[RESENHA #867] Água viva, de Clarice Lispector


Desde seus primeiros textos Clarice Lispector anuncia um brilhante projeto literário. Água viva, publicado em 1973, adensa o processo característico de sua narrativa, enfatizando-lhe a fragmentação, a contaminação do romanesco com o lírico e o abrandamento das linhas descritivas e representacionais, recursos menos acentuados em outras de suas obras, anteriores e posteriores.

A trama do livro é tênue, o que faz dele "um romance sem romance". Um eu, declinado no feminino, escreve a um tu, no masculino, expondo suas ânsias e procuras, num discurso de fluidez ininterrupta entre o delírio, a confissão e a sedução: "Para te escrever eu antes me perfumo toda. Eu te conheço todo por te viver toda." O eu e o tu de Água viva ganham dimensões permutáveis de significação, integrando-se com o não humano: a natureza, as palavras, os animais, a "coisa" ou o "it". A linguagem se espessa numa densa selva de palavras e a obra descortina voraz processo de correspondências que interconectam vida, paixão e violência.

Obsessivamente, a protagonista de Água viva busca surpreender as intrincadas relações entre o instante fugidio e sua inscrição no espaço. Sem nome, escondida sob o pronome eu, a personagem procura entender o significado da solidão e o de seu estar no mundo, no desencadear dos instantes que prefiguram um presente contínuo onde os limites cada vez mais esgarçados entre o que é interior e exterior à personagem desaparecem. Nesse lugar "enfeitiçado", em linguagem incandescente, escreve Clarice Lispector Seu texto faz fluir o sentimento de agora e, paradoxalmente, interliga a petrificação e a mudança.

Água viva é um lindo poema em prosa, no qual se comemora a vida de tudo o que, intensamente, é. Sem receitas para decodificar o mundo enfeitiçado da incitante narrativa, o leitor toma consciência de que já não dispõe de modelos para ler, nem para entender Clarice Lispector.

- Lucia Helena, Professora titular de Literatura Brasileira da UFF. Autora, dentre outros livros, de Nem musa nem medusa: Itinerários da escrita em Clarice Lispector.

RESENHA

Água viva é um livro que desafia as convenções do gênero romanesco, pois não possui uma trama linear, nem personagens definidos, nem um narrador convencional. O livro é composto por um fluxo de pensamentos de uma mulher, que se dirige a um interlocutor misterioso, chamado apenas de “tu”. Ela revela suas angústias, seus desejos, suas memórias, suas impressões sobre o mundo, sua busca pela essência das coisas, sua relação com a arte e a linguagem. O livro é uma espécie de poema em prosa, que explora as possibilidades expressivas da palavra, criando imagens, sons, ritmos, metáforas e paradoxos.

O livro foi publicado em 1973, no final da vida de Clarice Lispector, que morreu em 1977. Foi o penúltimo livro da autora, que depois lançou A hora da estrela, seu romance mais conhecido. Água viva passou por várias edições e reedições, sendo considerado um dos livros mais complexos e originais de Clarice. O livro foi escrito em um período histórico marcado pela ditadura militar no Brasil, que reprimia a liberdade de expressão e a diversidade cultural. No entanto, Clarice não se envolveu diretamente com a política, preferindo se dedicar à sua obra literária, que refletia sua visão de mundo e sua experiência existencial.

Algumas citações marcantes do livro são:

  • "Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada."
  • "Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca. E tudo isso ganhei ao deixar de te amar."
  • "Liberdade? é o meu último refúgio, forcei-me à liberdade e aguento-a não como um dom mas com heroísmo: sou heroicamente livre."
  • “Escrevo-te sentada junto de uma janela aberta no alto do meu ateliê. E o que escrevo é isto: é um instante de vida captado no ar.”
  • "Eu te escrevo para te dizer que estou viva. E que estou escrevendo. Escrever é uma vocação tão forte que se tornou uma resistência. E é por isso que eu escrevo: para resistir."

Água viva se diferencia dos outros livros de Clarice Lispector por sua forma fragmentária, que rompe com a lógica narrativa tradicional. O livro não tem uma história, mas sim uma sucessão de instantes, que se assemelham às águas vivas, que são seres aquáticos que se movem livremente pelo mar, sem um rumo definido. O livro também se aproxima dos outros livros de Clarice Lispector por sua temática existencial, que aborda questões como o amor, a morte, a solidão, a criação, a transcendência, a identidade, o tempo, o silêncio, o mistério. O livro é uma expressão da voz singular de Clarice, que se caracteriza por sua profundidade, sua sensibilidade, sua originalidade, sua beleza.

O livro fornece ao leitor vários ensinamentos e aprendizados, que podem variar de acordo com a interpretação e a sensibilidade de cada um. O livro pode ensinar ao leitor a valorizar os momentos simples e intensos da vida, a buscar a sua própria verdade, a se expressar com autenticidade, a se aventurar pelo desconhecido, a se conectar com a sua essência, a se libertar das convenções, a se admirar com a beleza do mundo, a se questionar sobre o sentido da existência, a se desafiar pela arte e pela linguagem.

O livro não tem uma lista de personagens, pois não há uma distinção clara entre quem fala e quem ouve, quem é real e quem é imaginário, quem é humano e quem é animal, quem é vivo e quem é morto. O livro é uma espécie de diálogo entre o eu e o tu, que podem ser entendidos como duas partes da mesma pessoa, ou como duas pessoas diferentes, ou como duas entidades abstratas. O livro também é povoado por outras presenças, que aparecem de forma fugaz e simbólica, como as flores, os bichos, as cores, os sons, os cheiros, os objetos, os sonhos, as visões.

O livro não se situa em um período histórico específico, pois não há referências temporais ou espaciais que situem a ação. O livro se passa em um tempo atemporal, em um espaço indefinido, em um mundo interior, que se mistura com o mundo exterior. O livro é uma experiência sensorial, que transcende as categorias do tempo e do espaço.

O livro tem uma grande importância e relevância cultural, pois é uma obra que representa a originalidade e a inovação da literatura brasileira, que se destaca pela sua qualidade estética, pela sua riqueza semântica, pela sua ousadia formal, pela sua expressividade poética. O livro é uma obra que desafia o leitor, que provoca o pensamento, que estimula a imaginação, que emociona a sensibilidade, que revela a alma. O livro é uma obra que reflete a identidade e a cultura brasileiras, que se caracterizam pela sua diversidade, pela sua criatividade, pela sua mistura, pela sua beleza.

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