[RESENHA #870] Memorial do amor & vacina de sapo, de Zélia Gattai

A escrita de Zélia Gattai nunca se deixou guiar pelos protocolos literários, que pedem refinamento, estilo e sentido. Desenrolou-se, ao contrário, à margem da literatura. Fixada entre a ficção e a realidade, e fazendo de si mesma uma figura ficcional, Zélia usou a literatura como um mirante, do qual - protegida pelas armaduras do imaginário - pôde se debruçar, com leveza e liberdade, sobre o mundo real. Mesmo quando editados em separado, nos formatos em que ela os escreveu, seus livros guardam elos secretos, que os transformam em um único livro. As fronteiras de gênero e os cânones nunca interessaram a Zélia. Daí que, reunidos agora em um só volume, Memorial do amor, de 2004, e Vacina de sapo, de 2005, apresentam uma súbita coerência, ainda que marcada pela incoerência. Os pontos de partida divergem. No primeiro livro, ela parte de recordações de sua vida amorosa com Jorge Amado. No segundo, de recordações esparsas, organizadas só pelo puro prazer de relatar. Escritos quando Zélia já beirava os noventa anos, seus dois derradeiros livros de memórias foram inspirados “na saudade, no amor, na amizade e na generosidade”, como afirma a filha Paloma Amado no prefácio a Memorial do amor. Mesmo diante da imensa dor da perda de Jorge Amado, seu companheiro de uma vida inteira, e de acompanhar vigilante seus últimos anos de vida, Zélia preserva a escrita doce, sensível e direta que sempre foram a marca de seus relatos.

RESENHA

Memorial do amor & vacina de sapo é um livro de memórias da escritora brasileira Zélia Gattai, publicado em 2013 pela editora Companhia das Letras. O livro reúne dois volumes anteriores da autora, Memorial do amor (2004) e Vacina de sapo (2005), que narram episódios de sua vida ao lado do marido, o também escritor Jorge Amado, com quem viveu por mais de cinquenta anos.

O estilo de Zélia Gattai é simples, coloquial e afetivo, sem se preocupar com as convenções literárias ou as fronteiras de gênero. Ela mistura ficção e realidade, fazendo de si mesma uma personagem ficcional, e usa a literatura como um mirante, de onde observa e relata o mundo real com leveza e liberdade. Suas memórias são repletas de humor, ternura, nostalgia e admiração pelo companheiro de vida e de letras.

Os principais personagens do livro são, obviamente, Zélia e Jorge, mas também há espaço para muitos outros que fizeram parte de sua história, como familiares, amigos, artistas, políticos, intelectuais e até animais de estimação. Zélia conta desde os primeiros encontros com Jorge, no movimento pela anistia dos presos políticos, até os últimos momentos juntos, na casa do Rio Vermelho, em Salvador. Ela também recorda as viagens pelo Brasil e pelo mundo, os períodos de exílio na Europa, as festas, os livros, as dificuldades e as alegrias.

O livro é um testemunho de uma época marcada por grandes transformações sociais, políticas e culturais no Brasil e no mundo. Zélia e Jorge foram testemunhas e protagonistas de muitos desses acontecimentos, como a luta contra a ditadura militar, o engajamento no Partido Comunista, a defesa da cultura popular, a valorização da identidade nacional e a participação na vida literária. O livro também é um retrato de uma relação amorosa duradoura, baseada na cumplicidade, no respeito, na admiração e na paixão.

Algumas citações do livro que ilustram o estilo e o conteúdo da obra são:

- "Jorge foi logo escolhendo: 'A 'zebrinha' é minha'. A mais bonita, pois, ficou sendo dele. A outra, que jeito? De dona Zélia."
- "Ainda hoje, quando me lembro, sinto o perfume das flores, ouço o canto dos pássaros, vejo o sorriso de Jorge, que me dizia: 'Você é a mulher mais bonita do mundo'."
- "Foi assim que, em 1945, conheci Jorge Amado. Foi amor à primeira vista. E para sempre."
- "Nunca me esquecerei daquele dia em que, ao chegar em casa, encontrei Jorge sentado à máquina de escrever, com um sorriso maroto nos lábios. Ele me disse: 'Zélia, acabei de escrever o último capítulo de Gabriela, cravo e canela. Quer ouvir?'."
- "Jorge era um homem generoso, solidário, amigo dos amigos, amante da vida. Ele me ensinou a ver o mundo com outros olhos, a valorizar as coisas simples, a lutar pelos meus ideais, a escrever com o coração."

O livro é uma obra de grande valor simbólico, pois celebra o amor entre dois dos maiores escritores brasileiros, que marcaram a literatura nacional com suas obras de forte conteúdo social, regional e humano. O livro também é uma homenagem à memória de Jorge Amado, que faleceu em 2001, e à sua obra, que foi reconhecida nacional e internacionalmente. Zélia Gattai, que faleceu em 2008, também deixou um legado literário importante, com seus livros de memórias que resgatam a história de uma geração e de um país.

Zélia Gattai nasceu em São Paulo, em 1916, filha de imigrantes italianos. Casou-se aos vinte anos com Aldo Veiga, com quem teve um filho, Luís Carlos. Separou-se oito anos depois e conheceu Jorge Amado em 1945, com quem se casou oficialmente em 1976, depois de viverem juntos por mais de trinta anos. Com Jorge, teve dois filhos, João Jorge e Paloma. Começou a escrever aos 63 anos, com o livro Anarquistas, graças a Deus, que foi um sucesso de público e de crítica. Escreveu mais nove livros de memórias, três livros infantis, uma fotobiografia e um romance. Em 2001, foi eleita para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira nº 23, que pertenceu a Jorge Amado.

Memorial do amor & vacina de sapo é um livro que encanta e emociona o leitor, pela sinceridade, pela simplicidade e pela beleza com que Zélia Gattai narra sua vida ao lado de Jorge Amado. É um livro que revela não só a intimidade de um casal, mas também a história de um país, com suas lutas, suas conquistas, suas contradições e suas riquezas. É um livro que celebra o amor, a amizade, a arte, a liberdade e a vida. É um livro que merece ser lido, relido e compartilhado.

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