[RESENHA #873] Jardim de inverno, de Zélia Gattai

Jardim de inverno é um livro de memórias da escritora brasileira Zélia Gattai, publicado em 1988. O livro narra os anos de exílio vividos por ela e seu marido, o escritor Jorge Amado, na Europa, entre 1949 e 1952, quando foram perseguidos pela ditadura militar no Brasil. O livro é um relato emocionante e sensível das experiências, angústias, alegrias e descobertas do casal em países como França, Tchecoslováquia, China e Mongólia, onde entraram em contato com diferentes culturas, paisagens e personalidades.

O estilo de Zélia Gattai é fluente, coloquial e envolvente, misturando fatos históricos, políticos e culturais com impressões pessoais, sentimentos e reflexões. A autora não se limita a narrar os acontecimentos, mas também os interpreta e os contextualiza, mostrando sua visão crítica e humanista da realidade. O livro é escrito em primeira pessoa, com um tom confessional e intimista, que aproxima o leitor da autora e de seu universo.

Os principais personagens do livro são Zélia Gattai e Jorge Amado, que protagonizam as aventuras e os desafios do exílio. Eles são retratados como um casal apaixonado, solidário, corajoso e idealista, que enfrenta as adversidades com otimismo e esperança. Além deles, o livro também apresenta outros personagens importantes, como os amigos e companheiros de exílio, os escritores, artistas e intelectuais que conheceram pelo caminho, e os habitantes dos lugares por onde passaram. Entre eles, destacam-se nomes como Pablo Neruda, Roman Polanski, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Mao Tsé-Tung e Ho Chi Minh.

O livro ensina ao leitor sobre a história do século XX, especialmente sobre os conflitos e as transformações políticas e sociais que marcaram a época. O livro também ensina sobre a cultura e a literatura de diversos países, mostrando a diversidade e a riqueza do mundo. Além disso, o livro ensina sobre o valor da amizade, da solidariedade, da liberdade, da paz e do amor, que são os temas centrais da obra.

Algumas citações do livro que ilustram esses temas são:

- \"A vida é bela, apesar de tudo, e vale a pena vivê-la intensamente, com amor e alegria, sem perder a fé no homem e na sua capacidade de superar as dificuldades e construir um mundo melhor.\" (p. 15)

- \"Não há nada mais forte do que o amor, nem mais poderoso do que a vontade de viver. O amor nos dá forças para resistir, para lutar, para esperar. O amor nos faz ver a beleza das coisas, mesmo nas horas mais sombrias.\" (p. 87)

- \"A amizade é um dos maiores tesouros que podemos ter na vida. A amizade nos faz sentir que não estamos sozinhos, que temos alguém que nos compreende, que nos apoia, que nos ajuda. A amizade nos faz crescer, nos faz aprender, nos faz felizes.\" (p. 123)

- \"A paz é o bem mais precioso da humanidade. A paz é a condição para o progresso, para a justiça, para a felicidade. A paz é o sonho de todos os povos, de todas as raças, de todas as religiões. A paz é o que nos une, o que nos faz irmãos.\" (p. 189)

O período histórico em que se passa o livro é o da Guerra Fria, que foi um conflito ideológico, político e militar entre os Estados Unidos e a União Soviética, que durou de 1947 a 1991. Nesse período, o mundo ficou dividido em dois blocos antagônicos, o capitalista e o socialista, que disputavam a hegemonia global. O livro mostra como essa disputa afetou a vida de milhões de pessoas, que sofreram com a violência, a opressão, a censura, a pobreza e a fome. O livro também mostra como essa disputa gerou movimentos de resistência, de libertação e de solidariedade, que buscavam uma alternativa ao sistema dominante.

A simbologia do livro está relacionada ao título, que é uma metáfora da situação dos exilados. Um jardim de inverno é um espaço fechado, protegido do frio e da neve, onde se cultivam plantas e flores. Assim, o jardim de inverno representa o refúgio, o aconchego, o calor e a beleza que os exilados encontraram em meio à hostilidade, à solidão, ao gelo e à tristeza do exílio. O jardim de inverno também representa a esperança, a renovação, a vida e a primavera que os exilados aguardavam.

A importância e a relevância cultural do livro estão ligadas à sua contribuição para a preservação da memória histórica, política e literária do Brasil e do mundo. O livro é um documento valioso, que registra os fatos, as ideias, as obras e as personalidades que marcaram uma época. O livro também é uma obra de arte, que expressa os sentimentos, as emoções, as impressões e as reflexões de uma escritora talentosa, sensível e engajada. O livro é, portanto, um testemunho e uma criação, que enriquecem a cultura brasileira e universal.

A biografia da autora é a seguinte: Zélia Gattai (1916-2008) foi uma escritora, fotógrafa e memorialista brasileira. Nascida em São Paulo, filha de imigrantes italianos, Zélia começou a escrever aos 63 anos, após a morte de seu primeiro marido, o comunista Aldo Veiga. Casou-se com Jorge Amado em 1945, com quem teve dois filhos, João Jorge e Paloma. Acompanhou o marido em seus exílios e viagens pelo mundo, registrando suas experiências em livros de memórias, como Anarquistas, graças a Deus (1979), Um chapéu para viagem (1982), Jardim de inverno (1988), Crônica de uma namorada (1995), Città di Roma (1996), A casa do Rio Vermelho (1999) e Memorial do amor (2004). Recebeu diversos prêmios literários, como o Jabuti, o Machado de Assis e o Camões. Foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 2001, ocupando a cadeira nº 23.

Jardim de inverno é um livro que encanta, emociona e ensina o leitor. É um livro que mistura história, política, cultura e literatura, com um estilo leve, envolvente e poético. É um livro que mostra a força do amor, da amizade, da solidariedade, da liberdade e da paz, em meio às dificuldades e aos conflitos do mundo. É um livro que celebra a vida, a beleza, a diversidade e a esperança, em meio ao inverno do exílio. É um livro que merece ser lido, relido e compartilhado, por sua qualidade, sua importância e sua relevância.

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