[RESENHA #872] Crônica de uma namorada, de Zélia Gattai

O romance de Zélia Gattai acompanha as dores e descobertas da menina Geane, que precisa enfrentar a morte da mãe e conviver com uma madrasta ao mesmo tempo que experimenta transformações físicas e o despertar da sexualidade. São temas simples que, nas mãos de Zélia, se transformam num relato de formação minucioso. Sem moldes e sem fórmulas, a menina se faz a cada pequeno golpe que a realidade lhe aplica. As paixões súbitas que atordoam suas relações com os meninos; a força das palavras, que pode estar nas linhas precárias de um telegrama; as lembranças infantis das férias, do Natal, das conversas com os mais velhos, que ajudam a temperar a agitação das mudanças. É nas pequenas alegrias - bailes de adolescentes, programas de calouros e o convívio com personagens fascinantes como Ricardina, a menina pobre que deseja se transformar em cantora - que a protagonista reúne forças para enfrentar as dificuldades e se redesenhar. Tendo como pano de fundo o início dos anos 1950 na cidade de São Paulo, Zélia não se deixa levar nem pela tentação sociológica nem por apelos da psicologia. Ela não escreve para explicar ou para interpretar, mas para contar uma boa história.

RESENHA

Crônica de uma namorada é o único romance da escritora brasileira Zélia Gattai, mais conhecida por suas obras autobiográficas, como Anarquistas, graças a Deus e Um chapéu para viagem. Publicado em 1995, o livro narra a história de Geana, uma menina que vive em São Paulo na década de 1950, e que passa por diversas mudanças em sua vida, desde a morte da mãe até o despertar da sexualidade.

O estilo de Zélia Gattai é leve, fluente e bem humorado, misturando ficção e realidade, já que alguns personagens e fatos são inspirados em sua própria experiência. A autora também retrata com riqueza de detalhes o cotidiano da época, as modas, as músicas, os costumes e as transformações sociais e culturais que o Brasil vivia.

Os principais personagens do livro são Geana, a protagonista, que narra em primeira pessoa suas aventuras, descobertas e desilusões; Ricardina, sua amiga e irmã de criação, que sonha em ser cantora e que a acompanha em suas peripécias; Beto, o primo de Geana, por quem ela se apaixona e que se revela um aproveitador; Nicola, o avô de Geana, que é um imigrante italiano anarquista e que lhe ensina muitas coisas; e Antonieta, a vizinha fofoqueira, que vive se intrometendo na vida alheia.

O livro traz alguns ensinamentos, como a importância da família, da amizade, da lealdade, da honestidade, da coragem, da liberdade e do amor. Também mostra as dificuldades e os desafios de crescer e se tornar uma mulher em uma sociedade machista e conservadora, que impõe padrões e limites às mulheres. Além disso, o livro valoriza a cultura brasileira, especialmente a música popular, que é uma das paixões de Geana e Ricardina.

Algumas citações do livro que ilustram esses aspectos são:

- "Eu não sabia que a vida era tão difícil, que a gente tinha que sofrer tanto para aprender a viver." (p. 25)
- "Eu queria ser livre, voar, conhecer o mundo, mas não podia. Tinha que obedecer às regras, aos horários, às convenções. Tinha que ser uma moça direita, recatada, comportada. Tinha que ser uma boneca de porcelana, sem vontade, sem desejo, sem vida." (p. 87)
- "A música era a nossa alegria, a nossa esperança, a nossa salvação. Cantávamos para esquecer as tristezas, para celebrar as vitórias, para expressar os sentimentos. Cantávamos para viver." (p. 113)
- "O vovô Nicola era o meu herói, o meu mestre, o meu amigo. Ele me ensinou a ler, a escrever, a pensar, a questionar, a lutar. Ele me ensinou a ser eu mesma, a não ter medo, a não me deixar enganar. Ele me ensinou a ser anarquista, graças a Deus." (p. 152)
- "O Beto foi o meu primeiro amor, o meu primeiro beijo, o meu primeiro homem. Ele também foi o meu primeiro desgosto, a minha primeira decepção, a minha primeira dor. Ele me fez sonhar, me fez mulher, me fez sofrer. Ele me fez crescer." (p. 199)

O livro se passa em um período histórico marcado pelo fim da Segunda Guerra Mundial, pela redemocratização do Brasil, pelo desenvolvimento econômico e pela efervescência cultural. Esses acontecimentos são mencionados pela autora, que os relaciona com a vida dos personagens e com o contexto em que eles vivem.

A simbologia do livro está presente em alguns elementos, como o chapéu que Geana ganha de seu pai, que representa o seu desejo de viajar e conhecer o mundo; o vestido vermelho que ela usa em seu aniversário de quinze anos, que simboliza a sua rebeldia e a sua sensualidade; e o espelho que ela quebra ao descobrir a traição de Beto, que significa a sua perda da inocência e da ilusão.

A importância e a relevância cultural do livro estão em sua capacidade de retratar uma época, uma geração, uma classe social e uma cultura de forma autêntica, divertida e emocionante. O livro também se destaca por ser uma obra de uma mulher, que escreve sobre as experiências, os sentimentos, os conflitos e as aspirações de outras mulheres, em uma perspectiva feminina e feminista.

A biografia da autora é breve, mas interessante. Zélia Gattai nasceu em São Paulo, em 1916, filha de imigrantes italianos. Casou-se aos vinte anos com Aldo Veiga, com quem teve um filho, Luís Carlos. Separou-se oito anos depois e conheceu Jorge Amado, com quem viveu até a morte dele, em 2001. Com Jorge, teve dois filhos, João Jorge e Paloma, e viajou pelo mundo, vivendo em diversos países. Começou a escrever aos 63 anos, publicando vários livros de memórias, que foram premiados e traduzidos. Em 2001, foi eleita para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira que foi de Jorge Amado. Morreu em Salvador, em 2008, aos 91 anos.


Crônica de uma namorada é um livro encantador, que nos faz rir, chorar, sonhar e lembrar de nossa própria juventude. Zélia Gattai nos presenteia com uma narrativa envolvente, cheia de humor, ternura e sensibilidade, que nos faz sentir próximos dos personagens e de suas histórias. É um livro que celebra a vida, o amor, a amizade, a família, a música, a liberdade e a mulher. É um livro que vale a pena ler e reler, para se deliciar com a arte e a graça de Zélia Gattai.

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