[RESENHA #874] Chão de meninos, de Zélia Gattai

Entre viagens a países longínquos e sentimentos ambíguos diante da política e da realidade, pequenas histórias do dia a dia e amigos que não param de lhe trazer surpresas, Zélia Gattai continua sua trajetória de narradora sábia e serena neste livro de memórias delicado.

Lançado no ano em que Jorge Amado completou oitenta anos de idade, Chão de meninos retoma os temas que guiaram Zélia Gattai em sua travessia do mundo. Em primeiro lugar, a paixão por Jorge. Depois, a fé, às vezes vacilante, mas sempre forte, no socialismo. E, por fim, o amor incondicional pelos amigos, a aposta, sem receio, nos outros.

O mundo de Zélia é filtrado pelos sentimentos de Jorge. Quando narra a morte de Stálin, mais do que relatar a perda de um ícone, ou expressar a própria dor, é na desorientação de Jorge que ela se detém - assim como se dedica a cuidar da perplexidade dele quando, reveladas as atrocidades, ambos se decepcionam com o líder russo. 

Na primeira vez em que embarcam em um DC-7 da Panair, mesmo maravilhada com o novo avião, ela se angustia diante do pânico do marido. Ao contar a morte de Graciliano Ramos, é da aflição de Jorge diante da morte que ela nos fala. Guiada sempre pelo olhar do outro, Zélia preferiu o lado discreto da sombra. Desse modo, tornou-se uma mulher notável, capaz de fazer do outro um espelho, e de se ver até em um menino que, descalço, pisa o chão.

RESENHA

Chão de meninos é o sexto livro de memórias da escritora brasileira Zélia Gattai, publicado em 1992 pela editora Companhia das Letras1. Nesta obra, a autora narra episódios de sua vida entre os anos de 1952 e 1960, período em que viveu no Rio de Janeiro, na França e na Bahia, ao lado de seu marido, o também escritor Jorge Amado2.

O estilo de Zélia Gattai é simples, fluente e envolvente, misturando fatos históricos, políticos e culturais com as experiências pessoais e familiares da autora. Ela utiliza uma linguagem coloquial, repleta de expressões populares, e recorre a cartas, diários, fotografias e documentos para reconstituir sua trajetória. O livro é dividido em 24 capítulos, cada um com um título sugestivo, que remete ao tema principal do texto.

Os principais personagens do livro são a própria Zélia Gattai, Jorge Amado e seus filhos João Jorge e Paloma, além de diversos amigos e personalidades que conviveram com o casal, como Pablo Neruda, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, entre outros. A autora também dedica alguns capítulos a figuras importantes de sua família, como seus pais, seus irmãos, seus sobrinhos e seus avós.

Um dos ensinamentos da obra é a valorização da amizade, da solidariedade, da liberdade e da diversidade cultural. Zélia Gattai mostra como o convívio com pessoas de diferentes origens, ideologias, crenças e costumes enriqueceu sua visão de mundo e sua sensibilidade. Ela também revela sua admiração e seu amor por Jorge Amado, com quem compartilhou sonhos, lutas, viagens, alegrias e tristezas.


Algumas citações da obra que ilustram o estilo e o conteúdo do livro são:

“A vida é feita de momentos, uns felizes, outros nem tanto. Mas todos eles são importantes, pois nos ensinam a viver.” (p. 13)

“Jorge era um homem de muitas paixões: pela literatura, pela política, pelo povo brasileiro, pela Bahia, pela família, pelos amigos, pela vida. E eu era uma delas, talvez a maior de todas.” (p. 45)

“Neruda era um poeta extraordinário, um ser humano generoso, um amigo leal. Tinha um humor contagiante, uma inteligência brilhante, uma sensibilidade profunda. Era um homem que amava as coisas simples da vida: o mar, as flores, os pássaros, o vinho, a música, a mulher.” (p. 87)

“A França era um país encantador, cheio de história, de arte, de cultura. Mas também era um país de contradições, de conflitos, de injustiças. A guerra da Argélia, por exemplo, era uma ferida aberta, que sangrava e doía. Nós nos solidarizávamos com a luta do povo argelino pela independência, contra o colonialismo francês.” (p. 123)

“A Bahia era a nossa terra prometida, o nosso paraíso, o nosso lar. Lá encontramos a paz, a harmonia, a felicidade que tanto buscávamos. Lá fizemos amigos queridos, que nos acolheram com carinho e respeito. Lá nos sentimos em casa, em família, em comunhão com a natureza, com a cultura, com a religiosidade do povo baiano.” (p. 189)

O período histórico retratado no livro abrange os anos 1950 e 1960, marcados por importantes acontecimentos no Brasil e no mundo, como o suicídio de Getúlio Vargas, a posse de Juscelino Kubitschek, a construção de Brasília, o golpe militar de 1964, a Revolução Cubana, a Guerra Fria, a Guerra da Coreia, a Guerra do Vietnã, a Guerra da Argélia, a morte de Stálin, a crise dos mísseis, a corrida espacial, entre outros. Zélia Gattai testemunha e comenta alguns desses fatos, dando sua opinião e sua visão crítica sobre eles.

A simbologia do livro está relacionada ao título, que remete à infância, à inocência, à pureza, à alegria, à liberdade e à esperança. O chão de meninos é o lugar onde se brinca, se sonha, se aprende, se vive. É também o lugar onde se planta, se colhe, se constrói, se transforma. É o lugar onde se encontra a essência da vida, a essência do ser humano.

A importância e a relevância cultural do livro estão na contribuição que ele dá para a preservação da memória, da história, da literatura e da cultura brasileiras. Zélia Gattai registra, com sensibilidade e talento, momentos significativos de sua vida e de sua época, que se entrelaçam com a vida e a obra de Jorge Amado, um dos maiores escritores do país. Ela também retrata, com simpatia e respeito, aspectos da cultura popular, da música, da arte, da religião, da gastronomia, da política, da sociedade e do povo brasileiro, especialmente o baiano.

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