)

- "Sartre e Simone de Beauvoir eram o casal mais famoso da França. Eles eram filósofos, escritores, ativistas políticos. Eles defendiam o existencialismo, o comunismo, o feminismo. Eles eram livres, modernos, polêmicos." (p. 134)

- "Jorge era um homem apaixonado. Apaixonado por mim, pela literatura, pelo Brasil, pela vida. Ele escrevia com fervor, com emoção, com humor. Ele criava personagens inesquecíveis, histórias envolventes, cenários coloridos. Ele era um grande escritor, um grande brasileiro, um grande homem." (p. 157)

O livro não tem uma simbologia explícita, mas pode-se interpretar o título como uma referência à posição de Zélia Gattai como uma mulher forte, independente, criativa e generosa, que conduz o seu baile, ou seja, a sua vida, com graça e dignidade. O baile também pode ser uma metáfora para a Europa, que se reergue após a guerra e se renova com a arte e a cultura.

A importância e a relevância cultural do livro estão em ser um documento histórico, um relato pessoal e uma obra literária de qualidade. O livro contribui para o conhecimento da história da Europa, da política, da cultura e da arte do século XX, bem como da biografia de Jorge Amado e de Zélia Gattai, dois dos maiores escritores brasileiros. O livro também é uma fonte de inspiração para os leitores, que podem aprender com as lições de vida, de amor e de esperança transmitidas pela autora.

Zélia Gattai (1916-2008) foi uma escritora, fotógrafa e memorialista brasileira. Nascida em São Paulo, filha de imigrantes italianos, ela se envolveu desde cedo com o movimento anarquista e com a cultura popular. Em 1945, casou-se com Jorge Amado, com quem teve dois filhos, João Jorge e Paloma. Em 1948, acompanhou o marido no exílio, que durou até 1952. De volta ao Brasil, fixou-se na Bahia, onde participou ativamente da vida cultural e política. Em 1980, publicou seu primeiro livro, Anarquistas, graças a Deus, que foi um sucesso de crítica e de público. Depois, escreveu mais dez livros, entre eles Um chapéu para viagem, Jardim de inverno, A casa do rio vermelho e Senhora dona do baile. Recebeu vários prêmios e homenagens, como o Prêmio Jabuti, o Prêmio Camões e a Ordem do Mérito Cultural. Foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 2001.

A crítica positiva que se pode fazer sobre o livro é que ele é uma obra encantadora, que mistura história, política, cultura e arte com humor, sensibilidade e honestidade. Zélia Gattai nos convida a viajar com ela pela Europa, a conhecer pessoas fascinantes, a viver aventuras e desafios, a rir e a chorar, a sonhar e a lutar. Ela nos mostra que a vida é um baile, que tem seus momentos de alegria e de tristeza, de esperança e de desespero, de amor e de dor, mas que vale a pena ser vivida com intensidade, com coragem e com paixão..

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