[RESENHA #869] Toda a saudade do mundo: as correspondência de Zélia Gattai & Jorge Amado, de Zélia Gattai

Jorge Amado era “um homem epistolar”, como lembra o filho João Jorge Amado, organizador do volume e destinatário de bilhetes e cartões-postais. As cartas de Jorge a Zélia - a quem o escritor chamava carinhosamente de Zé - foram preservadas por ela em cinco pastas, misturadas a cartas que escreveu ao marido e a outras que receberam do pai de Jorge, da mãe e da irmã de Zélia, além de bilhetes dos filhos.O tom das cartas de Jorge é de um homem apaixonado, atencioso e preocupado com a mulher e a família, mas também prático, envolvido com a política e zeloso da própria obra. O livro fornece dados biográficos relevantes e permite conhecer um pouco do processo criativo, do dia a dia e da vida íntima do escritor. Em janeiro de 1948, Jorge Amado partiu para o exílio em Paris, depois de ver cassado seu mandato de deputado pelo Partido Comunista Brasileiro. Ainda durante a viagem de navio, passou a escrever regularmente à mulher, com quem vivia desde 1945 e que iria encontrá-lo alguns meses depois, com João Jorge nos braços. O livro registra as dificuldades e provações experimentadas na Europa do pós-guerra, a vida cultural na capital francesa, a participação do escritor no Conselho Mundial da Paz e viagens por cidades como Berlim, Viena, Praga, Estocolmo, Helsinque e Varsóvia. Alguns episódios históricos, no contexto da Guerra Fria, ganham destaque: a eleição na Itália em 1948, a morte de Gandhi, a Guerra da Coreia, a crise dos mísseis e o bloqueio a Cuba, assim como o prêmio Nobel de Pablo Neruda. Mesmo depois de voltar ao Brasil, em 1952, Jorge continua a viajar para a Europa regularmente e, depois, para Salvador, onde constrói a famosa Casa do Rio Vermelho.Edição ilustrada com manuscritos e postais

RESENHA

Toda a saudade do mundo: as correspondências de Zélia Gattai & Jorge Amado é um livro organizado por João Jorge Amado, filho do casal de escritores, que reúne as cartas trocadas entre eles durante os anos de 1948 a 2001. O livro é uma bela homenagem à história de amor, cumplicidade e parceria de Zélia e Jorge, que viveram juntos por 56 anos, enfrentando as adversidades políticas, sociais e culturais do Brasil e do mundo.

O livro é dividido em cinco partes, cada uma correspondendo a uma pasta onde Zélia guardava as cartas. A primeira parte abrange o período do exílio de Jorge na Europa, após a cassação de seu mandato de deputado pelo Partido Comunista Brasileiro. A segunda parte narra o retorno do casal ao Brasil, em 1952, e as viagens que fizeram pela América Latina, África e Ásia. A terceira parte mostra a mudança do casal para Salvador, em 1960, e a construção da famosa Casa do Rio Vermelho. A quarta parte retrata os anos de ditadura militar no Brasil e as perseguições que Jorge sofreu. A quinta parte cobre os últimos anos de vida de Jorge, até sua morte em 2001.

As cartas revelam a personalidade, o estilo e a obra de cada um dos escritores. Zélia escreve com humor, sensibilidade e detalhismo, contando sobre o cotidiano da família, os amigos, os livros, os filmes, as festas e as saudades. Jorge escreve com paixão, atenção e praticidade, demonstrando seu amor por Zélia, seu interesse pela política, sua dedicação à literatura, sua preocupação com os filhos e sua admiração pelos colegas escritores. As cartas também mostram a evolução da relação entre eles, que passa por momentos de alegria, tristeza, ciúme, ternura, conflito e reconciliação.

O livro é um documento histórico e cultural, que permite ao leitor conhecer um pouco mais sobre o contexto em que Jorge e Zélia viveram e produziram suas obras. As cartas registram episódios importantes da história mundial, como a Guerra Fria, a Revolução Cubana, o Prêmio Nobel de Pablo Neruda, o Golpe de 1964, entre outros. As cartas também revelam a convivência do casal com personalidades ilustres da cultura brasileira e internacional, como Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi, Gabriel García Márquez, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, entre outros.

O livro é uma obra emocionante e envolvente, que cativa o leitor pela sinceridade, pela simplicidade e pela beleza das cartas. O livro é também uma prova de que o amor pode resistir ao tempo, à distância e às dificuldades, e que a literatura pode ser uma forma de expressar e preservar esse sentimento. O livro é, enfim, um presente para os admiradores de Zélia e Jorge, que podem conhecer um pouco mais sobre a vida e a obra desses dois grandes escritores brasileiros.

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